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Capítulo 7

Author: Semente Negra
Quatro anos antes, sua madrasta havia decidido entregá-la a um velho.

Natália fora trancada num porão, sem ver a luz do dia. Seu celular havia sido confiscado, e ela não tinha como entrar em contato com os avós maternos.

Só conseguiu sair de lá quando os avós de Henrique foram à casa dos Almeida formalizar o pedido de casamento, anunciando que ele queria se casar com ela.

Foi só então que a madrasta a libertou.

Assim que saiu, Natália correu para procurar Henrique.

Encontrou-o deitado de bruços na cama, com o rosto pálido e o corpo coberto de ferimentos que ainda sangravam. Estava inconsciente, ardendo em febre alta.

Na época, ela acreditou que Henrique havia sido castigado daquela forma pela própria família por insistir em se casar com ela.

E foi por isso que, durante os quatro anos de casamento, nunca se importou com a frieza dele. Por mais indiferente que Henrique fosse, Natália continuou a amá-lo com toda a intensidade, sem jamais lhe cobrar nada.

Afinal, ao vê-lo inconsciente depois de sofrer aquele castigo que, segundo acreditava, havia recebido por sua causa, fizera uma promessa a si mesma.

Jamais o abandonaria. Ficaria ao lado dele pelo resto da vida.

Mas então...

Não tinha sido por ela.

Henrique não havia sofrido tudo aquilo para se casar com Natália.

Tinha sido por Sofia.

De repente, seus dedos perderam a firmeza.

Uma pressão terrível lhe comprimiu o peito, como se uma mão invisível apertasse seu coração. O pânico veio de uma vez, subindo pela garganta, e até seus pulsos pareceram perder a força.

A tigela de porcelana branca que segurava vacilou, inclinando-se para um lado.

Natália tentou firmá-la entre os dedos, mas só conseguiu roçar a superfície fria e lisa da porcelana.

A tigela escapou de suas mãos.

Um estrondo seco, seguido de uma sucessão de estalos agudos, rompeu o silêncio da sala.

A porcelana branca se espatifou no chão, espalhando cacos por todos os lados. A sopa se derramou pelo piso.

Os dedos de Natália continuaram curvados no ar, como se ainda segurassem a tigela. Seu coração batia descompassado, martelando no peito, enquanto ela tentava respirar entre pequenos tremores.

— Nati, você...

Beatriz tentou segurá-la.

Mas Natália saiu às pressas, sem sequer se despedir.

Atrás de si, ainda ouviu Beatriz mandar Henrique ir atrás dela.

Ele respondeu com a indiferença de sempre:

— Ela não vai muito longe.

Era verdade.

Antes, mesmo quando ficava furiosa, Natália não passava da porta. Bastava Henrique querer, e a encontraria sem o menor esforço.

E, mesmo que ele não fosse procurá-la, ela acabaria voltando sozinha, obediente como sempre.

Quando se entrega amor demais, ele acaba perdendo o valor aos olhos de quem o recebe.

Natália saiu correndo daquela imensa propriedade.

Do lado de fora, uma longa avenida asfaltada se estendia à sua frente. A mansão ficava longe demais do centro da cidade, numa região onde era difícil conseguir um carro por aplicativo.

Completamente desnorteada, começou a caminhar sem rumo enquanto pegava o celular para ligar para Marina.

— Alô? Nati?

— Marina...

Bastou pronunciar o nome da amiga para perder o controle.

Natália desabou num choro convulsivo, soluçando alto, como uma criança incapaz de conter a própria dor.

— O que aconteceu? Onde você está? Vou aí te buscar!

Entre soluços, Natália conseguiu dizer onde estava.

Marina respondeu imediatamente:

— Tá bom. Fica aí, não sai do lugar. Estou indo te buscar.

Marina não desligou. Pelo telefone, Natália ouviu o barulho de uma porta se abrindo e se fechando.

A amiga entrou no carro e, enquanto dirigia, foi puxando conversa sobre uma coisa e outra, tentando distraí-la.

Natália se agachou à beira da estrada e começou a contar o que havia acontecido durante o jantar.

Marina explodiu numa enxurrada de palavrões.

— Puta que pariu! Esse desgraçado é gente, por acaso? Passou quatro anos te enganando! É pior que um animal! E você ainda defendia aquele canalha, dizendo que ele só parecia frio por fora! Frio por fora uma ova! Aquele homem é gelado por dentro e por fora, até a medula dos ossos! Ainda bem que você finalmente abriu os olhos e resolveu se divorciar desse lixo!

Natália ainda ouvia a amiga quando uma notificação apareceu na tela do celular.

[Professor Edward: Henri, estamos enfrentando um problema grave no laboratório. É extremamente urgente. Você poderia vir dar uma olhada? Desculpe incomodar assim, de última hora, mas, se conseguirmos resolver esse problema, tenho certeza de que a direção vai autorizar sua entrada direta na equipe.]

Natália se recompôs rapidamente.

Respondeu que poderia ir imediatamente e pediu o endereço do laboratório. Sua intenção era esperar Marina chegar e seguir direto para encontrar o professor.

Foi nesse momento que um Maybach preto parou bem à sua frente.

O vidro da janela desceu lentamente.

