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Capítulo 6

Autor: Semente Negra
Depois de repassar várias vezes toda a sequência de coreografias, Natália percebeu que já estava quase na hora. Faltava pouco para as seis quando recebeu uma mensagem de Daniel.

[O senhor chegou.]

Ela se levantou, foi ao vestiário trocar de roupa e desceu de elevador até o térreo.

Assim que saiu, avistou várias garotas do centro de artes escondidas atrás de uma enorme coluna redonda. Todas olhavam para a entrada com uma timidez que mal disfarçava o interesse.

Um homem alto, de corpo esguio, aguardava em silêncio junto à porta.

Tinha ombros largos, cintura estreita e pernas compridas, realçadas pelo corte impecável da calça social. Mantinha o olhar ligeiramente baixo, numa postura descontraída, mas sem o menor traço de desleixo. Havia nele uma elegância natural, própria de quem não precisava fazer esforço para demonstrar sua posição.

As bailarinas do centro de artes costumavam ser exigentes e orgulhosas. Homens comuns dificilmente despertavam seu interesse. Naquele momento, porém, estavam todas alvoroçadas.

— Gente, que homem lindo! Estou passando mal! Será que está esperando alguém? Se ninguém aparecer, vou lá dar em cima dele!

— Eu também queria! Mas, olhando de costas... Ele não parece o marido da Natália?

— Ah, para! Se a Natália tivesse um marido desses, você acha mesmo que ela ia se contentar em postar uma única foto dele de costas? Aquela foto só pode ter sido tirada da internet!

Foi então que Natália se deu conta de uma coisa.

Era a primeira vez que Henrique saía do carro para esperá-la. Antes, quando vinha buscá-la, no máximo ficava esperando dentro do veículo.

Ela nunca havia reclamado desses pequenos detalhes. Bastava ele aparecer para buscá-la, e Natália entrava no carro toda feliz, jogava os braços ao redor dele e ficava agarradinha, enchendo-o de carinho.

Ignorando os comentários, caminhou até Henrique.

— É a Natália mesmo... Não acredito!

As garotas reconheceram de imediato aquela silhueta alta, de curvas generosas.

Quatro anos antes, quando Natália chegara ao centro de artes, seu rosto radiante e sua beleza encantadora haviam atraído tantos olhares que inúmeros bailarinos passaram a aparecer às escondidas na sala de ensaio só para vê-la.

Naquela época, Natália era como o sol em pleno verão: radiante, intensa, impossível de ignorar.

Mas bastou anunciar que era casada para acabar com qualquer possibilidade de flerte.

Todos imaginavam que uma mulher tão deslumbrante, que havia se casado tão jovem, só podia ser extremamente feliz no casamento.

Com o tempo, porém, começaram a perceber que havia algo estranho.

O marido nunca aparecera para assistir a uma apresentação dela. Ninguém jamais soubera de uma ligação que ele tivesse feito por iniciativa própria. Até nas confraternizações, quando Natália bebia demais, eram os amigos que vinham buscá-la.

Não demorou para surgirem comentários de que ela havia se casado por dinheiro com algum velho baixo e feio.

Naquele momento, uma criança surgiu correndo pelo corredor, perseguindo uma borboleta, completamente entretida. Sofia vinha logo atrás, sorrindo enquanto a acompanhava.

Os dois se aproximaram de Henrique com a maior naturalidade.

— Nossa, você chegou tão rápido!

Atrás deles, as garotas que assistiam à cena ficaram ainda mais agitadas.

— Então ele é casado! Mas o que a Natália está fazendo? Ela também não é casada? E ainda vai dar em cima dele...

— Aff, mulher mal-amada é desesperada mesmo.

— Aposto que ela nem imaginava que a esposa do cara ia aparecer com o filho logo em seguida! Gente, que barraco! Será que vai sair briga?

Ao ver Sofia saindo de dentro do prédio do centro de artes, Natália percebeu que o diretor-geral não havia perdido tempo.

Mas aquilo já não importava.

