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Capítulo 4

作者: Bolso Estrela
Quando Heloísa voltou para casa, em Vale Sereno, já era meia-noite.

Na enorme mansão, apenas a luz com sensor da entrada permanecia acesa. Fora isso, tudo estava mergulhado na escuridão. Não havia sequer uma luz acesa.

Depois de sete anos casada com Ricardo, ela continuava incapaz de se integrar à família Guimarães. Não havia uma única pessoa ali que realmente a tivesse aceitado de coração.

Antes, ela conseguia ignorar a frieza da família Guimarães. Chegava até mesmo a tomar a iniciativa de agradá-los e bajulá-los, apenas para evitar colocar Ricardo numa situação difícil.

Ela achava que ter uma pequena família própria era suficiente. Tendo um marido e um filho, pelo menos não seria alguém sem lar.

Mas, no fim, tudo não passava de uma ilusão.

Heloísa não acendeu as luzes. No escuro, voltou para o quarto que dividia com Ricardo.

Diziam que era o quarto dos dois, mas, na realidade, ao longo daqueles sete anos, as ocasiões em que ela e Ricardo haviam dormido juntos eram extremamente raras.

Na maior parte do tempo, Ricardo dormia no escritório ou no quarto de hóspedes ao lado.

Durante muito tempo, Heloísa acreditou que Ricardo era como um monge frio e reservado: sereno, controlado e pouco interessado em desejos carnais. Um homem que dedicava toda a sua energia à pesquisa científica, à educação e aos negócios da empresa.

Foi também por isso que, aos vinte e seis anos, ele já havia conquistado o título de professor associado, além de possuir seu próprio laboratório particular e sua própria empresa.

Agora, aos trinta e três, Ricardo já tinha conquistado certa influência no campo científico. A empresa havia se expandido várias vezes, tornando-o um dos jovens empresários mais proeminentes do país.

Naquele ano, ele ainda tinha grandes chances de ser promovido a professor titular.

Mas, agora, olhando para tudo aquilo, Heloísa percebeu que Ricardo só era frio, controlado e pouco interessado em desejos quando se tratava dela.

Naquele instante, sentiu que aqueles sete anos de sua vida haviam se tornado uma piada.

Pegou o celular e seu dedo permaneceu por alguns instantes sobre o número do Benício, antes de discar.

Depois de alguns toques, a chamada foi atendida.

— Helô, está ligando tão tarde. Quer dizer que já tomou sua decisão? — A voz do outro lado estava cansada, mas não conseguia esconder a empolgação.

— Sim. Eu decidi. — Heloísa fechou os olhos e ficou em silêncio por alguns segundos. Naqueles poucos segundos, pensou em muitas coisas. Quando abriu os olhos novamente, já não havia emoções neles. — Eu aceito. Vou voltar para o instituto de pesquisa.

— Haha! Ótimo! Ótimo! — Benício havia perdido completamente o cansaço de antes. — Só de ouvir você dizer isso, já consigo aguentar mais duas noites em claro!

Heloísa apertou os lábios, sentindo algo indescritível.

— Vou contar a novidade ao professor agora mesmo. Ele certamente ficará muito feliz. Talvez até se cure da doença!

— Calma, já está muito tarde. Amanhã vou visitar o professor e conto pessoalmente. — Heloísa o interrompeu às pressas.

— Está bem, está bem. — Benício fez uma pausa e disse. — Viu só? Fiquei empolgado demais. Amanhã você encontra o professor e conta pessoalmente a boa notícia.

Então, como se tivesse se lembrado de alguma coisa, continuou.

— A propósito, recentemente, uma empresa de tecnologia entrou em contato comigo. Eles querem que o nosso instituto forneça suporte técnico para os componentes de um giroscópio de cristal quântico. Essa tecnologia foi desenvolvida por você. Os parâmetros, a precisão e a parte técnica só podem ser controlados por você. Por isso, não aceitei. Mas eles parecem estar muito interessados, como se isso estivesse relacionado à sobrevivência da empresa. Então... o que acha? Quer conhecê-los?

Heloísa ainda nem havia retornado oficialmente ao instituto e sequer tinha começado a trabalhar de fato. Além disso, depois de tantos anos afastada, era impossível saber se conseguiria se adaptar a tudo novamente.

— Por enquanto, é melhor não. Podemos falar disso depois.

— Está bem. Faremos como você quiser. — Benício concordou sorrindo. Então soltou um longo suspiro e disse com um tom sincero. — Helô, já se passaram sete anos. Fico muito feliz que você tenha chegado a essa conclusão. De qualquer forma, seja bem-vinda de volta!

— Sim. — Heloísa respondeu com indiferença, sentindo um nó na garganta, uma sensação amarga e dolorosa.

Depois de desligar, Heloísa sentou-se na cama e ficou olhando para o quarto, sem expressão.

Naquele quarto, praticamente não havia nada que pertencesse a Ricardo.

Desde que se casou com ele, ela nem sequer teve uma festa de casamento. Muito menos uma foto de casamento.

De repente, Heloísa sentiu que aquele casamento não tinha sentido. Afinal, Ricardo não era sua salvação.

