LOGINCAPÍTULO CINCO — UM ABRIGO SEGURO
STELLA CALISTO
— Ellie, você deveria me largar logo — resmungou Kira, se debatendo para se livrar do meu abraço. Apertei ainda mais, temendo o que ela faria se eu a deixasse sair do apartamento em meio à sua crise de fúria.
— Se eu fizer isso, vou ter que aparecer na delegacia com um advogado para livrar sua cara — respondi, lutando contra os fios escuros do cabelo da minha melhor amiga que insistiam em entrar na minha boca. — Não te contei toda essa merda para você ir atrás do Vincent ou da Liana. Eu vou me certificar de que eles se arrependam do que me fizeram, pode ficar tranquila.
Kira suspirou e seus ombros caíram. Soltei-a quando percebi que já não apresentava mais perigo. Com o rosto sombrio, ela pegou a garrafa de vinho branco e tomou alguns goles como se fosse água.
A sala do apartamento estava um verdadeiro caos. Caixas de pizza e garrafas vazias se enfileiravam na mesa de centro, na poltrona de couro e no carpete. O jantar tinha começado calmo, porém as coisas saíram do controle no momento em que contei sobre o meu dia caótico e sobre o noivado que eu teria que dar um jeito de cancelar. No meio da conversa, apenas soju não era mais o suficiente, então Kira abriu sua adega e fez o possível para nos embebedar.
— Minha cabeça está girando — ela reclamou. Ao desabar no sofá, riu apontando para mim: — Você é uma hipócrita! Quando meu ex me traiu, você acabou com os pneus do carro dele e deixou o rosto dele inchado por dias. Agora não posso fazer o mesmo por você?
Suspirei.
— Seu ex era apenas um playboy mimado de uma família qualquer. O Vincent pertence à família Morgan e sabe como usar uma arma. Infelizmente, não tem comparação.
A maquiagem de Kira estava borrada pelo rosto e as lágrimas brilhavam em seus olhos azuis. Metade da roupa luxuosa tinha sido arrancada e estava jogada pelo apartamento. Daquela forma, nem parecia a brilhante modelo de passarela cujo nome ecoava em todos os eventos de moda do país.
— Você não merecia isso, Ellie. Até o infeliz do seu pai participou desses planos ridículos. Eu quero matar todos eles!
Kira levantou-se, tonta, e se jogou nos meus braços. Caí no outro sofá com ela e não contive a risada ao ouvir seus soluços. Eu era a vítima, mas continuava incapaz de chorar; era como se ela estivesse botando para fora exatamente o que eu não conseguia.
Nossa amizade tinha começado no momento mais difícil da minha vida, logo após o falecimento da minha mãe. Em um festival do colégio, Kira cuidava de uma barraca de óleos essenciais que fazia para o curso de aromaterapia. No meio de uma das minhas crises de pânico, tentei me esconder ali perto por ser uma área mais reservada. Ela cuidou de mim com atenção e, depois daquele dia, nunca mais me deixou sozinha.
Eu não passava de um corpo vazio e inerte, consumida pelo luto e pela culpa, em uma vida desgraçada. Uma adolescente sendo maltratada na própria casa, chamando um demônio de pai e rezando para todas e quaisquer entidades deste universo. À noite, apenas remédios me faziam dormir; durante o dia, abrir a boca para dizer um simples “bom dia” era mais difícil do que acertar um alvo com uma flecha torta.
Julian fazia o possível, mas minha lenta recuperação só começou a engrenar quando Kira me perseguiu com sua lealdade e alegria. Com ela ao meu lado, parte do peso que eu carregava saiu das minhas costas e ganhei um abrigo seguro.
— Eu te amo, Kira. Você é a melhor amiga que eu poderia pedir. — Sorri e enxuguei as lágrimas em seu rosto liso. — Eu vim aqui porque sabia que você me entenderia e me ofereceria um abrigo e um abraço para descansar.
