Natália ficou sem palavras. Uma pressão sufocante tomou conta de seu peito, e ela saiu do cartório fervendo de raiva.
Lá fora, os curiosos que antes se aglomeravam para assistir ao divórcio haviam desaparecido. Daniel, acompanhado de alguns seguranças, tinha dispersado todos.
Henrique estava ao lado do Bentley preto, de olhos baixos e expressão indiferente.
Natália reuniu todas as forças que ainda lhe restavam para gritar. Os tendões de seu pescoço se destacaram sob a pele, retesados pelo esforço.
— Henrique! O que você está fazendo aí fora?! A gente não combinou de se divorciar? Então entra de uma vez!
— Natália, foi você quem implorou para eu me casar com você. Já esqueceu? — Ele ergueu os olhos, fixando nela um olhar firme e penetrante. — Foi você quem me abraçou e disse que, mesmo que eu nunca te amasse, ficaria feliz só de poder estar ao meu lado, me ver todos os dias e esperar por mim pelo resto da vida.
— Não vale mais! — O peito de Natália subia e descia violentamente, e sua voz saiu rouca. — Nada disso vale mais!
Aquela lembrança ainda doía. Uma dor profunda tomou conta de seu peito, como se uma lâmina tivesse rasgado seu coração, deixando uma ferida que não parava de sangrar.
Desde que se entendia por gente, Natália vivia seguindo Henrique para todo lado.
Ele era seis anos mais velho, e os adultos das duas famílias sempre insistiam que ela o tratasse como um irmão mais velho.
Mas Natália nunca quis.
Para ela, ele era simplesmente Henrique. Quando estava especialmente brincalhona, gostava de provocá-lo chamando-o de Rique ou Riquinho.
Como herdeiro da família Vasconcelos, Henrique tinha uma rotina de estudos extremamente exigente. Desde pequeno, demonstrava uma maturidade incomum e uma inteligência extraordinária. Era o exemplo perfeito que os adultos viviam usando para comparar com os próprios filhos.
Quando Natália não conseguia resolver um exercício, recorria a ele.
Quando brigava com os pais, era a ele que procurava.
Se ficava sem dinheiro, Henrique estava lá.
E não importava o tamanho da confusão em que se metesse, sempre podia contar com ele.
Na adolescência, durante uma fase de rebeldia, Natália teve uma briga com a família e fugiu de casa, viajando sozinha para o exterior.
Henrique foi atrás dela.
Quando a encontrou, levou-a para experimentar tudo o que havia de mais emocionante e radical, sem deixar nenhuma aventura de fora.
Naqueles dias, os dois costumavam se deitar no convés de um iate, sob a imensidão do céu, sentindo a brisa do mar e ouvindo o vaivém das ondas.
Natália fazia perguntas sem parar. Algumas eram infantis, outras estranhas, e havia até aquelas que revelavam seus pensamentos mais sombrios. Eram tantas que ela própria acabava se cansando de perguntar.
Henrique, porém, nunca perdia a paciência.
Respondia a cada uma com atenção, conversava sobre qualquer assunto que ela quisesse e a envolvia em seus braços. Sua voz grave tinha a mesma suavidade acolhedora do mar que os cercava.
Até então, Natália acreditava que Henrique fosse exatamente como os adultos o descreviam: um aluno exemplar, inteiramente dedicado aos estudos, que só tinha olhos para suas obrigações.
Mas, durante aquela viagem, ele se permitiu fazer todas as loucuras ao lado dela.
Corridas de iate, aventuras em lugares selvagens, saltos de paraquedas, tiro ao alvo...
Foi Henrique quem lhe ensinou tudo aquilo.
Na infância, nos primeiros anos da adolescência e até durante sua fase mais rebelde, ele sempre fora a pessoa que Natália mais admirava.
Ela acreditava conhecer um lado de Henrique que ninguém mais conhecia.
Acreditava que o que existia entre os dois era único, algo que ele não compartilhava com mais ninguém.
Por isso, dissera que esperaria por ele a vida inteira, mesmo que nunca fosse correspondida.
Mas agora Henrique havia mudado.
E, quando a própria pessoa já não era a mesma, ainda fazia sentido continuar presa a uma promessa antiga?
— Henrique. — Dessa vez, Natália pronunciou seu nome com toda a seriedade. Então, quase num sussurro, perguntou: — Ontem à noite... Você chegou a me procurar? Ficou preocupado comigo em algum momento?
Henrique baixou os olhos para encará-la.