Ela respirou fundo. Por fim, tomou sua decisão.

Levantou-se, foi até o closet, pegou sua mala e começou a guardar seus pertences.

Ela iria se divorciar de Ricardo e sair daquela casa.

Durante todo o processo, não derramou uma única lágrima. Porque, certa vez, alguém lhe disse que lágrimas não podiam resolver problema algum.

Heloísa terminou de arrumar as malas já de madrugada.

Quando acordou no dia seguinte, o céu já estava completamente claro.

Todas as manhãs, ela costumava se levantar cedo e preparar pessoalmente um café da manhã nutritivo para Ricardo e Ravi. Mas, na noite anterior, nenhum dos dois havia voltado.

Ao pensar no filho, Ravi, a única pessoa no mundo com quem compartilhava laços de sangue, o coração de Heloísa voltou a doer intensamente.

Ela não conseguia esquecer a cena do casamento. Em como Ravi havia se colocado à frente de Antonela como um pequeno filhote, protegendo-a e expulsando Heloísa dali com todas as forças, de maneira tão determinada.

Naquele momento, o laço de sangue que os unia pareceu se romper.

Aos olhos de Ravi, ela não era sua mãe. Era apenas a pessoa má que havia "maltratado" sua tia Nela.

Na cozinha, a babá Suzana estava ocupadíssima preparando comida e não percebeu a chegada de Heloísa.

— Suzana, o que você está fazendo? — Heloísa perguntou curiosa, olhando para o fogão.

Normalmente, era ela quem preparava o café da manhã. Suzana geralmente não aparecia na cozinha naquele horário.

Ao ouvir de repente a voz de Heloísa, Suzana levou um susto, deixando a espátula que segurava cair no chão, produzindo um som estridente.

— Sra. Heloísa... você voltou! Eu pensei que não estivesse em casa. — Suzana parecia envergonhada.

— Sim. Quando voltei ontem, você já estava dormindo. — Heloísa não deu muita importância ao comportamento estranho de Suzana e foi diretamente até o fogão.

Foi então que percebeu que Suzana não apenas havia preparado uma sopa, como também tinha feito uma refeição nutritiva e extremamente farta.

Quando Heloísa se casou, não sabia cozinhar absolutamente nada.

Para conseguir se integrar à família Guimarães o mais rápido possível, contratou Suzana, uma babá de primeira linha, a um custo altíssimo.

Suzana era bilíngue e possuía não apenas certificado de cozinheira e de nutricionista, mas também de cuidadora pós-parto.

Mais tarde, Heloísa aprendeu a cozinhar seguindo os ensinamentos de Suzana.

Suzana realmente a havia ajudado muito.

Ao longo daqueles sete anos, Heloísa já a considerava parte da família.

Naquela mesma noite, ela chegou a pensar se deveria levar Suzana consigo quando se divorciasse de Ricardo.

— Suzana, por que você fez tudo isso tão cedo? — Heloísa perguntou.

Suzana ficou hesitante. Diante do olhar confuso de Heloísa, acabou dizendo a verdade:

— Foi o Sr. Ricardo quem me pediu para fazer. Ele disse que voltaria daqui a pouco para buscar.

— Ricardo pediu para você fazer? — Heloísa ficou surpresa.

— Sim. — Suzana assentiu.

— O Sr. Ricardo disse que a Srta. Antonela está internada. O médico falou que ela ficou assim por causa de desnutrição e precisa comer mais coisas nutritivas.

Heloísa captou imediatamente a informação nas palavras de Suzana.

— Srta. Antonela? Suzana, você também conhece a Antonela?

Suzana entrou em pânico por um instante. Só então percebeu que havia falado demais.

— Sim, conheço. — Mesmo assim, assentiu. — A Srta. Antonela é uma pessoa muito boa. Ela sempre me traz especialidades da cidade natal dela.

Heloísa sorriu.

— Então Antonela vem frequentemente à nossa casa e eu não sabia de nada? — Seu tom estava carregado de sarcasmo. — Suzana, afinal, para quem você trabalha?

— Senhora, eu trabalho para você. — O rosto de Suzana ficou tenso, mas ela continuou. — Mas também trabalho para o Sr. Ricardo! Além disso, a Srta. Antonela é realmente uma pessoa muito boa. Sempre que vem, ela também me ajuda com o trabalho. Eu não contei porque tinha medo de que a senhora interpretasse mal a relação dela com o senhor. A Srta. Antonela...

— Chega! — Heloísa não queria mais ouvir o nome de Antonela.

Ela olhou para Suzana por um longo tempo, incapaz de dizer qualquer coisa. Sentia apenas que o enorme buraco aberto em seu coração havia se espalhado ainda mais.

Foi então que o som de um carro estacionando veio do lado de fora da residência.

Logo depois, Ricardo entrou pela porta da frente.

— Suzana, a comida que pedi para preparar para Antonela já está pronta? Aquela garota está muito fraca. Não quer comer nada e só quer a comida que você faz... — Ricardo foi falando enquanto caminhava até a cozinha, no entanto, ao ver Heloísa, seus passos pararam.

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