Share

Capítulo 04

Author: Ding
Na manhã seguinte, eu estava tão nervosa que não consegui comer.

Minha mãe tentou me dar uma colherada de mingau, mas virei o rosto.

— Você precisa comer — disse ela.

— Eu como mais tarde.

— Você sempre diz isso.

Consegui esboçar um pequeno sorriso.

— Mãe... por favor. Só me ajude a me arrumar.

Ela soltou um longo suspiro — aquele suspiro cansado que se tornara sua marca registrada ao longo dos últimos sete anos — e foi buscar minhas coisas.

Pedi que ela me levasse de cadeira de rodas até o velho carvalho antes mesmo de o sol nascer completamente.

O ar da manhã estava frio e úmido, e a grama ainda estava coberta de orvalho.

O velho carvalho erguia-se na borda da floresta, com os galhos abertos como braços estendidos em direção ao céu.

Foi debaixo daquela árvore que Kane me beijou pela primeira vez, quando tínhamos quinze anos e éramos jovens demais para entender o que realmente significava sermos companheiros.

Foi ali que Ilsa me disse para fingir uma traição, para partir o coração dele, a fim de que pudesse partir para o Norte e se tornar alguém grandioso.

Foi ali que esperei por Kane centenas... milhares de vezes ao longo dos anos.

Esperei.

O sol foi subindo no céu.

O orvalho secou sobre a grama.

Os pássaros cantavam entre os galhos acima de mim.

Kane não apareceu.

O meio-dia chegou.

O sol já estava exatamente sobre nossas cabeças, e minha mãe mudava o peso do corpo de um pé para o outro, claramente impaciente.

— Ele não vem — disse ela.

— Ele disse que viria.

— As pessoas dizem muitas coisas.

Tentei falar com ele pelo vínculo mental.

Nada.

Apenas silêncio.

Um vazio onde sua presença deveria estar. Talvez ele tivesse bloqueado o vínculo novamente. Talvez tivesse mudado de ideia.

Ou talvez Vivra tivesse lhe dito alguma coisa... Sussurrado veneno em seu ouvido enquanto ele a abraçava na cama.

Minha mãe pediu que voltássemos para casa.

Eu me recusei.

— Isso está custando caro demais para você — disse ela. — Você vai desmaiar.

— Então me deixe desmaiar. Pelo menos vou desmaiar aqui, debaixo desta árvore, onde esperei por ele tantas vezes antes.

Ela não discutiu.

Apenas se sentou na grama ao lado da minha cadeira de rodas e segurou minha mão.

Finalmente, no começo da tarde, uma mensagem chegou através do vínculo.

Duas palavras.

Estamos indo.

Minha mãe viu a expressão no meu rosto e entendeu.

Ela se levantou, sacudiu a grama do vestido e colocou o sorriso mais corajoso que conseguiu.

Ela me amava demais para dizer não.

Quando eles chegaram de carro, Vivra se inclinou para fora da janela do banco do passageiro com um sorriso preguiçoso e satisfeito. Seu cabelo estava despenteado, e ela vestia a jaqueta de Kane sobre os ombros.

— Desculpe o atraso, Selene — disse ela. — Kane não me deixou dormir muito na noite passada.

Ela falou aquilo como se fosse um elogio. Como se estivesse exibindo um troféu.

Enterrei as unhas nas palmas das mãos.

A dor me ajudou a permanecer firme.

Kane saiu do carro.

Dobrou minha cadeira de rodas e a colocou no porta-malas sem sequer olhar para mim.

Depois sentou-se ao volante, enquanto minha mãe me ajudava a entrar no banco de trás.

Ele lançou apenas um rápido olhar para mim pelo retrovisor e disse friamente a Vivra:

— Por que se justificando pra ela?

Vivra deu de ombros.

— Só estou sendo simpática.

Baixei os olhos para minhas mãos. Elas estavam tremendo.

Kane dirigia rápido.

Rápido demais.

O carro sacudia a cada buraco e irregularidade da estrada, e meu corpo estava fraco demais para se sustentar.

A cada curva, eu deslizava pelo banco traseiro, batendo os ossos contra a porta, contra o vidro, enquanto o cinto de segurança pressionava dolorosamente meu peito.