— Ellie, minha estrela cadente... Você é sempre bem-vinda. — Ela agarrou minhas mãos. — Fique o tempo que quiser. Descanse. Enquanto isso, vamos planejar uma maneira de todos eles pagarem pelo que fizeram.
Assenti e me mantive ali por um tempo. Logo depois, Kira se levantou e ligou a televisão, colocando uma comédia romântica na tela. Sempre que uma de nós estava triste, o critério para os filmes era ter algo bonito e engraçado, capaz de nublar nossos pensamentos e nos fazer esquecer os problemas.
No meio do filme, enquanto minha amiga ia buscar aperitivos no armário, verifiquei a tela do meu celular. A maioria das chamadas perdidas era de Vincent, embora houvesse algumas do meu pai e de Liana. Ignorei quando a tela acendeu com uma nova ligação e voltei para o sofá. As únicas ligações importantes eram de Julian ou, talvez, Nathan — e, para ambos, eu já havia personalizado o toque para saber no ato se ligassem.
A noite passou mais leve do que eu imaginava. Me enfiei nos lençóis macios da cama de Kira e gargalhei com ela tentando se lembrar de uma canção de ninar para, supostamente, me fazer dormir.
— Às vezes, sinto que sou sua boneca.
— Eu não dividiria meu vinho com uma boneca — ela respondeu.
Talvez pelo álcool ou pelo cansaço, o sono apareceu rápido. Bocejei e virei de lado, afundando em um torpor em seguida.
CAPÍTULO NOVE — COVARDE SEM SERVENTIASTELLA CALISTOA memória mais antiga que tenho de Nathan é de um dia de neve e festividades. Mamãe sempre preparava as melhores festas, e a família Morgan era convidada como membro de honra, vista a proximidade que ela possuía com eles. Julian tinha estragado meu boneco de neve, e todas as suas tentativas de melhorar a situação apenas me faziam chorar ainda mais.Naquele momento, o garoto quieto e observador que permanecia afastado dos pais e das outras crianças — embora se mantivesse ao lado de um jovem adulto de roupas formais — apareceu com mãos hábeis e transformou o meu pesadelo em uma obra de arte. Ele bagunçou meus cachos com os dedos longos e gelados e pediu para que eu não chorasse mais, com um pequeno sorriso nos lábios. As lágrimas pararam como mágica.Quando crianças, é normal termos alguém para considerar nosso herói: uma pessoa que nos salvaria de tudo e de todos. Eu tinha três: mamãe, Julian e o caçula da família Morgan.Embora muit
CAPÍTULO OITO — A MELHOR DECISÃOSTELLA CALISTOVirei a taça de vinho de uma vez e a preenchi com o que restava na garrafa. Julian continuou escondendo o rosto, enquanto Nathan mantinha a atenção fixa em mim, provavelmente esperando para avaliar a minha reação.Meu irmão havia me chamado e convidado o chefe da família Morgan para propor algo impensável: uma tentativa de me resgatar do casamento miserável que eu teria com Vincent. Aparentemente, ele não encontrara nenhuma outra brecha no acordo, exceto a cláusula que ditava que eu deveria me casar com um herdeiro direto. Embora fosse absurdo vê-lo apelar para o melhor amigo, eu me sentia grata por ter um irmão capaz de tudo por mim.— Você não deveria beber vinho como se fosse água — alertou Nathan.Ignorei o aviso, terminando o líquido na taça e apertando o botão na mesa para chamar o atendimento.— Para discutir o que o Jules acabou de dizer, preciso estar bêbada o suficiente.Uma mulher de uniforme se aproximou discretamente, exibin