Não havia hostilidade evidente em seu olhar, apenas uma serenidade tão profunda que chegava a ser gélida.
— Você empurrou a Sofia, foi embora sem sequer pedir desculpas e ainda ficou incomunicável. E esperava que eu saísse atrás de você? Natália, você tem vinte e quatro anos, não quatro.
— Você acha mesmo que eu empurrei a Sofia? Acha que eu seria capaz de empurrar uma mulher com deficiência? É esse tipo de pessoa que você pensa que eu sou?
Sua voz saiu tão baixa que mal podia ser ouvida. Uma sensação esmagadora de impotência tomou conta dela.
— E o que você queria que eu pensasse? — Henrique fez um esforço para conter a irritação. — A Sofia tem orgulho demais para fingir uma queda na frente de tanta gente, ainda mais deixando a própria prótese sair voando. Você acha mesmo que ela faria uma coisa dessas? Eu sei que você não teve a intenção de machucá-la. Só perdeu a cabeça, parou de pensar nas consequências e quis descontar sua raiva em alguém.
Natália entreabriu os lábios, mas nenhuma palavra saiu.
Soltou o ar lentamente.
Já não tinha forças para se explicar.
E nem queria mais.
— Isso mesmo! Eu sou uma pessoa horrível, cruel e egoísta! Então se divorcia logo de mim! O cartório reabre às duas da tarde, não é? Pois eu vou ficar aqui esperando! Pode ter certeza de que hoje você vai conseguir se livrar dessa mulher tão cruel e egoísta!
Henrique a encarou.
A fúria que vinha reprimindo até então chegou ao limite. O pouco de lucidez que ainda lhe restava o impediu de abrir a boca naquele momento.
Em vez disso, agarrou Natália pelo pulso e a arrastou para dentro do carro.
— Me solta!
Ela tentou resistir, mas sua força não era páreo para a dele. Nas mãos de Henrique, sentia-se tão indefesa quanto um cordeiro prestes a ser abatido.
A porta bateu com um estrondo.
Foi então que Natália viu o menino sentado no carro, fazendo tranquilamente a lição de casa.
Naquele instante, o último fio de razão que ainda a mantinha sob controle se rompeu.
Seu rosto ficou vermelho de fúria. Ela arregalou os olhos e encarou Henrique.
— Você não tem um pingo de humanidade?! Depois de tudo, ainda tem coragem de me fazer olhar pra cara desse menino?! Eu sou capaz de matar ele agora mesmo, está me ouvindo?!
O menino parecia não perceber a fúria dos adultos nem compreender o significado daquelas palavras carregadas de emoção. Continuou fazendo a lição de casa em silêncio, como se nada estivesse acontecendo.
Henrique fechou os olhos por alguns instantes. Quando voltou a abri-los, respirou mais fundo.
— Você quer o divórcio? Tudo bem. Mas não vamos nos divorciar desse jeito. Já pensou no que as pessoas vão dizer? Quer que saiam espalhando por aí que a família Vasconcelos maltrata você?
Natália abaixou a cabeça.
Toda aquela fúria que há pouco parecia capaz de consumir tudo ao redor se transformou numa poça de água gelada, abandonada ali, sem que ninguém se importasse.
Mesmo depois de tudo o que havia acontecido, Henrique continuava mais preocupado com a reputação da família Vasconcelos do que com ela.
Ouviu-o ordenar calmamente ao motorista que seguisse viagem. Em seguida, pediu a Daniel que ligasse para a empregada da casa e mandasse separar antissépticos, medicamentos para os ferimentos e algumas roupas de Natália.
A mulher hesitou ao telefone.
— Mas, senhor... Não temos mais nenhuma roupa da senhora em casa.
Henrique interrompeu o que estava fazendo e voltou o olhar para Natália.
— Pedi a uma amiga que retirasse todas as minhas coisas de lá. — Explicou ela.
Então se dirigiu ao motorista:
— Pode parar o carro.
Com os lábios ressecados, Natália esboçou um sorriso e encarou Henrique.
— Pode deixar. Vou me vestir de um jeito... à altura do prestígio da sua família Vasconcelos quando formos nos divorciar.
Antes, por maiores que fossem as brigas entre os dois, Natália nunca havia chegado a esse ponto.
Era como se alguma coisa estivesse começando a mudar.
— Faça como quiser.
A voz de Henrique permaneceu perfeitamente indiferente. Um leve traço de escárnio surgiu em seu olhar.