Lembrei-me de como ele costumava dirigir.

Suave.

Cuidadoso.

Ele estendia a mão direita e a apoiava sobre meu joelho, apenas para me lembrar de que estava ali.

Reduzia a velocidade antes de cada curva e acelerava devagar sempre que o carro voltava a andar.

Ele sabia que eu enjoava facilmente e nunca queria que eu me sentisse desconfortável.

Agora, fez uma curva fechada em alta velocidade.

Meu corpo foi lançado contra a porta do lado direito.

Um pequeno som escapou da minha garganta.

Um gemido quase inaudível sob o barulho do motor. Ele ouviu.

E riu.

— Você realmente achou que eu pegaria leve com você? — disse, sem tirar os olhos da estrada. — Aqueles dias acabaram.

Enxuguei os olhos antes que ele percebesse.

— Não — respondi baixinho. — Agora você deve dirigir assim por Vivra. Ela é sua companheira.

Ele riu outra vez. Uma risada amarga. Áspera.

Então pisou ainda mais fundo no acelerador.

O carro deu um solavanco para a frente.

Minha cabeça bateu contra o encosto do banco.

Mesmo assim...

Eu sorri.

Pelo menos ele ainda me odiava.

Pelo menos eu ainda ocupava algum espaço em seu coração, mesmo que esse espaço estivesse cheio de raiva e repulsa.

Isso bastava.

Precisava bastar.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Mentiras Sob o Luar   Capítulo 12

    Três meses depois, Mary estava de pé sob o velho carvalho.As folhas haviam adquirido tons dourados e avermelhados. Caíam ao seu redor como chuva, desprendendo-se lentamente dos galhos e pousando sobre seus ombros.Kane estava a poucos metros dali, com as mãos nos bolsos, olhando para o céu.— Você deveria voltar para o Norte — disse Mary.Ele balançou a cabeça.— Este é o meu lar.— Não há mais nada para você aqui.— Ela está aqui.Ele olhou para o velho carvalho, para a grama sob seus galhos, para a trilha que levava à Fonte da Lua.— As lembranças dela estão aqui. Isso basta.Mary permaneceu em silêncio por um longo tempo. Então, enfiou a mão no bolso e retirou a pedra da lua.— Ela queria que você ficasse com isto.Kane olhou para a pedra.Ela emitia um brilho suave sob a luz do outono — quente e delicado, como um pequeno coração pulsando.— Guarde-a para mim — disse ele. — Até o dia em que eu a encontrar novamente.Os olhos de Mary se encheram de lágrimas. Ela apena

  • Mentiras Sob o Luar   Capítulo 11

    Três dias se passaram.Kane não saiu do meu lado nem por um instante.Dormia na cadeira ao lado da minha cama, com a cabeça inclinada para trás e a boca levemente aberta. Comia a comida do hospital — carne acinzentada e purê de batatas empelotado — sem reclamar. Segurava minha mão quando a dor ficava insuportável. Lia para mim um livro que encontrou na biblioteca da casa de cura, um velho romance de lombada rachada e páginas amareladas.Minha mãe entrava e saía do quarto. Trazia roupas limpas, meu chá favorito e uma fotografia do meu pai, que ficou sobre a mesa de cabeceira. Ela e Kane quase não conversavam, mas eu a via observando-o. Via a raiva em seus olhos amolecer... só um pouco.No terceiro dia, Vivra apareceu.Ela não estava sozinha.O Rei Alfa caminhava ao seu lado, com o rosto duro como pedra.Os dois pararam na porta do meu quarto.Os olhos do Rei percorreram meu corpo — o soro preso ao meu braço, o curativo na testa, a pele acinzentada —, mas sua expressão não mudou.

