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Capítulo 5

作者: Semente Negra
Natália se aproximou dele.

— Espera.

Henrique, que caminhava dois passos à frente, virou-se.

— Se arrependeu?

— Depois de quatro anos dormindo comigo, você bem que podia me dar alguma coisa em troca, não acha?

Ela tentou imitar o tom calmo e indiferente dele.

Mas manter aquela calma era muito mais difícil do que parecia.

As lembranças dos últimos quatro anos se cravavam em seu coração como milhares de agulhas.

Natália respirou fundo, tentando se recompor, antes de continuar:

— Quero que o doutor Ricardo opere minha avó.

Henrique a observou sem perder a compostura.

— Quer trocar o divórcio por isso?

— Quero. Só vou me divorciar quando tiver certeza de que o doutor Ricardo aceitou fazer a cirurgia.

— Natália, você sabe muito bem que meu pai não vai procurar o doutor Ricardo. Está usando isso para me pressionar porque, no fundo, não quer se divorciar? — Sua voz permaneceu firme. — Você sabe que, desde que me casei com você, minha relação com meu pai virou uma guerra.

— Eu sei. Por isso, quero que você ligue para sua avó e peça ajuda a ela. Sua avó sempre fez todas as suas vontades. Não vai te negar esse favor.

Natália pronunciou cada palavra com absoluta clareza, sem deixar transparecer qualquer emoção.

Não havia mais nada daquela voz doce e dengosa com que costumava se agarrar a Henrique para conseguir o que queria.

Ele ficou observando-a por alguns instantes antes de pegar o celular e fazer a ligação.

A chamada foi atendida, e a voz afetuosa de Beatriz Monteiro, avó de Henrique, soou do outro lado.

— Rique, meu querido! Que surpresa você ligar assim, do nada! Eu e seu avô estamos aqui brincando de montar bloquinhos com uma criança da família Rodrigues. Que coisinha mais fofa! Ah, falando em criança, quando é que você e a Nati vão ter um filho?

Beatriz não conseguia conversar por mais de três frases sem tocar no assunto dos filhos. Natália e Henrique já estavam acostumados.

Antes, sempre que a avó mencionava o assunto, Natália lançava ao marido um olhar discretamente esperançoso.

Henrique, porém, limitava-se a responder, com a indiferença de sempre, que não havia pressa.

Dessa vez, Natália fingiu não ter ouvido nada e ficou esperando que ele continuasse a conversa.

— Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente. Mais cedo ou mais tarde, teremos um filho. — Respondeu Henrique, com tranquilidade. — Mas estou ligando por outro motivo. A avó da Nati está doente e precisa de uma cirurgia com o doutor Ricardo. Só que ele se recusou a operá-la.

— Deixe isso comigo. Vou falar com ele. E você e a Nati venham jantar aqui em casa hoje à noite.

Quando voltou a falar, porém, o tom carinhoso da Beatriz deu lugar à seriedade.

— Aliás, fiquei sabendo que vocês dois estão pensando em se divorciar. Isso não é verdade, é? Escute bem, Rique: pelo menos agora, nem pensar! Tem gente demais de olho em cada passo seu. Não vá arrumar mais problemas!

Natália sentiu um sobressalto.

Se a avó de Henrique descobrisse que ela realmente pretendia se divorciar, ainda estaria disposta a ajudá-la a conseguir a cirurgia com o doutor Ricardo?

E sua própria avó? O que seria dela?

A cirurgia só poderia ser realizada dali a três meses.

— Eu sei, vó. Não se preocupe. Está tudo bem entre mim e a Nati. — Respondeu Henrique, escondendo a verdadeira situação do casamento.

Depois de desligar, ele se voltou para Natália.

— Minha avó já ficou sabendo do divórcio. Natália, você pensou até nisso, não foi?

Os cílios dela estremeceram ligeiramente antes que erguesse os olhos para encará-lo.

Henrique estava convencido de que fora Natália quem contara à avó sobre o divórcio, como parte de um plano para conseguir o que queria.

Mesmo assim, não parecia particularmente incomodado.

Continuava falando e agindo com a mesma calma, sem a menor pressa.

Era como se não fizesse diferença alguma para ele se o divórcio acontecesse naquele dia ou no seguinte.

