Share

Capítulo 4

Author: Semente Negra
Marcelo se apressou em recolher as fotografias espalhadas pelo chão. Em seguida, passou por Natália, entrou no apartamento e voltou trazendo Lucas.

O menino usava uma camisetinha branca por baixo de uma jardineira e carregava o caderno de atividades nos braços. Seu rostinho ainda redondo, com as bochechas fofas de criança, permanecia sério e tranquilo.

Quando o vira pela primeira vez, Natália achara o menino uma graça, com aquela aparência delicada de boneco. Seu jeito reservado, tão parecido com o de Henrique, despertara nela uma afeição imediata.

Mas agora, ao olhar para ele, sentiu um frio percorrer seu corpo.

Um suor gelado cobriu sua pele. O choque foi tão intenso que uma dor de cabeça insuportável a atingiu de repente. Sem conseguir se manter firme, cambaleou e bateu contra um armário junto à parede.

O vaso que estava sobre o móvel tombou.

Um estalo seco e estridente cortou o silêncio, seguido pelo barulho de inúmeros cacos de porcelana se espalhando pelo chão.

O som foi tão agudo e inesperado que pareceu atravessar seus nervos como uma agulha.

Lucas ficou rígido de repente.

O caderno escapou de seus braços e caiu no chão.

Ele levou as mãos aos ouvidos e começou a tremer. Seu rosto ficou vermelho, e a respiração se tornou rápida e irregular.

— Luquinha! — Sofia gritou.

Ela correu para abraçar o filho.

— Natália! O que meu filho fez para merecer isso?!

— Ah! Ahhh!

Lucas se encolheu no chão, tremendo e chorando aos gritos, até ficar rouco.

— Natália, até os seus escândalos têm que ter limite!

Henrique pegou o menino no colo. Sua voz saiu cortante, gelada de raiva.

— Você sabe muito bem que o Luquinha não suporta o barulho de objetos quebrando!

Natália ficou imóvel.

Era como se seus pés tivessem sido pregados ao chão. Um frio intenso tomou conta de seu corpo.

Todos se concentraram em Lucas, tentando acalmá-lo. Em meio à agitação, saíram às pressas com o menino nos braços, levando-o para o hospital.

Natália acompanhou Henrique com os olhos enquanto ele se afastava, apressado e visivelmente aflito.

Aquele homem lhe pareceu um completo estranho.

Então Henrique também era capaz de ficar tão preocupado a ponto de perder a calma.

Só não por ela.

Os cacos de porcelana espalhados aos pés de Natália estavam manchados de sangue. Havia vários cortes em suas pernas, e o sangue continuava escorrendo.

Mas Henrique nem sequer percebeu que ela estava ferida.

Antes, por mais frio e distante que fosse, ele sempre cuidava dela. Sempre se certificava de que estivesse segura.

Certa vez, ao descobrir que o pai estava tendo um caso, Natália ficou tão revoltada que resolveu fazer greve de fome.

Henrique entrou escondido em seu quarto pela janela para levar comida.

— Foi outra pessoa que fez besteira, e você vai se castigar passando fome? Deixa de ser boba!

Naquela época, a simples presença dele bastara para afastar sua tristeza, ainda que por alguns instantes.

Natália ficara tão feliz!

Henrique, sempre tão racional e comedido, havia escalado uma janela só para levar comida a ela, escondido de todos.

Como ele era bom com ela!

Mas agora...

Ele já nem enxergava seus ferimentos.

Talvez fosse melhor assim.

Se Henrique se tornara tão indiferente, provavelmente não seria difícil conseguir o divórcio.

Natália engoliu a mágoa e a vontade de chorar. Atravessou o apartamento vazio e entrou no quarto.

Com calma e paciência, trocou as roupas sujas por outras limpas, arrumou os cabelos, limpou a pele e colocou curativos nos ferimentos.

Quando terminou, já eram quase duas da tarde.

Estava prestes a chamar um carro para ir ao cartório esperar por Henrique quando o celular tocou.

Era ele.

Natália atendeu.

— Já estou a caminho.

— Venha ao hospital. Mandei o número do quarto para você.

Antes que ela pudesse responder, Henrique acrescentou:

— Sua avó está internada aqui.

Natália ficou alarmada e tentou fazer mais perguntas, mas Henrique já havia desligado.

Quando finalmente chegou ao hospital, estava coberta de suor.

Percorreu os corredores às pressas até encontrar o quarto 1202.