  • Mentiras Sob o Luar   Capítulo 10

    (Ponto de Vista de Kane)O quarto de Selene ficava no fim do corredor do terceiro andar. A porta estava fechada. Uma pequena placa ao lado da moldura dizia: "Quarto 317"Mary parou diante da porta e se virou para encarar Kane.— Ela não tem muito tempo — disse ela. — A bruxa falou que talvez um mês, mas... — Ela balançou a cabeça. — Ela está ficando mais fraca a cada dia.— Eu sei — respondeu Kane. — Eu sei.— E ela não sabe que você veio. Ela não queria que você a encontrasse. Queria que você seguisse em frente. Que vivesse a sua vida.Kane engoliu em seco.— Eu sei.Mary abriu a porta.O quarto era pequeno. Uma cama, um armário e uma cadeira. As cortinas estavam fechadas, mas um pequeno abajur sobre a mesa de cabeceira espalhava uma luz amarela e suave.Selene estava deitada na cama.Ela estava tão magra... Mais magra do que ele jamais a tinha visto. As maçãs do rosto se destacavam de forma dolorosa. As clavículas eram visíveis acima da borda do cobertor. Sua pele estava p

  • Mentiras Sob o Luar   Capítulo 09

    (Ponto de vista de Kane)O pacote chegou naquela tarde.Kane estava de volta à ala de cura da alcateia, sentado em uma cadeira de plástico ao lado da cama de Vivra. Ela dormia, respirando tranquila, com uma das mãos repousando sobre a barriga. O curandeiro havia dito que ela poderia voltar para casa no dia seguinte. Tinha sido apenas um susto. O filhote estava bem.Uma enfermeira entrou carregando uma pequena caixa.— Isso chegou para você — disse ela. — Não tem remetente.Kane pegou a caixa.Era leve. Não era maior do que a palma da sua mão.Ele a abriu. Seu coração parou.Lá dentro estava a pedra da lua.A mesma que ele havia dado a Selene quando ela fez dezessete anos. A mesma que ela usava no pescoço todos os dias.Ele a via refletindo a luz quando ela caminhava pela floresta. Sentia a pedra prensada entre os dois quando a abraçava durante a noite.Ela havia prometido que a usaria para sempre. Dentro da caixa havia um bilhete.Uma única linha, escrita com a caligrafia t

  • Mentiras Sob o Luar   Capítulo 08

    Kane não sabia da verdade. Não de verdade. Ele sabia que eu estava doente, mas não fazia ideia de quão grave era. Sabia que eu sofria de envenenamento por prata, mas não sabia que eu já estava morrendo. Que a bruxa havia me dado um mês de vida — talvez menos.Na noite em que voltei da taverna, minha febre disparou.Minha mãe correu pela casa inteira, colocando compressas frias na minha testa, trocando a fronha sempre que eu a encharcava de suor e chamando a bruxa da alcateia às duas da manhã.A bruxa veio. Era uma senhora de cabelos grisalhos e olhos bondosos, que me tratava havia sete anos. Ela me viu passar de uma jovem saudável de dezoito anos para uma mulher de vinte e cinco à beira da morte. Segurou minha mão durante todos os rituais de purificação. Chorou ao lado da minha mãe quando os tratamentos deixaram de funcionar.Naquela noite, bastou um único olhar para mim para que sua expressão endurecesse.— O veneno da prata alcançou a medula óssea dela — disse à minha mãe. — Nes

  • Mentiras Sob o Luar   Capítulo 07

    Agora ele estava parado no corredor da ala de cura, encarando o chão, tentando alcançar Selene através do elo mental.Nada.Ele ligou para a mãe.— Sinceramente, Kane — disse Ilsa. — Por que você a empurrou daquele jeito? Tive que aguentar Mary gritando comigo durante uma hora inteira antes de ela se acalmar. Você sabe o quanto ela é protetora com aquela menina.— Selene está ferida?— Só um arranhão na testa. Já foi enfaixado. O noivo dela veio buscá-la. Ela está na casa dele agora.Noivo. Casamento.As palavras o perfuraram como agulhas. Ele as sentiu atravessando seu peito, uma por uma.Saiu para o lado de fora. O ar da noite estava gelado. Lavou o rosto com a água de um bebedouro ao lado do prédio. Suas mãos tremiam.Então a voz de Vivra ecoou através do elo mental.— Kane, tive um pesadelo. Estou com medo. Volta para a cama.Ele voltou para o quarto dela. Sentou-se na beira da cama, e ela se aconchegou contra ele, apoiando a cabeça em seu peito.— Kane — sussurrou ela.

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status