O homem virou ligeiramente a cabeça. A luz desenhava os traços bem definidos de seu perfil. O nariz alto e reto projetava uma sombra discreta sobre o rosto. Seus olhos profundos e escuros tinham a frieza das águas de um lago em pleno inverno.

Ele baixou o olhar para ela.

Era de uma beleza marcante, quase intimidadora.

— Entra.

Henrique falou com a maior naturalidade, como se nada tivesse acontecido. Como se, desde o início, tivesse certeza de que ela estaria esperando por ele em algum lugar ali perto.

Natália se levantou devagar.

— Não precisa. A Marina vem me buscar.

Ao ouvir o nome de Marina, Henrique não demonstrou nenhum sinal de desagrado.

Mas Natália sabia muito bem que ele nunca tivera uma boa impressão da amiga. Aos olhos dele, Marina era uma mulher que não fazia nada da vida, muito distante das pessoas com quem costumava conviver, todas reconhecidas como gênios em suas respectivas áreas.

— Natália, não me faça perder tempo.

Sua voz permaneceu calma e uniforme, sem a menor alteração.

— Não estou fazendo birra para você vir atrás de mim e ficar me agradando.

Ela virou a cabeça para o lado e ergueu levemente o queixo.

— Ela já chegou.

O guincho de uma freada brusca cortou o ar.

Uma Ferrari azul-cobalto parou bem à frente do Maybach.

Henrique lançou um olhar indiferente para o carro antes de voltar a atenção para Natália.

Ficou em silêncio por alguns instantes. Depois, assentiu, como se aquilo não tivesse a menor importância, e mandou o motorista seguir viagem.

Marina saiu rapidamente da Ferrari e foi direto até Natália, segurando-a pelo pulso.

Encarou Henrique com aberta hostilidade, um sorriso carregado de sarcasmo no canto da boca.

— Pode deixar que da nossa Nati eu cuido, senhor Vasconcelos. Não queremos incomodar. Até porque vai saber que tipo de sujeira já andou sentada nesse carro, não é? A Nati gosta das coisas limpas.

Henrique nunca perdia tempo com discussões desse tipo.

Simplesmente fechou o vidro.

Marina também não ficou para conversa. Puxou Natália até a Ferrari, colocou-a rapidamente no banco do passageiro e assumiu o volante.

Assim que arrancou, pisou fundo no acelerador.

Em poucos instantes, ultrapassou o Maybach, deixando para Henrique apenas a fumaça do escapamento.

Depois de um longo trajeto, chegaram a uma região isolada, onde funcionavam instalações sigilosas de acesso restrito. Marina não tinha autorização para entrar e parou o carro do lado de fora.

— Vai lá. Quando terminar, me liga.

Natália assentiu, abriu a porta e desceu.

Caminhou até a entrada e estava prestes a mandar uma mensagem ao professor quando alguém apareceu para barrar seu caminho.

Era Leonardo, um dos amigos mais próximos de Henrique.

De todos os amigos do marido, Leonardo era quem mais a detestava. Vivia fazendo comentários sarcásticos, dizendo que ela não estava à altura de Henrique.

Certa vez, chegara ao ponto de apresentar a Henrique uma pesquisadora de pós-doutorado, na casa dos vinte e poucos anos, sugerindo que, se gostasse dela, poderia mantê-la como amante.

Quando Natália descobriu, armou o maior escândalo.

Desde então, a relação entre os dois, que já era péssima, só havia piorado.

— O que você está fazendo aqui?

Leonardo franziu a testa, sem fazer o menor esforço para esconder o desprezo.

— Este lugar não é para gente como você. Dá o fora!

— Eu não posso vir aqui? E desde quando é você quem manda neste lugar?

Natália ainda conseguiu responder com relativa calma.

— Ah, faça-me o favor!

Leonardo ergueu a mão e apontou para as instalações.

— Isto aqui é um laboratório nacional de pesquisa ultrassecreto! O que uma inútil de uma academia de dança veio fazer aqui? Varrer o chão?

— Mesmo que fosse para varrer o chão, não seria da sua conta.

Natália não tinha a menor disposição para perder tempo discutindo com ele.

Leonardo era o típico gênio privilegiado que se achava superior a todo mundo. Vivia olhando os outros de cima para baixo, como se ninguém estivesse à sua altura.

Não adiantava discutir com alguém assim.

Ela pegou o celular e mandou uma mensagem diretamente ao professor Edward.

[Professor, cheguei.]

A resposta veio pouco depois.

[Certo. Já pedi a alguém que espere você na entrada. Conseguiu encontrá-lo? Ele vai acompanhar você até o laboratório.]

Natália olhou ao redor.

Mas, naquela área inteira...

Não havia mais ninguém além de Leonardo.

Naquele exato momento, Leonardo acabara de mandar uma mensagem para Henrique avisando que havia encontrado Natália ali.

Em seguida, baixou os olhos para o relógio e resmungou, irritado:

— Que droga, por que ainda não chegou?

Natália resolveu sondá-lo.

— Você está esperando alguém?

— E o que você tem a ver com isso?

Leonardo já estava perdendo a paciência com a espera. Encontrar Natália ali só o deixou ainda mais irritado.

— Vai embora de uma vez! Ou está esperando a polícia militar aparecer para te expulsar? É proibido ficar dando bobeira por aqui!

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