Parada diante da porta, ouviu vozes vindas de dentro.

— Nem pense em ligar para a Nati! Já vivi o bastante! — A voz de Irene Ferreira, avó de Natália, estava rouca e carregava um sofrimento que Natália nem conseguia imaginar.

Antônio Rodrigues, avô de Natália, soltou um suspiro angustiado.

— Se eu tivesse qualquer outra saída, você acha que eu ia querer ver a Nati se humilhando diante da família Vasconcelos? Mas, neste momento, quem tem mais chances de salvar sua vida é o doutor Ricardo Azevedo. E a única maneira de convencê-lo a operar é pedir ajuda àquela família.

— Não quero mais ouvir falar disso! A Nati já deve estar sofrendo sabe-se lá o quanto naquela família! Eu me recuso a ser mais um peso nas costas dela!

As mãos de Natália começaram a tremer.

Ela não teve coragem de entrar.

Procurou o médico responsável pelo tratamento da avó e pediu que lhe explicasse a situação.

Só então descobriu que, um mês antes, a avó havia sido diagnosticada com câncer de pulmão em estágio avançado.

Seu avô vendera a casa onde os dois planejavam passar a velhice para pagar um medicamento especializado, cujas injeções custavam dezenas de milhares de reais cada uma.

Mesmo assim, as despesas médicas continuavam se acumulando, como um poço sem fundo.

A avó não contara nada aos filhos e pretendia simplesmente esperar pela morte.

A culpa atingiu Natália com toda a força.

Passara tanto tempo vivendo em função de Henrique que nem sequer soubera que uma das pessoas mais importantes de sua vida estava gravemente doente.

Depois da morte de sua mãe, Natália fora rejeitada pela família Almeida.

Tinham sido seus avós maternos que a acolheram e criaram, mesmo enfrentando a possibilidade de romper relações com a própria família para protegê-la.

Desde então, Natália passara a considerar apenas três pessoas como sua verdadeira família.

Sua avó, seu avô e Henrique.

— O quadro da sua avó é bastante complicado. — Explicou o médico. — Considerando também a idade avançada, vamos começar com um tratamento medicamentoso menos agressivo durante três meses. Depois desse período, será necessário realizar uma cirurgia. O profissional com as maiores chances de sucesso nesse tipo de procedimento é o doutor Ricardo Azevedo. Eu mesmo entrei em contato com ele em nome da sua avó, mas, infelizmente, ele não realiza mais cirurgias e recusou o pedido educadamente.

O doutor Ricardo Azevedo crescera em um orfanato. Era um gênio da medicina, mas tinha uma personalidade solitária e avessa ao convívio social. A única pessoa com quem mantinha uma relação próxima era Augusto Vasconcelos, pai de Henrique.

Augusto também fora quem mais se opusera ao casamento de Henrique com Natália.

Durante os quatro anos de casamento, ela praticamente não tivera contato com o sogro.

— Eu mesma vou resolver a questão do doutor Ricardo.

Natália anotou o próprio número de telefone e o entregou ao médico.

— Se houver qualquer mudança no estado da minha avó, por favor, entre em contato comigo. Quanto aos medicamentos... Peço que diga aos meus avós que os custos dos próximos tratamentos serão menores. Eu pago o restante. Ah, e mais uma coisa: não conte a eles que estive aqui.

Natália saiu da sala e atravessou o corredor movimentado do hospital. Em meio ao fluxo de pessoas, avistou uma figura alta a certa distância.

Henrique estava parado diante do elevador, segurando a mão de Lucas, que aos poucos recuperava a calma.

Vestia uma camisa branca e calças pretas. A linha firme dos ombros e a postura ereta lhe conferiam a elegância discreta e a distinção de um homem maduro, acostumado a impor respeito sem precisar fazer esforço.

Mesmo cercado pelo movimento e pelo burburinho do hospital, sua presença parecia manter toda aquela agitação à distância.

Quando olhava para Sofia e o menino ao seu lado, a dureza de seu olhar desaparecia, dando lugar a uma tranquilidade afetuosa.

Seus dedos envolviam de leve o pulso de Lucas, sem apertá-lo. Era um gesto contido, mas cheio de cuidado e atenção.

Sofia, por sua vez, ainda estava com os olhos avermelhados. Enxugava delicadamente o suor fino que cobria a testa do filho.

Os longos cabelos negros estavam presos num coque frouxo, com algumas mechas soltas caindo junto ao rosto.

