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Capítulo 5

Author: Bolso Estrela
A cozinha, que normalmente era espaçosa, naquele momento parecia apertada.

Suzana ficou constrangida atrás de Heloísa e Ricardo.

— Sim. — Depois de alguns segundos de silêncio, respondeu às pressas, atrapalhada. — Vou colocar tudo nas embalagens agora.

Ricardo assentiu. Em seguida, seu olhar pousou sobre Heloísa.

— Você chegou na hora certa. Venha comigo ao hospital e peça desculpas a Antonela. O que você fez ontem foi impulsivo e imprudente, e teve um impacto negativo sobre ela. — A expressão em seus olhos continuava tão indiferente quanto antes.

— Ricardo, eu ouvi direito? — Heloísa ficou tão irritada com as palavras de Ricardo que chegou a rir. — Foi você quem traiu sua esposa e realizou um casamento com Antonela, e agora quer que eu peça desculpas para sua amante?

— Que história é essa de traição? Você não faz a menor ideia do que aconteceu! — Os olhos de Ricardo se tornaram frios, e uma pressão invisível emanou de seu corpo. — O casamento era falso. Eu estava apenas ajudando Antonela. A família dela é extremamente tradicional e patriarcal. O fato de ela ter conseguido estudar até o mestrado já foi resultado de ter dado tudo de si. Os pais dela estão obrigando-a a se casar e querem que ela se case com um homem com deficiência intelectual. Se ela se recusar, vão romper completamente os laços com ela. De um lado estão os pais que a criaram e sustentaram. Do outro, a felicidade dela. Sendo assim, ela não teve escolha, por isso pensou em realizar um casamento falso.

Ricardo franziu levemente a testa e encarou Heloísa.

— Ela é minha aluna de maior confiança e, agora, também é meu braço direito. Como professor e superior dela, é minha obrigação ajudá-la. Heloísa, você é minha esposa. Eu achava que você era sem graça e ignorante, tudo bem. Mas pensei que, pelo menos, tivesse o mínimo de bom senso. E veja o que fez ontem. Sem sequer perguntar o que estava acontecendo, você transformou tudo naquela confusão. Agora, a reputação de Antonela em sua cidade natal está completamente arruinada. Como você espera que uma jovem como ela viva daqui para frente?

Heloísa permaneceu em silêncio, parada no mesmo lugar, ouvindo o longo discurso de Ricardo.

Aquela era a primeira vez em sete anos que aquele homem lhe dizia tantas coisas de uma só vez.

De repente, ela achou tudo extremamente ridículo.

— Enfim. — A voz de Ricardo tornou-se um pouco mais tranquila, como se ele fosse um professor explicando uma lição à aluna. — Seu comportamento imprudente de ontem afetou seriamente a reputação e o estado emocional de Antonela. O médico disse que ela está com um grave transtorno de estresse e apresenta tendências depressivas. Você precisa ir comigo ao hospital para pedir desculpas a ela. Depois, também precisa ir até a casa da família Neves para se desculpar e esclarecer tudo.

— Ricardo, eu não vou pedir desculpas a uma amante. — Heloísa finalmente não conseguiu conter o riso.

— Que história é essa de amante?! — As sobrancelhas de Ricardo se franziram novamente. — Já disseram que Antonela foi obrigada pelas circunstâncias. Ela é inocente...

— Inocente? — Heloísa interrompeu Ricardo. — Se ela é inocente, como a empresa de organização do casamento conseguiu ligar para o meu celular? Ricardo, por acaso, eu sou idiota ou você está fingindo? Ela sabia muito bem que você era casado e, mesmo assim, escolheu ser a amante. Ela se entregou à degradação por vontade própria!

— Heloísa! — Ricardo finalmente perdeu a paciência. A expressão normalmente indiferente em seu rosto foi tomada pela raiva, e suas palavras seguintes foram ainda mais cruéis. — Antes de dizer que alguém se entregou à degradação, olhe para você mesma! Pense em como, naquela época, você também se entregou à degradação e armou tudo para ir para a cama comigo!

De repente, um estalo alto de uma bofetada ecoou por toda a cozinha.