Quando ela quisesse, ele estaria pronto.

Henrique consultou o relógio de pulso e olhou na direção do carro. Não queria perder mais tempo discutindo com ela ali.

— Como você quiser. Vamos esperar até a cirurgia estar confirmada.

Depois de um longo silêncio, Natália assentiu.

— Está bem.

Henrique ficou observando-a por alguns instantes.

— Às seis da tarde, passo para te buscar... Onde você vai estar?

— Na sala de ensaio.

Assim que respondeu, Natália se virou e foi embora.

Mas o carro que chamou não seguiu para a sala de ensaio, e sim para um pequeno hospital particular.

Lá, entregou ao médico duas amostras de cabelo, ambas com as raízes preservadas.

Uma havia sido recolhida no quarto de Henrique. A outra era de Lucas, que perdera alguns fios enquanto se debatia no chão durante a crise.

A família Vasconcelos era poderosa demais. Natália sabia que não podia simplesmente expor a infidelidade de Henrique. Fazer isso seria praticamente assinar a própria sentença.

Mas ter uma prova em mãos era outra história.

Se fosse necessário, poderia usá-la para pressioná-lo.

— Entraremos em contato dentro de cinco a sete dias úteis. — Informou o médico.

Natália assinou os documentos e deixou o hospital.

O que ela não sabia era que, assim que saiu, o médico não encaminhou as amostras para análise, como deveria.

Em vez disso, ficou olhando para os dois materiais.

Então pegou o celular e fez uma ligação.

— A Natália acabou de trazer duas amostras para um exame de DNA... Certo.

Depois disso, Natália passou na casa de Marina.

Todos os pertences que havia retirado do apartamento de Henrique estavam guardados ali.

Marina era justamente uma daquelas amizades que Henrique desprezava, a quem chamava de má influência e de gente que não queria nada com a vida.

Mas, ao contrário do que ele imaginava, as duas haviam se conhecido numa competição de verdade.

Aos doze anos, Natália participara de uma competição internacional de robótica e conquistara o primeiro lugar sob o pseudônimo de "Henri". Marina ficara em segundo.

Entre todos os participantes, Natália era a mais jovem e também a que demonstrava o maior talento.

Depois da competição, um professor da Universidade Stanford reconhecera seu potencial e a convidara para estudar diretamente na instituição, sob sua orientação.

Mas Natália recusara.

Naquela época, por mais que desejasse se afastar da própria família, havia algo que queria ainda mais: continuar perto de Henrique.

Assim que recebera o prêmio, sua primeira vontade fora contar a novidade a ele.

E somente a ele.

Mas um acidente a impedira de compartilhar aquela conquista.

Naquele mesmo ano, a mãe de Henrique liderava uma equipe de pesquisadores envolvida no desenvolvimento de um sistema inteligente de direção automatizada.

Ela decidira testar pessoalmente um dos veículos equipados com a tecnologia.

O sistema já havia passado por incontáveis testes. Mesmo assim, durante a experiência, falhou de maneira inesperada.

O carro disparou em alta velocidade, completamente fora de controle.

O acidente destruiu o veículo e tirou a vida da mãe de Henrique.

Desde então, Natália nunca mais tivera coragem de mencionar qualquer assunto relacionado à robótica ou a sistemas inteligentes na presença dele.

Assim que entrou na casa de Marina, recebeu um abraço apertado da amiga.

— Parabéns! Até que enfim você conseguiu sair daquela tumba chamada casamento!

Mas Natália estava ansiosa para saber de outra coisa.

— Mari, você conseguiu falar com o professor por mim?

Marina assentiu.

— Consegui! Ele está aqui no Brasil por enquanto, trabalhando com a equipe dele num projeto nacional. É um projeto sigiloso, então não pode revelar detalhes. Mas, quando soube que era você, ficou superanimado! Até passou o contato dele.

Natália sentiu a empolgação crescer.

— Então vou mandar meus projetos para ele dar uma olhada agora mesmo.

Marina apertou de leve a bochecha da amiga.

— Que mandar projeto, o quê! Ele já te convidou para almoçar e conversar pessoalmente!

As bochechas de Natália ficaram coradas, e seus olhos começaram a arder.

