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Capítulo 3

Author: Aquino
last update publish date: 2021-08-05 09:56:01

Lara

Um diploma universitário que me custou noites de sono e litros de café. Um emprego que, embora não seja o dos meus sonhos, paga as minhas contas e sustenta meu vício em sapatos. No papel, eu sou uma mulher adulta, independente e funcional. Na realidade? Eu sou uma prisioneira de luxo dividindo o teto com a dupla mais autoritária da zona sul: meus pais.

— Ah, Lara, mas que conforto morar com os pais! — dizem as minhas amigas que já se afundaram em boletos de aluguel e condomínio.

Mentira. Isso aqui não é conforto. Isso aqui é um campo de batalha minado, disfarçado de lar doce lar.

A cada dia que passo dentro desta casa, sinto como se estivesse pagando um "aluguel emocional" com juros abusivos. Não moro de graça, longe disso. Minha planilha do Excel não mente: eu cubro a conta de luz, a internet de alta velocidade, o gás e ainda ajudo no mercado. Mas, aparentemente, os reais que saem da minha conta não compram o direito básico de respirar sem ser vigiada pela lente implacável da minha mãe, dona Lauren — também conhecida como a ditadora oficial da nossa residência.

Lauren criou um manual de regras que faria qualquer general de exército pedir baixa por estresse. E no topo da lista, escrita em letras invisíveis de sangue, está a cláusula mais absurda de todas: *“Homem nenhum dorme sob este teto.”*

Seria uma regra justa, se fosse aplicada a todos os habitantes desta casa. Mas a justiça aqui é seletiva, e o nome dela é Leila.

Minha irmã mais nova, Leila, é a deusa do favoritismo. Ela tem o dom de transformar qualquer erro em uma "experiência de aprendizado" aos olhos dos meus pais. E, claro, para ela, as regras são meras sugestões. O namorado dela, um tipo que eu mal suporto olhar, b**e ponto aqui como se fosse um morador fixo, com direito a escova de dentes no banheiro e lugar marcado na mesa do café.

O problema real? O quarto dela fica colado ao meu. As paredes desta casa parecem feitas de papel crepom quando o assunto é a intimidade alheia.

Ontem à noite, enquanto eu tentava me concentrar em um relatório importante para o estágio, o concerto começou. O rangido rítmico da cama batendo na parede, acompanhado de sussurros e gemidos que atravessavam a alvenaria como se ela nem existisse.

— Sério isso? — resmunguei, fechando o laptop com uma força que quase rachou a tela.

Bati na parede três vezes, forte o suficiente para machucar os nós dos dedos. O silêncio durou exatos trinta segundos, antes de o ritmo recomeçar, ainda mais intenso, como se fosse um desafio pessoal contra a minha sanidade. Peguei o celular e mandei uma mensagem no grupo da família — sim, eu perdi a paciência:“Alguém pode avisar que tem gente tentando trabalhar no quarto ao lado? Respeito é bom e eu pago a internet que vocês usam para postar foto de casal feliz.”

Cinco minutos depois, minha mãe entrou no meu quarto sem bater, com aquela expressão de quem acaba de ver um crime federal.

— Lara, que coisa feia! Precisava expor sua irmã assim no grupo? Onde está sua educação, menina?

— Educação, mãe? Onde está a noção dela? Eu acordo cedo, eu trabalho, eu ajudo a pagar as contas dessa casa. Eu não sou obrigada a ouvir a trilha sonora do namoro da Leila enquanto tento ser produtiva!

— Ela é jovem, está apaixonada. Deixe de ser amargurada, Lara. O amor é algo bonito, você devia experimentar em vez de ficar contando os minutos dos outros.

Amargurada. Esse é o rótulo que ganho por exigir o mínimo de decência. Se eu apareço na sala com um vestido um pouco mais justo para ir trabalhar, dona Lauren me olha como se eu fosse o anticristo em salto alto.

— Vai sair assim, Lara? Com essa roupa de... — Ela nem terminava a frase, mas o nojo no olhar dizia tudo. — Vai atrair coisa ruim. Homem não respeita mulher que se veste para ser vista.

Mas se a Leila aparece com um short mínimo e um top que mal cobre o essencial, o comentário muda de figura:

— Linda, minha filha! Uma princesa moderna. Tira uma foto para o meu I*******m?

O que mais me ferve o sangue não é apenas a diferença de tratamento, mas a gestão financeira dessa ditadura. Leila não ajuda com um centavo. Ela vive de maquiagens caras, dancinhas no TikTok e uns "freelas" que duram menos do que um relacionamento de verão. Quem paga o grosso das despesas? Eu.

E meus pais não precisam do meu dinheiro. Eles são donos de um mercado próspero, viajam, guardam dinheiro em cofre. Eles não precisam dos meus setecentos reais da conta de luz. Eles querem o meu controle.

Mês passado, a fatura da internet veio com um reajuste e faltaram exatos dez centavos na minha parte. Eu não tinha moedas na carteira e disse que daria no dia seguinte. Minha mãe me olhou com uma decepção tão profunda, como se eu tivesse sido pega desviando verbas de uma instituição de caridade.

— Dez centavos, Lara? Dez centavos de desonestidade dentro da própria casa? — ela disse, balançando a cabeça.

Quando entreguei a moeda no dia seguinte, ela soltou a pérola:

— Pode guardar. Eu já paguei. Só queria ver até onde ia o seu caráter. Já deu para ver o tipo de pessoa que você está se tornando por causa dessas suas saídas noturnas.

A pergunta que ecoa na minha cabeça toda vez que bato a porta do meu quarto é: Por que eu ainda moro aqui?

Porque a vida adulta no Brasil é um jogo de sobrevivência cruel. Eu sonho com um apartamento meu, onde eu possa deixar a louça na pia, andar nua e receber quem eu quiser sem passar por um interrogatório da Interpol. Mas o mercado imobiliário ri da minha cara. O valor da minha liberdade custa mais do que o meu salário permite acumular.

Então, eu sigo aqui. Engolindo sapos que parecem jacarés e aceitando o papel de vilã para que a Leila continue sendo a mocinha perfeita.

— Leila fazia melhor se estivesse no seu lugar.

— Sua irmã nunca deixaria um copo sujo na pia, Lara.

— Você podia tentar ser um pouco mais doce, como a sua irmã...

O que a Leila faz de tão especial, além de postar selfies e dormir até o meio-dia? Ninguém responde.

Viver sob vigilância mata qualquer chance de romance. Como eu vou me envolver seriamente com alguém se não tenho privacidade? Se eu chego tarde, minha mãe fica me esperando na sala, com a luz apagada, como se fosse um filme de terror. E se um homem me liga? Ela quer o CPF, os antecedentes e a árvore genealógica.

É sufocante. É um cerco que vai se fechando, tirando o meu oxigênio e me transformando em alguém amarga. Eu preciso sair daqui antes que eu exploda.

A noite de hoje na *Blackout* — depois de ter mandado o insosso do André para o espaço — não é apenas diversão. É uma fuga. Lá, sob as luzes neon, eu não sou a "filha problemática". Eu sou apenas Lara. E Lara está faminta por algo que o dinheiro dos meus pais não pode comprar: respeito e um desejo que queime toda essa frustração doméstica.

Terminei de me olhar no espelho, ajeitando o decote que faria minha mãe ter um enfarte. Peguei minha bolsa e saí do quarto sem olhar para trás. A batalha em casa estava pausada; a guerra lá fora, por outro lado, estava apenas começando.

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