Heloísa havia usado toda a sua força. O rosto de Ricardo foi virado para o lado pelo golpe.

Tudo aconteceu em um piscar de olhos. Ricardo não teve tempo de se preparar. Furioso, mas também completamente incrédulo, virou-se para olhar para Heloísa.

Aquela mulher realmente tinha ousado bater nele?

Heloísa recolheu a mão trêmula. Naquele momento, seu corpo inteiro tremia.

Então, aquela noite de sete anos atrás sempre foi um espinho cravado no coração de Ricardo. Mesmo depois de ela ter explicado inúmeras vezes que aquele acontecimento tinha sido fruto de um mal-entendido e que ela não tinha armado nada. Mesmo depois de Ricardo ter dito que não queria mais falar sobre o passado.

Na verdade, aquele homem nunca acreditou nela! No coração dele, ela sempre foi uma mulher má que, para se casar com ele, não hesitou em recorrer a artimanhas e jogos sujos.

Por isso, durante aqueles sete anos de casamento, sua frieza, seu distanciamento, sua tolerância e seu autocontrole tinham uma razão.

Naquele momento, Heloísa estava cansada. Cansada como nunca esteve antes.

Ricardo endireitou a cabeça. Seus dedos longos e bonitos tocaram delicadamente o canto dos lábios, limpando-o. Ao olhar para Heloísa novamente, seus olhos estavam ainda mais frios.

— Heloísa, vou te dar duas opções. Ou você pede desculpas a Antonela e depois vai até a casa da família Neves esclarecer tudo. Ou... — O homem fez uma pausa, mas ainda assim pronunciou aquelas duas palavras. — Nos divorciamos.

— Está bem. — Heloísa respondeu quase imediatamente, sem hesitar sequer por um segundo.

A expressão nos olhos de Ricardo suavizou-se um pouco. Ele pensou que Heloísa tivesse cedido. Afinal, ela havia demorado tanto para conseguir se tornar sua esposa. De qualquer maneira, seria impossível que ela realmente quisesse se divorciar dele.

— Então se prepare. Nós vamos...

— Divórcio! — Heloísa interrompeu Ricardo e afirmou com determinação a escolha que tinha feito.

A expressão de Ricardo ficou congelada por alguns segundos, como se não tivesse certeza do que tinha ouvido.

— O que você disse?

— Eu disse: divórcio! — Heloísa repetiu, com o coração tomado pela tristeza.

Ela já havia falado em divórcio no casamento absurdo do dia anterior. Pelo visto, Ricardo realmente não se importava nem um pouco com ela. A ponto de nem sequer se lembrar do que ela havia dito.

Percebendo que a situação poderia ficar ainda pior e acabar completamente fora de controle, Suzana correu até eles com as marmitas de comida.

— Senhor, já embalei tudo. Leve para a Srta. Antonela enquanto ainda está quente. Vai ficar ruim se esfriar.

— Vou te dar algum tempo para pensar. Heloísa, não vou tolerar que você continue sendo teimosa. — Ricardo pegou as marmitas e lançou um olhar frio para Heloísa.

Depois disso, saiu de casa levando as marmitas, envolto por uma frieza constante.

Suzana o acompanhou até a saída.

Assim que voltou, começou a reclamar com Heloísa.

— Senhora, não seja tão teimosa. Faça o que o Sr. Ricardo está dizendo e peça desculpas à Srta. Antonela. Depois disso, o assunto estará encerrado. A Srta. Antonela é realmente uma pessoa muito boa. Você realmente não deveria...

Heloísa lançou um olhar frio para Suzana e saiu da cozinha.

Suzana permaneceu parada no lugar. O olhar que tinha recebido realmente a assustou. Era um lado de Heloísa que ela nunca havia visto antes.

Ao voltar para o quarto, Heloísa viu as duas malas que já havia arrumado.

Precisava encontrar rapidamente um lugar para ficar. Só assim poderia sair daquela casa o quanto antes.

Naquela manhã, tinha combinado com Benício de visitar o professor juntos. Como o horário já estava se aproximando, Heloísa se obrigou a recuperar o ânimo, tomou um banho rápido, vestiu qualquer roupa e saiu de casa.

