LOGINPelas paredes de vidro da minha sala, era possível contemplar grande parte do horizonte da cidade. A vista há muito deixara de me surpreender, mas eu ainda costumava me perder em pensamentos enquanto observava a selva de edifícios, as vias expressas e o mar de pessoas em movimento lá embaixo.
— Sr. Morgan — a voz do meu assistente interrompeu minhas reflexões. Ele permanecia parado junto à porta, segurando um tablet com firmeza. — O Vincent está causando um escândalo no andar administrativo. As pessoas estão assustadas e há uma funcionária machucada na recepção.
Soltei um suspiro pesado e fechei os olhos por um segundo, reclinando-me na cadeira. Amaldiçoei silenciosamente meu falecido irmão por ter me deixado como herança o fardo que era Vincent. Se minha cunhada não fosse tão cega e superprotetora, talvez eu tivesse conseguido enfiar algum juízo na cabeça do meu sobrinho. Porém, ela preferiu mimá-lo além de todos os limites razoáveis, privando-me de discipliná-lo adequadamente no passado.
— Mantenha o caminho livre — ordenei, ajustando o paletó e saindo da sala logo atrás do assistente.
Assim que as portas do elevador se abriram no andar administrativo, o caos instalado se revelou em toda a sua feiura. Mesas viradas e cadeiras de cabeça para baixo decoravam a entrada do setor. Funcionárias assustadas se encolhiam em suas baias, enquanto apenas um ou dois homens mais corajosos tentavam dialogar com meu sobrinho perto da recepção. Vincent mantinha as mãos prensadas contra o pescoço da recepcionista — que me recordei chamar-se Elena —, ameaçando-a com o rosto transtornado e vermelho de raiva.
— Por favor, Sr. Morgan! Eu não imaginei que ela faria algo de errado! — A mulher soluçava desesperadamente enquanto tentava se explicar. — Ela sempre vem aqui... Mesmo quando o senhor não está, ela costuma esperá-lo em sua sala...
Dei passos firmes à frente. Ao notarem minha presença, os funcionários ao redor suspiraram aliviados e abriram espaço. Meu sobrinho estava tão fora de si que sequer notou minha aproximação — até que agarrei seu pulso com força calculada, fazendo-o soltar um ganido de dor e libertar o pescoço da mulher. Ele se virou para mim e, por um breve segundo, seus olhos desorientados não pareciam me reconhecer.
— Tio... Nathan?
Voltei-me para Damian, meu assistente, sem soltar o pulso do garoto:
— Peça aos seguranças para levarem meu sobrinho direto para casa e chame a equipe médica para prestar os primeiros socorros à Srta. Elena. Eu assumo o controle da situação aqui.
Ele assentiu imediatamente. Em menos de um minuto, dois seguranças de elite já escoltavam Vincent para longe. A fúria dele parecia ter se dissipado, substituída por uma torpeza distante. Ao contrário do que previra, meu sobrinho não ofereceu resistência nem causou mais alarde.
— Todos vocês deste setor estão liberados pelo restante do dia — anunciei, dirigindo-me às dezenas de olhares apreensivos que nos cercavam. — Podem ir para casa com calma. Não se preocupem com o ponto, eu pessoalmente justificarei a ausência de cada um.
— Sr. Morgan... — chamou uma funcionária, em tom hesitante. — E quanto à Elena? Ela não teve culpa de nada, por favor, não a demita.
Apenas curvei levemente os lábios num esboço de sorriso.
— Não se preocupe. Garantirei que ela seja atendida pelos médicos e, em seguida, liberada para descansar.
Assim que o andar se esvaziou, puxei uma cadeira para perto da recepção e estendi a mão para ajudar a jovem a se levantar. Além das marcas avermelhadas de dedos no pescoço e do rosto borrado por lágrimas, um pequeno corte na testa vertia um fio de sangue pela lateral da sua bochecha.
— Por favor, Elena, conte-me o que aconteceu. O que o Vincent fez? — perguntei, num tom calmo. — Não precisa temer nada. Dou minha palavra de que você não sofrerá qualquer punição.
Ela comprimiu os lábios, tentando conter o tremor nas mãos.
— Ele chegou... e eu avisei que a Srta. Calisto tinha deixado um presente na sala dele. O Sr. Vincent pareceu animado e entrou. — Ela fez uma pausa, apertando os dedos com força. — Eu não sei o que tinha lá dentro, Sr. Morgan... Mas quando ele saiu, parecia completamente fora de si. Começou a gritar, a quebrar as coisas e...