Afinal, ela também estava de saída.

O que realmente doía era perceber que Henrique só havia saído do carro para esperar porque Sofia estava ali.

Era como se tivesse engolido uma agulha. Sentia uma dor surda no peito, que vinha em ondas, cada uma trazendo uma nova pontada. Até falar parecia difícil. As palavras custavam a sair.

— Vou pegar um táxi e ir sozinha para a mansão da família.

Henrique se voltou para ela.

A pele muito clara de Natália estava levemente rosada pelo esforço físico, deixando-a ainda mais bonita e sedutora do que de costume.

Mas havia algo diferente.

O brilho de amor que antes iluminava seus olhos sempre que olhava para ele havia desaparecido. Agora, Natália o encarava com uma calma absoluta.

Após um instante de silêncio, ele perguntou, com a voz grave:

— Tem certeza?

— Tenho.

A resposta veio sem a menor hesitação.

Antes, bastava alguma mulher chegar um pouco perto demais de Henrique para Natália correr a deixar claro que ele era seu marido.

Agora, já não fazia diferença.

Afinal, estavam prestes a se divorciar. Cada um seguiria seu caminho. Que ele ficasse com aquela amante ou com quantas outras aparecessem depois. Não era mais problema dela.

— Desde que tenha certeza.

Henrique baixou os olhos e se virou para ir embora, sem deixar transparecer nenhuma emoção.

Natália permaneceu onde estava e pegou o celular para chamar um carro por aplicativo.

Na verdade, a última coisa que queria era ir à mansão da família Vasconcelos. Mas a questão da cirurgia com o doutor Ricardo ainda não estava resolvida. Por sua avó materna, não tinha escolha.

Quando finalmente chegou à mansão, encontrou Henrique sentado ao lado da avó, ouvindo uma bronca.

— Você já não é nenhum menino! Faz quatro anos que se casou e até agora nada de herdeiro! Onde já se viu uma coisa dessas? Se a Natália não engravidar logo, aqueles filhos do seu tio vão usar isso para criar confusão!

A família Vasconcelos tinha uma longa história e inúmeros ramos familiares. Só na geração de Henrique, havia dezenas de membros da família.

Mas era praticamente impossível encontrar outro homem como ele, que já chegara aos trinta anos sem ter sequer um herdeiro.

Por isso, Beatriz vivia cobrando o neto.

Natália respirou fundo para se recompor antes de entrar na sala.

Abriu um sorriso e cumprimentou a idosa:

— Oi, vó!

— Nati, querida, por que você não voltou com o Henrique?

Beatriz se virou para o neto.

— Você não foi buscar sua esposa? Esse seu jeito... Igualzinho ao do seu pai! Daqui a pouco, vai acabar...

Ela interrompeu a frase. Uma tristeza antiga voltou a transparecer em seu rosto.

Henrique apenas disse:

— Vamos jantar.

Beatriz pegou Natália pela mão e a levou até a sala de jantar.

Pelo canto dos olhos, Natália viu Henrique contornar parte da mesa e se sentar ao lado da avó.

Antes, ela certamente teria ido atrás dele para ficar bem juntinho.

Dessa vez, porém, apenas baixou os olhos e permaneceu em silêncio, fingindo não ter percebido.

Beatriz notou que havia algo diferente entre os dois.

Pigarreou de leve.

— E o que você está fazendo sentado aqui do meu lado? Vá se sentar com sua esposa! Esse lugar é da minha Mia.

Henrique hesitou por um instante antes de responder, sem dar muita importância:

— Tanto faz onde eu me sentar.

Nesse instante, Mia entrou correndo do quintal.

— Tia Nati! Que saudade! Eu estava morrendo de saudade de você!

A menina de seis anos se jogou nos braços de Natália, que se apressou em abraçá-la. Um sorriso sincero surgiu em seu rosto.

— Mia! Eu também estava morrendo de saudade de você!

A família Vasconcelos mantinha uma amizade de gerações com a família Rodrigues. Beatriz adorava crianças e costumava brincar com a menina.