Havia nela uma delicadeza serena, com um ar de mulher culta e reservada. Embora seus olhos ainda estivessem vermelhos, não demonstrava nenhuma fragilidade afetada.

Pelo contrário, transmitia uma impressão de simplicidade e força, de alguém que enfrentava as dificuldades sem se deixar abater.

Protegido por Sofia, Lucas permanecia diante dela, sem demonstrar muita emoção. Com aquele ar sério e distante de um pequeno adulto, ficava ainda mais adorável.

Os três formavam uma cena que chamava a atenção.

Ao redor, não faltavam olhares de admiração para aquela suposta família de três pessoas, tão bonita e aparentemente harmoniosa.

Natália tomou a iniciativa de se aproximar.

Um leve cheiro de desinfetante pairava pelo corredor do hospital, tornando o ar quase sufocante.

Só quando chegou mais perto percebeu que a camisa de Henrique não estava tão impecável quanto de costume. Havia algumas dobras no tecido, provavelmente formadas quando ele carregara Lucas no colo.

Henrique era obcecado por limpeza e tinha uma necessidade quase compulsiva de manter tudo em perfeita ordem.

Fora da cama, Natália mal conseguia se aproximar dele. Até coisas simples, como dar as mãos ou trocar um abraço, eram difíceis.

E ela, naturalmente, sempre aceitara todas as exigências do marido.

Mais uma pontada a atingiu no peito.

Natália soltou o ar devagar.

— Agora você tem tempo para se divorciar, não tem?

A expressão de Henrique se fechou.

— Tenho. — Respondeu, sem alterar o tom de voz.

Na hora de sair do hospital, os três que pareciam formar uma família entraram juntos no carro de Henrique.

Natália chamou um carro por aplicativo e foi separadamente.

Henrique percebeu o que ela fizera, mas não comentou nada.

Quando chegaram ao cartório, apenas Henrique desceu do carro.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Meu Ex-Marido Não Me Larga   Capítulo 30

    Beatriz baixou os olhos. Quando voltou a falar, sua voz estava fria.— Então você mudou? Não ama mais o Rique?Os dedos de Natália se contraíram de repente.Ela teve uma vontade enorme de responder: "Isso mesmo. Não amo mais."Mas ainda não podia dizer aquilo.Forçou um sorriso.— Vó, a senhora sabe o quanto eu amo o Rique. Desde pequena, vivia correndo atrás dele.Henrique ergueu os olhos para ela. Ficou observando-a por alguns instantes, depois baixou a cabeça e continuou tomando café da manhã sem pressa.— Não. Tem alguma coisa errada.O olhar de Beatriz se deteve no pescoço de Natália, onde não havia marca alguma.Antes, quando o casal passava a noite na mansão da família, Natália sempre aparecia na manhã seguinte com marcas de intimidade no pescoço.Por isso, Beatriz tinha certeza de que nada havia acontecido entre os dois na noite anterior.Antigamente, bastava Beatriz ficar do lado de Natália para que ela se agarrasse a Henrique.E, com a avó por perto, ele também não a rejeitav

  • Meu Ex-Marido Não Me Larga   Capítulo 29

    O problema era que Natália não tinha nem como tomar banho e trocar de roupa.Havia levado todas as suas roupas embora. No closet, só restavam as coisas de Henrique.Quando ele saiu do banho, encontrou Natália sentada diante da penteadeira, ainda maquiada, mexendo no celular.Henrique voltou ao closet, pegou uma de suas camisas e a jogou na direção dela.A peça caiu bem em cima da cabeça de Natália, que ficou sem entender nada por um instante.Ela tirou a camisa da cabeça e sentiu o leve aroma de pinho que vinha do tecido. Só então entendeu o que Henrique queria: que tomasse banho e vestisse uma roupa dele.Sem mudar de expressão, Natália jogou a camisa de volta.— Não precisa. Vou ficar aqui mais um pouco. Quando a vó dormir, vou para o quarto de hóspedes.Henrique a encarou por alguns instantes antes de responder, indiferente:— A vó mandou a Lúcia trancar todos os quartos de hóspedes.Natália respirou fundo.Pelo visto, Beatriz havia percebido que alguma coisa não ia bem entre os doi