A jovem voltou a chorar copiosamente. Desviei o olhar com discreto desconforto; eu nunca fui exemplar em lidar com lágrimas femininas. A única exceção costumava ser Stella, mas isso na época em que mantínhamos uma convivência familiar. Por sorte, a equipe médica da empresa chegou naquele exato instante. Deixei Elena aos cuidados dos socorristas e dirigi-me com passos largos à sala de Vincent.
Aparentemente, Stella deixara algo capaz de desestabilizar meu sobrinho além da conta.
À primeira vista, o escritório parecia intacto. Contudo, ao me aproximar da escrivaninha principal, identifiquei de imediato o motivo do surto. Espalhados sobre a madeira nobre estavam centenas de pedaços de papel picado. Era o Contrato de Noivado deles, reduzido a confetes.
Apanhei um retalho onde se lia parte da assinatura elegante de Stella e soltei uma risada baixa. A audácia daquela mulher era impressionante. Ela não apenas fizera Vincent perder o controle como também deixara uma mensagem cristalina e irrevogável: o noivado estava acabado.
Quando retornei à recepção, as enfermeiras já finalizavam os curativos em Elena. Agradeci à equipe com um aceno e encarei a recepcionista:
— Não se preocupe com nada, Srta. Elena. Não permitirei que volte a trabalhar diretamente para o Vincent depois desse episódio lamentável. No entanto, seu emprego está garantido. Vou providenciar sua transferência para outro departamento assim que retornar do seu repouso, tudo bem?
Ela assentiu, os olhos transbordando gratidão.
— Recomendo fortemente que você registre um boletim de ocorrência contra ele. Ele ultrapassou todos os limites aceitáveis. Mas, se o medo a impedir de seguir pela via legal, eu garanto que o punirei pessoalmente e assegurarei que receba uma justa compensação financeira da empresa — afirmei, sabendo que dificilmente alguém de fora arriscaria enfrentar um Morgan na justiça por conta do peso do nosso nome.
— Muito obrigada, Sr. Morgan.
Após ajudá-la a recolher seus pertences, acompanhei-a até a saída do edifício. Ao atravessar o hall, meus olhos se voltaram para a cafeteria envidraçada onde, pouco tempo antes, eu estive com Stella. Quando sugeri que ela não deveria se casar com o Vincent, mal sabia que ela já havia deixado sua declaração de guerra assinada e rasgada no andar de cima.
Estávamos, de fato, em perfeita sintonia. Como eu desconfiava, a garotinha do passado havia crescido, transformando-se em uma mulher cuja audácia e sagacidade continuavam impecáveis.
CAPÍTULO NOVE — COVARDE SEM SERVENTIASTELLA CALISTOA memória mais antiga que tenho de Nathan é de um dia de neve e festividades. Mamãe sempre preparava as melhores festas, e a família Morgan era convidada como membro de honra, vista a proximidade que ela possuía com eles. Julian tinha estragado meu boneco de neve, e todas as suas tentativas de melhorar a situação apenas me faziam chorar ainda mais.Naquele momento, o garoto quieto e observador que permanecia afastado dos pais e das outras crianças — embora se mantivesse ao lado de um jovem adulto de roupas formais — apareceu com mãos hábeis e transformou o meu pesadelo em uma obra de arte. Ele bagunçou meus cachos com os dedos longos e gelados e pediu para que eu não chorasse mais, com um pequeno sorriso nos lábios. As lágrimas pararam como mágica.Quando crianças, é normal termos alguém para considerar nosso herói: uma pessoa que nos salvaria de tudo e de todos. Eu tinha três: mamãe, Julian e o caçula da família Morgan.Embora muit
CAPÍTULO OITO — A MELHOR DECISÃOSTELLA CALISTOVirei a taça de vinho de uma vez e a preenchi com o que restava na garrafa. Julian continuou escondendo o rosto, enquanto Nathan mantinha a atenção fixa em mim, provavelmente esperando para avaliar a minha reação.Meu irmão havia me chamado e convidado o chefe da família Morgan para propor algo impensável: uma tentativa de me resgatar do casamento miserável que eu teria com Vincent. Aparentemente, ele não encontrara nenhuma outra brecha no acordo, exceto a cláusula que ditava que eu deveria me casar com um herdeiro direto. Embora fosse absurdo vê-lo apelar para o melhor amigo, eu me sentia grata por ter um irmão capaz de tudo por mim.— Você não deveria beber vinho como se fosse água — alertou Nathan.Ignorei o aviso, terminando o líquido na taça e apertando o botão na mesa para chamar o atendimento.— Para discutir o que o Jules acabou de dizer, preciso estar bêbada o suficiente.Uma mulher de uniforme se aproximou discretamente, exibin
