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Quando Ele Me Rejeitou, a Noite Me Abraçou
O frio daquela noite parecia vir de dentro. Como se minha alma tivesse perdido o prĂłprio calor. Eu andava pela floresta com os pĂ©s descalços, afundando levemente na terra Ășmida, tentando escapar de algo que morava em mim â um grito contido, um amor que me queimava e agora... sĂł doĂa. O nome dele ainda ecoava em minha mente. Marco. Meu Alfa. Ou melhor... aquele que eu acreditei que fosse. Eu o amava. Desde antes de saber o que era amor. Desde os primeiros uivos da minha infĂąncia sob a lua cheia. Desde a primeira vez que seus olhos escuros cruzaram os meus com a intensidade de quem comanda nĂŁo sĂł uma alcateia, mas coraçÔes. E quando chegou o meu Despertar â aquele momento sagrado em que a Luna Ă© escolhida â eu soube. Era ele. SĂł podia ser ele. O vĂnculo pulsava em mim como uma segunda pele, um chamado primal, quase doloroso. Mas ele... Ele me olhou como se eu fosse uma maldição. âNĂŁo Ă© vocĂȘâ, ele disse. âVocĂȘ nĂŁo me completa, Alice. Eu nĂŁo quero vocĂȘ.â Houve um instante de silĂȘncio. Um lapso onde o mundo pareceu parar... e depois, ele completou com crueldade: âEu preferia que vocĂȘ desaparecesse.â Foram essas palavras que me quebraram. Que rasgaram nĂŁo sĂł minha esperança, mas a alma que ainda se curvava diante dele. Fugi. NĂŁo sei quanto tempo faz. A floresta parece viva, como se sentisse minha dor. As ĂĄrvores sussurram entre si, os galhos rangem sob o peso do luto que trago no peito. Estou sozinha â ou acho que estou. Minha forma humana vacila. Meus instintos ainda querem correr. Uivar. Gritar. Mas eu apenas caminho. AtĂ© que minhas pernas fraquejam e eu caio de joelhos. âPor quĂȘ?â sussurro, sentindo as lĂĄgrimas escorrerem, quentes, misturando-se com a terra. E entĂŁo, do nada, sinto. Um toque. Um calor. Um abraço. Forte. Firme. E ao mesmo tempo... cheio de uma delicadeza que me desmonta. NĂŁo vejo o rosto. SĂł sinto os braços ao meu redor, o peito firme onde repouso meu rosto sem forças, o cheiro de vinho tinto e madeira antiga. Ă diferente de tudo. Ă proteção. Ă refĂșgio. Ă... mĂĄgico. Meu corpo inteiro estremece. Meu lobo interior, ferido e encolhido, finalmente solta um suspiro. NĂŁo sei quem Ă©. Mas no fundo, em algum lugar profundo do meu ser, uma suspeita me atravessa como um raio silencioso. Rafael. O Supremo. O Ășnico acima do Alfa. Aquele que todos respeitam, que poucos veem... e que ninguĂ©m realmente conhece. Ele Ă© uma lenda viva, envolto em sombras e histĂłrias sussurradas. Dizem que ele aparece apenas quando a Lua quer intervir. Quando algo muito errado... ou muito certo, estĂĄ prestes a acontecer. Sinto minha respiração embalar. Meu coração, antes ferido, agora pulsa de um jeito novo. Como se uma parte de mim que sempre esteve adormecida estivesse começando a acordar. Se for ele... Por que me abraçou? Por que agora? E, acima de tudo... por que meu corpo responde a esse toque como se o conhecesse desde o inĂcio dos tempos? A floresta estĂĄ em silĂȘncio. Mas nĂŁo Ă© o mesmo silĂȘncio de antes. Agora hĂĄ um peso no ar. Algo antigo, solene... e sagrado. Levanto lentamente o rosto, tentando ver o seu. Mas a escuridĂŁo â ou talvez a magia â ainda o mantĂ©m encoberto. âVocĂȘ nĂŁo estĂĄ sozinha, Alice,â diz ele, com uma voz grave, baixa, como