CAPÍTULO SETE — UM CEO IMPORTANTE E OCUPADONATHAN MORGAN— Cancele a reunião com a equipe das Indústrias Jark — ordenei a Damian assim que ele entrou na minha sala. Sua boca se abriu para protestar, mas o interrompi antes que pronunciasse uma única palavra: — Apenas cancele. Tenho assuntos mais importantes para tratar.Vesti um casaco por cima do terno e arranquei a gravata incômoda, largando-a sobre a mesa. Saí do escritório antes de dar tempo para meu assistente reconsiderar a decisão ou tentar me convencer do contrário. Afinal, a reunião seria apenas uma desculpa para pedirem financiamento e investimento, alegando lucros promissores caso selássemos a parceria. Negócios como esse não eram mais importantes do que decidir o rumo da minha família e, consequentemente, o da família Calisto.Embora estivessem acostumados a me ver todos os dias, os olhares da equipe ainda se voltavam para mim enquanto eu caminhava em direção ao elevador. Por mais indiferente que parecesse, foram necessári
CAPÍTULO SEIS — A ÚNICA SAÍDASTELLA CALISTOEncarei a tela do tablet, aberta em um aplicativo de design, e resetei o projeto por completo. A inspiração não tinha dado as caras nos últimos dias e, não importava o quanto eu tentasse desenhar, tudo parecia terrível e sem nexo.Suspirei ao pensar na mesa digitalizadora do meu escritório. Eu estava há três dias enfurnada no apartamento de Kira, depois que me avisaram que Vincent e meu pai tinham deixado homens à minha espera — provavelmente para me arrastar de volta para casa assim que me vissem. Eles não tinham como me obrigar a aceitar o casamento; porém, com certeza estavam arranjando um jeito de me chantagear.Ao menos, minha equipe era autossuficiente para continuar com os trabalhos sem mim. As ligações eram breves e os fornecedores mantinham contato direto com meus colaboradores. Os laboratórios permaneciam em perfeito funcionamento, o que era uma preocupação a menos para a minha cabeça lotada.Levantei para pegar mais uma xícara de
CAPÍTULO CINCO — UM ABRIGO SEGUROSTELLA CALISTO— Ellie, você deveria me largar logo — resmungou Kira, se debatendo para se livrar do meu abraço. Apertei ainda mais, temendo o que ela faria se eu a deixasse sair do apartamento em meio à sua crise de fúria.— Se eu fizer isso, vou ter que aparecer na delegacia com um advogado para livrar sua cara — respondi, lutando contra os fios escuros do cabelo da minha melhor amiga que insistiam em entrar na minha boca. — Não te contei toda essa merda para você ir atrás do Vincent ou da Liana. Eu vou me certificar de que eles se arrependam do que me fizeram, pode ficar tranquila.Kira suspirou e seus ombros caíram. Soltei-a quando percebi que já não apresentava mais perigo. Com o rosto sombrio, ela pegou a garrafa de vinho branco e tomou alguns goles como se fosse água.A sala do apartamento estava um verdadeiro caos. Caixas de pizza e garrafas vazias se enfileiravam na mesa de centro, na poltrona de couro e no carpete. O jantar tinha começado ca
CAPÍTULO QUATRO — AVISO CLARONATHAN MORGANPelas paredes de vidro da minha sala, era possível contemplar grande parte do horizonte da cidade. A vista há muito deixara de me surpreender, mas eu ainda costumava me perder em pensamentos enquanto observava a selva de edifícios, as vias expressas e o mar de pessoas em movimento lá embaixo.— Sr. Morgan — a voz do meu assistente interrompeu minhas reflexões. Ele permanecia parado junto à porta, segurando um tablet com firmeza. — O Vincent está causando um escândalo no andar administrativo. As pessoas estão assustadas e há uma funcionária machucada na recepção.Soltei um suspiro pesado e fechei os olhos por um segundo, reclinando-me na cadeira. Amaldiçoei silenciosamente meu falecido irmão por ter me deixado como herança o fardo que era Vincent. Se minha cunhada não fosse tão cega e superprotetora, talvez eu tivesse conseguido enfiar algum juízo na cabeça do meu sobrinho. Porém, ela preferiu mimá-lo além de todos os limites razoáveis, priva