CAPÍTULO SETE — UM CEO IMPORTANTE E OCUPADONATHAN MORGAN— Cancele a reunião com a equipe das Indústrias Jark — ordenei a Damian assim que ele entrou na minha sala. Sua boca se abriu para protestar, mas o interrompi antes que pronunciasse uma única palavra: — Apenas cancele. Tenho assuntos mais importantes para tratar.Vesti um casaco por cima do terno e arranquei a gravata incômoda, largando-a sobre a mesa. Saí do escritório antes de dar tempo para meu assistente reconsiderar a decisão ou tentar me convencer do contrário. Afinal, a reunião seria apenas uma desculpa para pedirem financiamento e investimento, alegando lucros promissores caso selássemos a parceria. Negócios como esse não eram mais importantes do que decidir o rumo da minha família e, consequentemente, o da família Calisto.Embora estivessem acostumados a me ver todos os dias, os olhares da equipe ainda se voltavam para mim enquanto eu caminhava em direção ao elevador. Por mais indiferente que parecesse, foram necessári
CAPÍTULO SEIS — A ÚNICA SAÍDASTELLA CALISTOEncarei a tela do tablet, aberta em um aplicativo de design, e resetei o projeto por completo. A inspiração não tinha dado as caras nos últimos dias e, não importava o quanto eu tentasse desenhar, tudo parecia terrível e sem nexo.Suspirei ao pensar na mesa digitalizadora do meu escritório. Eu estava há três dias enfurnada no apartamento de Kira, depois que me avisaram que Vincent e meu pai tinham deixado homens à minha espera — provavelmente para me arrastar de volta para casa assim que me vissem. Eles não tinham como me obrigar a aceitar o casamento; porém, com certeza estavam arranjando um jeito de me chantagear.Ao menos, minha equipe era autossuficiente para continuar com os trabalhos sem mim. As ligações eram breves e os fornecedores mantinham contato direto com meus colaboradores. Os laboratórios permaneciam em perfeito funcionamento, o que era uma preocupação a menos para a minha cabeça lotada.Levantei para pegar mais uma xícara de
CAPÍTULO CINCO — UM ABRIGO SEGUROSTELLA CALISTO— Ellie, você deveria me largar logo — resmungou Kira, se debatendo para se livrar do meu abraço. Apertei ainda mais, temendo o que ela faria se eu a deixasse sair do apartamento em meio à sua crise de fúria.— Se eu fizer isso, vou ter que aparecer na delegacia com um advogado para livrar sua cara — respondi, lutando contra os fios escuros do cabelo da minha melhor amiga que insistiam em entrar na minha boca. — Não te contei toda essa merda para você ir atrás do Vincent ou da Liana. Eu vou me certificar de que eles se arrependam do que me fizeram, pode ficar tranquila.Kira suspirou e seus ombros caíram. Soltei-a quando percebi que já não apresentava mais perigo. Com o rosto sombrio, ela pegou a garrafa de vinho branco e tomou alguns goles como se fosse água.A sala do apartamento estava um verdadeiro caos. Caixas de pizza e garrafas vazias se enfileiravam na mesa de centro, na poltrona de couro e no carpete. O jantar tinha começado ca
CAPÍTULO QUATRO — AVISO CLARONATHAN MORGANPelas paredes de vidro da minha sala, era possível contemplar grande parte do horizonte da cidade. A vista há muito deixara de me surpreender, mas eu ainda costumava me perder em pensamentos enquanto observava a selva de edifícios, as vias expressas e o mar de pessoas em movimento lá embaixo.— Sr. Morgan — a voz do meu assistente interrompeu minhas reflexões. Ele permanecia parado junto à porta, segurando um tablet com firmeza. — O Vincent está causando um escândalo no andar administrativo. As pessoas estão assustadas e há uma funcionária machucada na recepção.Soltei um suspiro pesado e fechei os olhos por um segundo, reclinando-me na cadeira. Amaldiçoei silenciosamente meu falecido irmão por ter me deixado como herança o fardo que era Vincent. Se minha cunhada não fosse tão cega e superprotetora, talvez eu tivesse conseguido enfiar algum juízo na cabeça do meu sobrinho. Porém, ela preferiu mimá-lo além de todos os limites razoáveis, priva







