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Capítulo 2

Author: Semente Negra
Quando saiu do restaurante, Natália já mal conseguia enxergar através das lágrimas.

Alguém veio correndo atrás dela e a agarrou pelo braço.

Era Sofia. Seu olhar estava carregado de hostilidade.

— Você acha que sou amante do Henrique? Pois fique sabendo que não existe nada entre nós! Nunca tivemos nada, e eu nunca usei um centavo do dinheiro que ele me deu!

— Não sou cega nem surda.

Natália se soltou bruscamente da mão de Sofia.

De repente, uma van freou com violência logo atrás dela.

— Ah!

Mal teve tempo de gritar.

Dois homens corpulentos, com os rostos cobertos, avançaram diretamente sobre Natália. Um deles tapou sua boca enquanto os dois a agarravam e a empurravam para dentro do veículo.

Tudo aconteceu em questão de segundos.

Natália desapareceu.

Sofia ficou paralisada. Seu corpo vacilou por um instante antes de ela cair pesadamente no chão frio, batendo o cotovelo na quina de um degrau.

Quando algumas pessoas saíram do restaurante à sua procura, encontraram-na caída no chão, toda desajeitada.

Dois homens correram para ajudá-la. Ao verem que ela havia arrancado um pedaço considerável da pele do cotovelo e que sua prótese se soltara com a queda, ficaram furiosos.

— Foi a Natália que te empurrou? Aquela megera! Não existe mulher mais arrogante e abusada em Santa Aurora!

O outro também se indignou.

— Cadê ela? Te empurrou e saiu correndo? Ela vai ter que te pedir desculpas! Isso é um absurdo!

Os lábios de Sofia tremiam.

— Ela... Ela...

— Ela te ameaçou? Não precisa ter medo! Você tem a gente. Vamos ficar do seu lado, pode ter certeza!

— Ela...

Sofia piscou algumas vezes, segurando as lágrimas, e balançou a cabeça.

— Não foi nada. Vamos voltar. Ainda preciso trabalhar.

— Sofi, você é boa demais! Olha o que aquela mulher fez com você, e mesmo assim você não quer fazer nada! Não é à toa que ela não consegue conquistar o Rique. Com aquela maldade toda, não chega nem aos seus pés!

Os dois a ajudaram a se levantar e voltaram ao restaurante, reclamando em voz alta e contando a Henrique o que havia acontecido.

Henrique colocou um pouco de comida no prato do menino sentado ao seu lado. Esperou até que ele começasse a comer para então dizer:

— Ligue para a Natália.

Não acrescentou mais nada. Seu semblante estava fechado, e seu olhar era sombrio e impenetrável.

Sofia franziu a testa.

— Deixa pra lá. Estou bem.

— Sofi, não precisa ficar com pena da Natália! Vai esperar ela te mandar pro hospital pra admitir que aconteceu alguma coisa?

O homem já havia discado o número, ansioso para cobrar explicações de Natália o quanto antes.

O telefone chamou até a ligação cair automaticamente.

— Aposto que não atende porque está com a consciência pesada!

Sofia baixou os olhos. A franja comprida escondia sua expressão, enquanto as mãos, recolhidas dentro das mangas, tremiam levemente.

Discretamente, olhou para Henrique.

Henrique observava o menino comer e, de vez em quando, colocava mais comida em seu prato. Dessa vez, serviu-lhe um pedaço de costela.

Mantinha as costas eretas e os ombros relaxados. Seus movimentos eram lentos, seguros e precisos, sem nenhum gesto desnecessário.

Sofia apertou os lábios, conseguiu esboçar um sorriso e se aproximou do menino pelo outro lado.

— Luquinha, está gostoso? Vai, agradeça ao tio Henrique.

O menino, que até então comia de cabeça baixa, ergueu os olhos, olhou de um lado para o outro e respondeu com sua voz infantil:

— Obrigado, papai.

Henrique fez uma breve pausa no movimento da mão e lançou um olhar sereno ao menino. Por trás daquela calma, porém, parecia haver algo que ele não deixava transparecer.

Em voz baixa e grave, disse:

— Coma mais um pouco.

Um dos amigos, que acompanhava a cena, não conseguiu conter o riso.

— Rique, olha só! Isso sim é uma família de verdade! Você, a Sofia e o menino, os três juntinhos! A Natália já te fez perder quatro anos da sua vida. Amanhã, assim que o cartório abrir, vai lá e resolve esse divórcio de uma vez. Nada de ficar enrolando!

Na manhã seguinte, em frente ao cartório de registro civil.

Dentro do carro, Daniel, assistente de Henrique, estava sentado no banco do passageiro. Tentou ligar várias vezes, mas ninguém atendeu. Por fim, virou-se para o banco de trás, desanimado.

— Não consigo falar com a senhora Vasconcelos.

Sofia olhou para Henrique. Como ele permaneceu em silêncio, acariciou a cabeça do menino sentado entre os dois e comentou, com cautela:

— Talvez ela ainda esteja dormindo.

Henrique consultou o relógio de pulso.

— Primeiro, vamos deixar você no trabalho.

Quando chegaram ao restaurante, Sofia desceu do carro, mas antes entregou um pirulito ao filho e acariciou seu rostinho com carinho.