Apesar de ser uma menininha, Mia era uma verdadeira pestinha. Vivia subindo em árvores, escalando muros e aprontando todo tipo de travessura.

Era exatamente como Natália havia sido na infância.

Não era de surpreender que as duas fossem tão próximas.

Henrique, porém, gostava de sossego. Por causa dele, Natália sempre evitara deixar Mia ficar grudada nela por muito tempo, com medo de que o marido se irritasse com a agitação da menina.

Agora, já não precisava se preocupar com isso.

Estava justamente pensando em colocar Mia sentada ao seu lado quando Beatriz chamou a menina.

— Mia, meu amor, vem ficar aqui com a vovó?

Em seguida, lançou um olhar fulminante para Henrique. Só então ele se levantou e foi se sentar ao lado de Natália.

Mia tinha medo daquele jeito frio e carrancudo de Henrique. Correu para junto da idosa e começou a contar, toda animada:

— Bisavó, sabe o que aconteceu? Chegou um menino novo lá na escola! O nome dele é Lucas Martins, e ele é muito inteligente! Até a professora disse que ele é o aluno mais inteligente da escola inteira! Que ele é um gênio...

Natália ficou imóvel.

Mia estudava na escola internacional mais prestigiada de Santa Aurora, uma instituição de elite, com turmas pequenas e ensino voltado à formação de alunos excepcionais. Todas as crianças vinham de famílias ricas ou influentes, e a anuidade ultrapassava um milhão de reais.

Natália, por outro lado, havia matriculado Lucas numa escola pública.

Só podia ter sido Henrique quem providenciara a transferência.

E aquilo significava uma coisa: ele pretendia preparar Lucas para ser seu herdeiro.

Natália apertou os lábios.

Pelo visto, Henrique também já estava decidido a se divorciar. Tanto que começara a investir na formação do menino para o futuro.

A família Vasconcelos provavelmente adoraria Lucas.

Afinal, ele era um menino comportado, educado e extraordinariamente inteligente.

De qualquer forma, o casamento deles estava chegando ao fim. Natália não queria mais desperdiçar energia pensando nos assuntos de Henrique.

Voltou-se para Beatriz e aproveitou para perguntar sobre o doutor Ricardo.

A idosa sorriu.

— Pode ficar tranquila, querida. Já conversei sobre isso. Augusto disse que, assim que voltar da viagem de negócios, vai convidar o doutor Ricardo para jantar e tratar do assunto com ele. Ah, e essa sopa medicinal foi preparada especialmente para você. Pedi ao cozinheiro que fizesse. Tome bastante, vai te fazer bem.

— Obrigada, vó.

Natália ficou um pouco mais tranquila.

Ainda preocupada com a situação da avó materna, pegou a tigela que a empregada havia servido, com um pouco menos da metade de sopa, e começou a tomar devagar.

— Que história é essa de agradecer? Somos uma família! Você está magrinha demais, precisa comer mais.

Beatriz mandou servir uma tigela para Henrique também e aproveitou para lhe dar um recado:

— Traga a Nati para jantar aqui mais vezes. Vocês, jovens, nunca se alimentam direito.

Henrique manteve o olhar baixo, mexendo lentamente a sopa com a colher.

Respondeu num tom contido:

— Vó, eu tenho muito trabalho. E a Nati também tem os compromissos dela...

Beatriz perdeu a paciência na mesma hora.

— É trabalho mesmo que está tomando todo o seu tempo? Ou é por causa daquela Sofia?!

Sua voz se elevou de indignação.

— Naquela época, você foi espancado pela família até quase morrer por causa dela! Eu não aguentei ver você naquele estado e acabei concordando que se casasse com ela! E o que ela fez? Virou as costas e foi se casar com outro! Pois fique sabendo: se você ousar se envolver com ela de novo, eu vou ser a primeira a me opor!

Aquelas revelações inesperadas atingiram Natália de uma vez só, deixando-a desnorteada por alguns instantes.

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