— Ele nem ficou preocupado com a possibilidade de eu ter virado uma inútil depois de tanto tempo?

— Inútil? De onde você tirou isso? — Marina estalou a língua e olhou para as máquinas inteligentes dos mais diversos formatos que se amontoavam pela casa. — Mais da metade disso tudo foi você que fez! E olha que eu pesquisei o mercado, viu? Ainda não encontrei ninguém no Brasil que consiga superar o seu trabalho.

Natália contemplou aquelas máquinas, sentindo a confiança em si mesma voltar aos poucos.

Ainda bem que nunca havia abandonado sua verdadeira paixão.

Durante todos aqueles anos, aproveitara a desculpa de sair para se divertir com Marina para continuar estudando, desenvolvendo projetos e aperfeiçoando suas habilidades.

— Aliás, e aquela história da dança? Você ainda pretende continuar? — Marina balançou a cabeça. — Cai fora de uma vez. Nunca devia ter se dedicado a uma coisa que nem é seu forte só por causa de um homem.

— Vou fazer minha última apresentação. Depois disso, saio da companhia de vez.

Marina ficou olhando para ela e, de repente, sorriu.

— Natália... Você desistiu mesmo dele, não foi?

Durante tantos anos, Natália chorara por Henrique, sofrera por ele e vivera seus momentos mais felizes também por causa dele.

Mas agora, finalmente, estava prestes a viver por si mesma.

Natália sentiu uma vontade repentina de chorar.

Quando começara a descobrir o amor, ainda menina, gravara uma promessa no tronco da magnólia que crescia no quintal de casa:

"Vou amar Henrique até completar cem anos."

Agora, aos vinte e quatro, decidira que não queria mais amá-lo.

Nada mal.

Acabara de ganhar setenta e seis anos de volta.

Depois de combinar o horário do encontro com o professor, Natália retocou a maquiagem e seguiu para o Centro de Artes de Santa Aurora, onde pretendia aproveitar o tempo livre para ensaiar mais um pouco.

Como era a bailarina principal da companhia, precisava ensaiar muitos dos movimentos separadamente. Por isso, procurou uma sala de ensaio menor.

Estava prestes a abrir a porta quando ouviu a voz do diretor-geral.

— Assim que essa apresentação terminar, vamos dispensar a Natália.

A coreógrafa pareceu surpresa.

— Mas por quê? Assim, de repente?

— A Sofia voltou. Agora que a verdadeira está de volta, pra que continuar com uma substituta? Já mandei entrarem em contato com ela.

A coreógrafa hesitou.

— Mas a Sofia não sofreu um acidente de carro anos atrás? Ela não perdeu parte de uma perna? Como vai conseguir dançar?

O diretor soltou uma risada de desdém.

— Mesmo que ela não possa dançar, quem tem que recusar a proposta é ela, não nós! Quem banca essa companhia é o senhor Vasconcelos. Se ele quiser transformar alguém em estrela, é essa pessoa que vamos colocar no palco.

Natália voltou para a sala principal de ensaios.

O ambiente estava tomado pelo burburinho das conversas, pelos passos dos bailarinos e pelo movimento incessante dos corpos que ensaiavam suas coreografias.

Mas ela parecia não enxergar nada daquilo.

Caminhou mecanicamente até um canto e começou a alongar as pernas.

Sofia também sabia dançar.

Então era por isso.

Henrique dissera que Natália tinha talento para a dança porque Sofia também dançava.

Quando ele decidira investir na companhia, Natália ficara radiante, acreditando que o marido estava fazendo aquilo por ela.

Afinal, Henrique raramente demonstrava carinho com gestos tão generosos.

Durante todos aqueles anos, Natália passara os dias inteiros na sala de ensaio, treinando desde cedo até ficar encharcada de suor.

Suportara as dores dos alongamentos forçados pelos professores, muitas vezes tão intensas que a faziam chorar.

E nunca, nem uma única vez, pensara em desistir.

Tudo porque Henrique dissera que ela levava jeito para dançar.

Agora descobria que até aquilo era uma mentira.

Natália repetiu mentalmente a palavra "divórcio" várias vezes, até conseguir afastar aqueles pensamentos.

Então passou a se concentrar na possibilidade de entrar para a equipe de pesquisa do professor.

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