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Capítulo 03

Author: Ding
Quando minha mãe me empurrou para fora do quarto na cadeira de rodas, Kane franziu ainda mais a testa. Seus olhos me percorreram novamente.

A peruca.

O batom.

A forma como eu permanecia curvada na cadeira, porque meus músculos já não conseguiam mais sustentar meu corpo ereto.

Vi algo passar por seu rosto. Nojo, provavelmente.

Ou pena.

Eu não sabia dizer qual dos dois era pior.

— Qual é o seu problema? — perguntou. — Você era mimada quando era criança e continua sendo agora. É só um osso quebrado. Já deveria ter sarado. E ainda faz sua mãe, já idosa, empurrar você por aí?

Sorri para ele.

O mesmo sorriso calmo e treinado que aperfeiçoei durante sete anos mentindo para todas as pessoas que amava.

— A bruxa disse que a fratura foi grave — respondi. — Não devo apoiar o pé no chão por um tempo.

Vivra entrou na conversa antes que Kane pudesse responder.

Ela entrelaçou o braço ao dele e apoiou a cabeça em seu ombro, deixando claro que ele lhe pertencia.

— Não ligue para ele, Selene. Kane passou tempo demais no Norte. Agora ele é frio com todo mundo... menos comigo.

Meu peito apertou. Era verdade que Kane havia se tornado frio com todos. O garoto que eu conhecia...

Aquele que me carregava nas costas pela floresta quando meus pés se cansavam.

Aquele que sussurrava piadas no meu ouvido durante as reuniões da alcateia para me fazer rir.

Esse garoto já não existia mais.

Mas, um dia, comigo, ele não fora assim.

Houve um tempo em que eu era a única pessoa por quem ele realmente demonstrava carinho. Engoli aquele sentimento e voltei meu olhar para Vivra.

— Você realmente quer que eu vá com vocês? Para ajudar a escolher o local da cerimônia e as alianças?

Ela assentiu com entusiasmo.

— Claro. Claro que quero. Como eu disse, confio no seu bom gosto.

Kane não disse uma palavra.

Apenas continuou me encarando, com a mandíbula rigidamente contraída.

— Tudo bem — respondi. — Eu vou.

Conversamos superficialmente por mais alguns minutos. Vivra perguntou como eu estava. Aquele tipo de pergunta para a qual ninguém realmente espera uma resposta sincera.

Então respondi com as mentiras de sempre. Que estava bem. Ocupada. Que as coisas seguiam como sempre.

Kane não voltou a falar.

Ficou apenas ali, com as mãos nos bolsos, olhando para qualquer lugar...

Menos para mim.

Depois, os dois foram embora.

Naquela noite, eu estava deitada na cama, encarando o teto, quando senti.

O vínculo mental de Kane roçou o meu.

Leve.

Hesitante.

Como uma batida na porta de alguém que não tinha certeza se seria recebido. Prendi a respiração.

Meu coração começou a bater tão forte contra as costelas que tive certeza de que minha mãe conseguiria ouvi-lo do quarto ao lado.

Sete anos antes, depois que fingi traí-lo, fui eu quem bloqueou nosso vínculo mental.

Eu não queria que ele sentisse minhas emoções através da ligação entre nós. Não queria que percebesse minha culpa.

Meu sofrimento.

Meu amor desesperado por ele.

Era mais fácil simplesmente cortá-lo completamente da minha vida.

Achei que jamais voltaria a sentir sua presença na minha mente. Achei que aquela porta estivesse fechada para sempre.

Mas agora... Ela estava entreaberta.

Apenas uma fresta.

No início, ele não disse nada.

A conexão apenas permaneceu ali, pulsando com algo que eu não conseguia identificar. Eu conseguia sentir o turbilhão de emoções do outro lado.

Raiva.

Repulsa.

E algo mais.

Algo que ele tentava desesperadamente enterrar.

Algo que quase parecia...

Saudade.

Não. Isso não podia estar certo. Por que Kane sentiria saudade de mim? Agora ele tinha Vivra. Tinha um filhote a caminho. Já havia seguido em frente.

Esperei.

Por fim, sussurrei através do vínculo:

— Kane?

Houve um longo silêncio. Tão longo que pensei que ele tivesse encerrado a conexão.

Então sua voz chegou até mim. Baixa. Fria. Como o vento do Norte atravessando uma planície congelada.

— Amanhã. Vamos escolher o local da cerimônia. Passo para buscar você pela manhã.

Minha garganta apertou.

Eu havia sentido tanta falta da voz dele.

Mesmo agora... Fria, distante e amarga...

Ela ainda me envolvia como algo familiar.

Como algo que eu procurava na escuridão havia sete anos.

— Tudo bem — respondi.

Houve outro silêncio.

Eu podia sentir sua hesitação.

Como se houvesse mais coisas que ele quisesse dizer... Mas não conseguisse.

Então uma voz feminina surgiu ao fundo, do lado dele da conexão.

— Kane, vem me ajudar a secar o cabelo...

Vivra.

Engoli em seco.

— Boa noite, Kane — murmurei.

Ele rompeu o vínculo imediatamente.

Enterrei o rosto no travesseiro e deixei as lágrimas caírem.

Chorei até minha cabeça doer. Até meus olhos incharem. Até a fronha ficar completamente encharcada.

Eu havia me preparado para isso.

Sabia que agora ele pertencia a outra pessoa.

Mas sentir aquilo...

Ouvir a voz dela ao fundo. Saber que ela estava no quarto dele. Na cama dele.

Na vida dele.

Ainda assim...

Aquilo despedaçou meu coração.

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