— Mas, se sair do carro agora, qual você acha que vai ser a manchete dos sites de fofoca amanhã?
Natália ergueu os olhos e viu, pelo retrovisor, um carro que os seguia de perto.
A imprensa tinha inúmeras maneiras de distorcer acontecimentos, alimentar especulações e transformar qualquer pessoa em alvo de uma enxurrada de acusações e comentários públicos.
É claro que Henrique só se preocupava em preservar a imagem da família Vasconcelos.
Não estava nem um pouco preocupado com ela.
Meia hora depois, Natália voltou com ele para o apartamento onde os dois moravam.
A casa que haviam escolhido para começar a vida de casados ficava num condomínio de mansões afastado do centro de Santa Aurora. Mas só tinham passado ali a noite do casamento.
No dia seguinte, Henrique se mudara sozinho para um apartamento enorme, em uma das regiões mais movimentadas e valorizadas do centro da cidade.
Natália não suportava a ideia de morar longe dele. Por isso, acabara indo atrás do marido, embora preferisse muito mais a tranquilidade e a liberdade da casa no condomínio.
Desde que ela se mudara para o apartamento, Henrique vivia fazendo horas extras e chegando tarde. Às vezes, nem sequer voltava para casa.
Até na cama, era sempre Natália quem tomava a iniciativa.
Henrique tinha uma personalidade reservada e agia de maneira extremamente racional. Ela já estava acostumada com isso.
Bastava ele demonstrar um pouquinho de carinho de vez em quando para deixá-la completamente encantada, esquecendo qualquer mágoa.
— Meu assistente vai trazer suas roupas daqui a pouco.
Depois de dizer isso, Henrique entrou no escritório.
O menino foi atrás dele.
Vistos de costas, os dois pareciam pai e filho de verdade.
Natália acompanhou aquelas duas silhuetas com o olhar. De repente, seus olhos começaram a arder.
Pouco depois, o assistente chegou trazendo as roupas.
Sofia vinha ao lado dele.
Foi ela quem se apressou em explicar:
— Vim buscar o Luquinha.
Natália pegou as roupas e, exercendo pela última vez a autoridade que ainda tinha como dona daquela casa, declarou:
— Não gosto de mulheres estranhas entrando na minha casa.
Sofia ficou visivelmente constrangida, mas apenas por um instante. Logo recuperou a compostura.
— Marcelo, você poderia chamar meu filho, por favor?
Ela lhe entregou algumas fotografias.
— As fotos ficaram prontas. Aproveita e entrega essas aqui ao Henrique também. Obrigada.
Quando Marcelo foi pegar as fotografias, o pequeno maço escapou de suas mãos e caiu no chão.
Algumas foram parar bem aos pés de Natália.
Em uma delas, Henrique aparecia alguns anos mais jovem, vestindo uma camisa branca. Com a cabeça ligeiramente inclinada, contemplava o bebê enrolado em uma manta, com uma atenção delicada e concentrada.
Não havia vestígio daquela frieza reservada que ele sempre demonstrava.
Seus olhos transbordavam uma ternura que ele não conseguia esconder.
Um homem tão racional a ponto de parecer insensível seria capaz de tratar como filho uma criança com quem não tinha nenhum laço de sangue, só porque ela nascera da mulher que amava?
Como isso seria possível?
Aquela fotografia deu a Natália a resposta que procurava.
O menino tinha seis anos.
E ela estava casada com Henrique havia apenas quatro...
Um zumbido agudo tomou conta de seus ouvidos, atravessando-lhe a cabeça.
Seu corpo inteiro começou a tremer. Queria chorar, mas as lágrimas não vinham. Uma náusea violenta subiu por sua garganta, enquanto a sensação de estar sufocando ameaçava dominá-la por completo.
As lembranças vieram à tona de uma só vez, confundindo-se em sua mente.
Durante aqueles quatro anos, por que Henrique sempre chegava tão tarde em casa?
Por que estava constantemente ocupado?
Por que nunca quisera ter filhos com ela?
E pensar que, poucos minutos antes, Natália ainda fizera questão de bancar a dona da casa, proibindo Sofia de entrar.
Sofia provavelmente devia estar rindo dela por dentro.
Que idiota!
Passara todos aqueles anos se agarrando a um casamento que não passava de uma casca vazia, alimentando esperanças de que um dia seria amada.
Não devia existir ninguém mais idiota do que ela no mundo.
Pelo menos, em breve, estaria livre de tudo aquilo.