— Hoje você vai ficar com o... Tio Henrique. Seja bonzinho, está bem? A mamãe vem te buscar assim que sair do trabalho.

O menino assentiu e abaixou a cabeça, concentrado em desembrulhar o pirulito.

Aquela expressão tranquila, quase indiferente, lembrava um pouco a do homem sentado ao seu lado.

Quando voltaram ao cartório, havia vários outros carros esportivos estacionados nas proximidades.

Além dos que tinham acompanhado Henrique desde o restaurante na noite anterior, outras pessoas haviam aparecido depois de ouvir a notícia.

E não eram poucas as que aguardavam ansiosamente pelo divórcio de Natália e Henrique.

Natália era conhecida na alta sociedade por seu temperamento extravagante. Fazia o que bem entendia, pensando apenas na própria diversão, porque sempre tivera Henrique por perto para resolver as confusões em que se metia.

Mas o divórcio significaria o fim daquela proteção.

Henrique deixaria de ampará-la.

E os lobos que até então se escondiam sob peles de cordeiro finalmente poderiam mostrar as presas.

Daniel fez uma última tentativa de ligação.

Mais uma vez, ninguém atendeu.

Henrique continuava sentado dentro do carro, com um notebook aberto sobre a mesinha à sua frente. Depois de terminar de responder aos e-mails de trabalho, desenroscou casualmente a tampa de uma garrafa de água mineral para o menino, alheio a toda a agitação do lado de fora.

Daniel franziu a testa.

— Será que aconteceu alguma coisa com a senhora? Por mais brava que estivesse, ela nunca deixava de atender quando você ligava.

Natália sabia muito bem que, quando Daniel ligava, era porque Henrique queria falar com ela.

No passado, mesmo durante as piores brigas, o máximo que ousava fazer era atender e ficar em silêncio.

Henrique acabara de concluir o trabalho. Afrouxou a gravata, tirou-a e a deixou sobre o encosto do banco.

Sua voz saiu baixa e firme, sem qualquer alteração de tom, mas cada palavra tinha um peso difícil de ignorar.

— Já passei a manhã inteira dando corda para esse drama dela. Chega. Vamos voltar para a empresa.

Nesse instante, alguém bateu de leve no vidro do carro.

Uma silhueta esguia, vestida de vermelho, surgiu do lado de fora.

Se havia alguém que adorava usar cores tão chamativas, era Natália.

Daniel arregalou os olhos, incapaz de esconder o espanto.

Natália tinha chegado.

Mas havia algo estranho nela.

Não. Estranho não.

Ela estava num estado deplorável.

Estava descalça. Os pés, com as unhas pintadas de vermelho, estavam cobertos de terra e poeira. Havia vários arranhões na pele, além de áreas inchadas e arroxeadas pelas torções que sofrera.

Os cabelos estavam desgrenhados, e a maquiagem, toda borrada.

Parecia ter reunido até o último resquício de suas forças para chegar ali.

E tudo isso por um único motivo: divorciar-se de Henrique.

Daniel olhou para trás e percebeu que Henrique já havia aberto a porta e saído do carro.

Henrique caminhou até Natália com uma expressão fria e intimidadora e parou a menos de um passo dela. Não se aproximou mais, mas sua presença bastava para fazê-la sentir-se pressionada.

Percorreu-a dos pés à cabeça com o olhar.

— Onde você andou se metendo dessa vez?

Natália esboçou um sorriso sem alegria.

— Por aí, fazendo o que não devia. E, depois de terminar, voltei bem a tempo de me divorciar.

Henrique apoiou os nós dos dedos entre as sobrancelhas. O gesto foi lento, quase deliberado, denunciando o esforço que fazia para se conter.

A tensão entre os dois tornou o ar sufocante.

— Natália, pare de usar o divórcio para testar meus limites. — Sua voz saiu mais grave e rouca que de costume, cada palavra pronunciada com uma firmeza opressiva. — Esta é a última vez.

Natália o conhecia bem.

Ele estava furioso.

Antes, ela teria cedido sem pensar duas vezes, disposta a engolir qualquer mágoa só para vê-lo satisfeito.

Mas agora não.

Ignorando a raiva dele, virou-se e entrou no cartório.

Faltava apenas um minuto para o fim do expediente. Os funcionários já se preparavam para ir embora.

Natália inclinou levemente a cabeça, desculpando-se.

— Desculpem chegar tão em cima da hora. Sei que estou dando trabalho.

Os funcionários voltaram a se sentar, mas, ao olharem para ela, ficaram paralisados por um instante.

Natália já havia aparecido na televisão como bailarina principal de um espetáculo e chegara a conquistar certa fama.

Na época, sua beleza impressionante chamara tanta atenção que era difícil desviar os olhos dela.

A mulher que estava diante deles agora, porém, parecia outra pessoa.

Descalça, suja, machucada, com os cabelos desarrumados e a maquiagem borrada, estava tão abatida que mal lembrava aquela beldade deslumbrante.

Um dos funcionários pigarreou discretamente.

— E seu marido? Onde ele está?

Natália franziu a testa e olhou para fora.

Henrique não havia entrado.

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