  • Meu Ex-Marido Não Me Larga   Capítulo 28

    Mas agora, mesmo correndo o risco de despertar as suspeitas de Beatriz, Natália simplesmente não conseguia mais se aproximar de Henrique.Ele lançou um olhar discreto para ela. Ao perceber que Natália não fazia nenhuma menção de se aproximar, desviou os olhos em silêncio.— Vó, já estamos casados há quatro anos.Beatriz soltou um resmungo de desdém.— Só quatro anos e já acabou a paixão? A Nati ainda é tão jovem! É claro que gosta de um pouco de romance. E você nem se esforça para entrar no clima! Cuidado para ela não arrumar um rapaz mais novo e largar você!Henrique respondeu com a voz firme e tranquila:— Ela não faria isso.Natália conteve a irritação e interrompeu:— Vó, acho que vai chover. Melhor a gente subir.Beatriz olhou para o céu, que estava carregado de nuvens escuras.— Está bem. Vamos subir.Quando entraram no elevador, porém, deram de cara com Sofia, justamente a última pessoa que esperavam encontrar.Por baixo do casaco, ela ainda usava uma camisola hospitalar. Havia

  • Meu Ex-Marido Não Me Larga   Capítulo 27

    Beatriz vinha de uma família com uma longa tradição na área da saúde. Embora não tivesse seguido a profissão dos antepassados, ainda sabia examinar o pulso.Mas não percebeu nada de diferente.Decepcionada, soltou o pulso de Natália e se sentou à mesa.— Vocês estão tentando ter um filho, não estão?Henrique respondeu em tom indiferente:— Estamos.Beatriz suspirou.— Se tivessem começado a tentar logo depois do casamento, a essa altura a criança já estaria até na pré-escola. Você sempre teve juízo pra tudo, mas, quando o assunto é esse... E ainda tem aquela Sofia.Ao mencionar Sofia, Beatriz se voltou para Natália e explicou:— Nati, não vá pensar besteira. Já conversei com o Rique. Não existe nada entre ele e Sofia. Ela tem uma deficiência física, e os dois se conhecem há muitos anos. Ele só quis dar uma força.Sua expressão ficou mais séria, e ela continuou em tom grave:— Além disso, o grupo está investindo pesado em projetos de inteligência artificial, e Sofia entende muito do ass

  • Meu Ex-Marido Não Me Larga   Capítulo 26

    Beatriz se voltou para Natália.— Nati, afinal, o que aconteceu? Me explica isso direito.Henrique também olhou para ela. Sob as sobrancelhas marcadas, seus olhos ligeiramente fundos tinham uma expressão indecifrável.Natália entendeu perfeitamente o recado.Era uma ameaça.Se ousasse contar a verdade, ele dificultaria a cirurgia da avó.Ela forçou um sorriso antes de responder:— Vó, fui eu que decidi sair. Já entrei para outra companhia de dança. Não precisa se preocupar comigo.Beatriz cerrou os dentes e encarou Sofia.— Mesmo assim, não vou permitir que essa mulher faça o que bem entender num lugar financiado pela família Vasconcelos! Henrique, ligue agora mesmo e mande demiti-la!Com os olhos vermelhos, Sofia olhou para Henrique, buscando seu apoio.Ele se colocou à frente dela, protegendo-a com o próprio corpo.— Vó, a participação dela já está decidida. A apresentação está chegando, e a lista de bailarinos já foi entregue. Não dá mais para substituir ninguém.Natália soltou uma

  • Meu Ex-Marido Não Me Larga   Capítulo 25

    Beatriz percebeu a hostilidade nas palavras dos dois. Também sabia que Henrique era o principal investidor do Centro Artístico de Santa Aurora. Se Natália havia deixado o emprego de repente, ele certamente sabia o motivo.— Afinal, o que foi que aconteceu...?Augusto interrompeu:— Ela não mudou de trabalho?Beatriz franziu a testa.— Mudou para quê?Natália explicou:— Só investi na companhia de dança de um antigo colega de dança.Beatriz ficou ainda mais confusa.— Colega? Um homem?Natália sempre fora muito cuidadosa nesse aspecto. Fazia questão de manter distância dos outros homens, e era justamente por isso que Beatriz nunca se preocupara em deixá-la trabalhar num ambiente onde circulava todo tipo de gente.Afinal, sabia muito bem o quanto Natália amava Henrique.Mas agora a moça parecia ter perdido a noção das prioridades, a ponto de se envolver num projeto com outro homem.— E o seu trabalho no centro artístico?— Vó, não precisa se meter nisso. — Disse Henrique.— Fui demitida.

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status