No primeiro andar, encontrou Suzana. Ela tentou se aproximar para falar com Heloísa, mas Heloísa simplesmente a ignorou, sem sequer lhe lançar um olhar.

Seguindo o endereço que Benício lhe tinha dado, Heloísa chegou ao centro de repouso onde o professor Péricles Garcia estava hospedado.

O centro de repouso ficava atrás do Hospital Central de Vale Sereno e era uma instituição destinada exclusivamente ao atendimento de altos funcionários e especialistas de nível nacional.

Enquanto isso, em um quarto da ala de internação do Hospital Central, não muito distante dali, Antonela tinha acabado de comer e adormecido.

Ricardo ajeitou cuidadosamente o cobertor sobre ela. Olhando para o rosto pálido da jovem, sentiu-se profundamente culpado.

Nesse momento, alguém bateu à porta do quarto.

Era seu bom amigo e sócio, Pedro Almeida.

Temendo acordar Antonela, Ricardo saiu do quarto silenciosamente.

No corredor do lado de fora, Pedro olhou para o rosto cansado de Ricardo.

— Vim falar com você de novo sobre os assuntos da empresa. — Ao pensar no problema que a empresa enfrentava naquele momento, a expressão de Pedro se tornou séria. — Estamos presos há mais de seis meses por causa dos componentes do giroscópio quântico. Já tentamos todas as empresas e institutos de pesquisa nacionais e estrangeiros que conseguimos encontrar, mas a precisão simplesmente não é suficiente. Precisamos pensar em alguma solução o quanto antes. Não podemos continuar adiando.

O sistema de navegação quântica era o principal produto da empresa de tecnologia de Ricardo. Setenta por cento dos lucros da empresa vinham daquele produto.

Também era graças àquela tecnologia que Ricardo tinha conseguido conquistar seu espaço no setor tecnológico do país.

Mas, para fabricar aquele produto, era indispensável um giroscópio quântico.

Anteriormente, o instituto de pesquisa de Dervânia, com o qual Ricardo trabalhava, tinha sofrido uma mudança repentina, e todos os dados e materiais de pesquisa haviam sido destruídos.

O giroscópio produzido novamente depois disso já não conseguia alcançar a precisão de antes.

Agora que os estoques estavam quase esgotados, se Ricardo não encontrasse rapidamente um giroscópio substituto, tanto sua reputação pessoal quanto sua empresa sofreriam um golpe de proporções incalculáveis.

— Agora só nos resta um caminho. — Ricardo olhou para Pedro ao seu lado. — O instituto de pesquisa do Sr. Péricles.

— Sr. Péricles? — Pedro obviamente conhecia aquela figura de enorme prestígio no meio acadêmico. — Mas ouvi dizer que ele não está bem de saúde e que já se aposentou.

— Exatamente. — Ricardo assentiu. — Agora quem está à frente do instituto é o Dr. Benício, um dos alunos dele. O Dr. Benício disse que o giroscópio de cristal quântico desenvolvido pelo centro de pesquisa deles provavelmente pode ser compatível com o nosso sistema. Mas, quanto aos parâmetros específicos, apenas o Sr. Péricles e a pessoa que fundou o projeto têm pleno conhecimento.

— Mas o Sr. Péricles nem aparece mais em público, não é?

Ricardo assentiu, sua voz ficando mais sombria.

— Por isso, o Dr. Benício concordou em tentar entrar em contato com a fundadora. Só que, até agora, essa pessoa não respondeu.

— Quem é essa pessoa? Tão importante assim? — Pedro franziu a testa, ansioso.

Afinal, bastaria que aquela fundadora aparecesse para que a crise da empresa fosse resolvida.

— Não sei. — Ricardo balançou a cabeça. — Nunca apareceu publicamente. Só sei que foi a aluna favorita do Sr. Péricles e que possui um talento extraordinário. — Ricardo olhou pela janela para o céu azul e disse com firmeza. — Não importa qual método seja necessário, precisamos entrar em contato com essa pessoa. Contanto que aceite trabalhar conosco, pode exigir as condições que quiser.

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