um trovĂŁo abafado entre as ĂĄrvores. Meu nome nos lĂĄbios dele soa diferente. NĂŁo como ofensa. NĂŁo como rejeição. Mas como promessa. E eu... Eu, que nĂŁo queria mais ver o sol nascer, agora estou envolta em algo mais profundo que a luz. Talvez seja o inĂcio da noite. Ou talvez seja o inĂcio de algo maior. Algo que ainda nĂŁo entendo, mas jĂĄ sinto. Algo que arde sob minha pele. Que chama o meu lobo. E que marca meu destino. A Lua me observa entre os galhos. Silenciosa. Atenta. Quase cĂșmplice. E eu entendo, finalmente: NĂŁo fui rejeitada para ser esquecida. Fui marcada pela Lua. Para algo que vai muito alĂ©m de um Alfa que nĂŁo me quis.O NOME ESQUECIDOO trovĂŁo ecoou por toda a floresta.NĂŁo foi um som comum. Parecia carregar uma voz antiga, grave, profunda, como se a prĂłpria montanha estivesse despertando depois de sĂ©culos de silĂȘncio.A coluna de luz vermelha permanecia rasgando o cĂ©u ao norte, imĂłvel, pulsando lentamente como o coração de uma criatura adormecida.NinguĂ©m falou.Nem Marco.Nem Rafael.Nem Arkan.Todos olhavam para o horizonte.Foi Elara quem rompeu o silĂȘncio dentro de mim."Ele estĂĄ respirando outra vez."Um arrepio percorreu minha espinha.â Quem Ă© "ele"? â perguntei mentalmente.A loba nĂŁo respondeu.Pela primeira vez desde que despertara completamente, senti medo vindo dela.NĂŁo medo por si mesma.Medo por mim.Arkan caminhou lentamente atĂ© uma das janelas da mansĂŁo.Seu rosto endureceu.â Durante sĂ©culos acreditamos que os registros haviam sido destruĂdos.Rafael aproximou-se.â EntĂŁo eles sobreviveram?O velho guardiĂŁo assentiu.â Sobreviveram porque alguĂ©m precisava lembrar.Marco cruzou o
A PRIMEIRA FISSURAO amanhecer chegou tĂmido.Pela primeira vez em muitos anos, a floresta permaneceu em absoluto silĂȘncio. Nem os pĂĄssaros ousavam cantar. Nem o vento atravessava as copas das ĂĄrvores.Era como se toda a natureza estivesse esperando.Eu observava o horizonte da varanda da mansĂŁo quando senti Elara despertar lentamente dentro de mim.NĂŁo era inquietação.Era um aviso.â Eles começaram a se mover... â ela sussurrou.Fechei os olhos.Ao longe, muito alĂ©m das montanhas que protegiam o territĂłrio da alcateia, pequenas ondas de energia surgiam como pedras lançadas sobre a superfĂcie de um lago.Uma.Depois outra.Depois dezenas.AlguĂ©m estava procurando por mim.Marco apareceu atrĂĄs de mim sem fazer qualquer ruĂdo.â VocĂȘ tambĂ©m sentiu?Assenti.â NĂŁo sĂŁo apenas lobos.Ele apoiou os braços na sacada de pedra.â NĂŁo.Seu rosto parecia mais cansado do que na noite anterior.As olheiras denunciavam que ele nĂŁo havia dormido.â Recebi notĂcias durante a madrugada.Olhei para e
QUANDO A LUA COMEĂA A SANGRARA mansĂŁo nĂŁo voltou ao normal depois que Selene desapareceu.Ela ficou⊠diferente.Como se as paredes tivessem ouvido demais.Como se a madeira antiga guardasse segredos que agora começavam a se mexer sob a superfĂcie.Eu permaneci parada no corredor por vĂĄrios segundos depois que a presença dela se dissipou. O silĂȘncio era tĂŁo absoluto que podia ouvir o som do meu prĂłprio sangue correndo nas veias.Marco foi o primeiro a se mover.â Isso nĂŁo Ă© possĂvel⊠â ele murmurou, passando a mĂŁo pelos cabelos. â A Primeira Marcada foi apagada da histĂłria. NinguĂ©m sobrevive a um selo entre mundos.Rafael, ao contrĂĄrio, estava imĂłvel. Pensativo. Analisando.â Sobrevive⊠se a Lua permitir. â disse ele, finalmente. â E a Lua nunca faz nada sem propĂłsito.O peso dessa frase caiu diretamente sobre mim.Elara estava inquieta. NĂŁo com medo â mas com expectativa. Era como se algo dentro dela estivesse sendo chamado pelo nome verdadeiro.â Ela disse que a Lua vai sangrar. â e
A PRIMEIRA MARCADA PELA LUAO vento que invadiu a mansĂŁo nĂŁo era apenas frio â era antigo.Carregava consigo o cheiro de algo que nĂŁo pertencia mais a este tempo, uma essĂȘncia esquecida pelas geraçÔes, mas profundamente reconhecida pela Lua.Meu corpo reagiu antes mesmo que minha mente pudesse compreender.Elara se ergueu dentro de mim com um uivo silencioso, ancestral, fazendo minha pele arrepiar como se cada poro estivesse ouvindo um chamado impossĂvel de ignorar. Meu coração disparou, nĂŁo por medo comum, mas por reconhecimento.A figura feminina avançou alguns passos para dentro do corredor, deixando que a luz lunar finalmente a tocasse por completo.Ela era alta, esguia, envolta por um manto cinza-prateado que parecia se mover como fumaça viva. Seus cabelos eram longos, de um branco quase luminescente, nĂŁo de velhice, mas de poder. Os olhos⊠os olhos eram de um prata puro, tĂŁo intensos que pareciam refletir diretamente a Lua no cĂ©u.Marco e Rafael se colocaram instintivamente em p
ENTRE O ALFA, O SUPREMO E A MARCA QUE ME RECLAMAA mansĂŁo parecia respirar. NĂŁo como uma construção antiga cercada por paredes silenciosas, mas como um organismo vivo, pulsante, alimentado pelas emoçÔes que fervilhavam entre nĂłs trĂȘs. O corredor estava mergulhado em sombras profundas, tocado apenas pela luz azulada da lua que se infiltrava pelas janelas altas, lançando reflexos prateados sobre as paredes de madeira escura.Eu ainda sentia o calor das mĂŁos de Rafael nos meus braços â firme, protetor, silenciosamente possessivo. Zahor, dentro dele, vibrava como um trovĂŁo contido, atento a cada nuance do ambiente, a cada mudança no meu respirar. Ele sabia. Ele sempre sabia. Que algo estava para acontecer⊠e que aquilo mudaria tudo.Marco estava parado Ă minha frente, tĂŁo imĂłvel quanto uma estĂĄtua esculpida em puro desejo reprimido. Seus olhos escuros ardiam como brasas prestes a incendiar a noite. Korran farejava o ar dentro dele, inquieto, selvagem, faminto. A rejeição que me dera â sua
O LOBO QUE SE AJOELHA E O LOBO QUE SE ERGUEA Lua parecia maior naquela noite.NĂŁo apenas brilhante â viva.Um olho vigilante no cĂ©u, ardendo como se tivesse sido acesa especialmente para testemunhar o que estava prestes a acontecer entre nĂłs trĂȘs. A luz prateada caĂa sobre a floresta como uma chuva silenciosa, tocando cada folha, cada pedra, cada fragmento de ar. Tudo cintilava como se estivesse revestido por magia lĂquida.E no centro desse cenĂĄrio quase sagrado⊠estĂĄvamos nĂłs.Eu conseguia sentir a respiração de ambos â Marco atrĂĄs de mim, quente, densa, carregada de desejo e arrependimento; Rafael Ă minha frente, firme, impecĂĄvel, com seus olhos verdes incendiados por algo que ele raramente permitia que transbordasse.Zahor e Elara sussurravam dentro de nĂłs trĂȘs, vibrando como cordas tensas prestes a se romper.Korran, porĂ©mâŠKorran tremia.NĂŁo de medo â Marco nĂŁo conhecia esse sentimento.Mas de necessidade.Eu sentia sua energia selvagem raspando contra ele por dentro.â AliceâŠ







