LOGINPOV Serena
Adormeci no sofá. Acordo toda desajeitada, com o pescoço dolorido. Olho para o relógio. Pulo. Estamos atrasadas. Corro até o quarto. — Olívia! Acorda, meu amor, já estamos atrasadas! Ela se vira na cama, resmungando. — Novidade, mamãe… Assim que entra no banheiro, corro para a cozinha preparar algo rápido para o café. A campainha toca. Franzo a testa. Aurora perdeu a chave de novo? Corro até a porta e abro sem pensar. Um homem alto, bem vestido, postura rígida. Ele me encara sério. — Pois não? — pergunto, tentando parecer firme. — Senhorita Serena Bennet? Engulo seco. — Sim… — Sou chefe de segurança da mansão Valmont. Sua presença foi solicitada. Meu estômago afunda. — Eu não conheço ninguém dessa mansão. Com licença. Fecho a porta com força. Meu coração dispara. E se for coisa do Oliver? Ele estava estranho ontem. E se for ameaça? Sequestro? A campainha toca de novo. E de novo. — Vai embora ou eu chamo a polícia! — grito. Olívia aparece na sala, assustada. — É ladrão, mamãe? — Filha, corre para o quarto e fecha a porta. Agora! Silêncio. Respiro fundo, aliviada. Mas só por um segundo. Porque então eu ouço aquela voz. Firme. Grave. Controlada. — Senhorita Serena, se acalme. Sou eu. Enzo. Meu coração erra a batida. O que ele está fazendo aqui? Abro a porta devagar. E o vejo. Impecável em um terno escuro. Óculos de sol. Confiante. O perfume dele invade o ar. Poderoso. O olhar dele percorre meu corpo — e eu lembro que estou de pijama. Nada glamouroso. — Bom dia — ele diz. — Peço desculpas. Meu segurança não deveria ter insistido. Faço um gesto para que entre. Ele entra. Fecho a porta e fico parada, sem saber como agir. E então Olívia surge correndo do quarto, segurando um cabo de vassoura. — Mamãe! Eu vou te salvar desse ladrão! — Olívia! Mas ela já está na frente dele. Enzo arregala levemente os olhos. — Senhorita… acho que não sou ladrão. — Filha, solta isso. Ele não é ladrão. Ela o observa por alguns segundos. Como se estivesse analisando. Então solta o cabo. — Mamãe… ele parece um príncipe dos contos que você me conta. — Olívia! Enzo segura o riso. Ajoelha-se na altura dela. — E você parece uma guerreira. Como a Moana. Eu o encaro surpresa. Ele sabe quem é Moana? Olívia sorri e segura a mão dele. — Prazer, príncipe. Meu coração faz algo estranho no peito. — Agora termina de se arrumar para a escola — digo, tentando recuperar o controle. — Tchau, príncipe! — ela grita, correndo para o quarto. Enzo se levanta devagar. Olha para mim. — Ela puxou alguém. — Com certeza não foi de mim — respondo, cruzando os braços. Sorrimos por um segundo. Ele coloca as mãos nos bolsos. — Vim pessoalmente oferecer a vaga de babá do Joseph. Ele gostou muito de você. Meu coração acelera. — Mas eu nem fiz a entrevista. — Não será necessário. O que importa é que meu sobrinho confie em você. O tom dele muda. Fica mais sério. — Joseph passou por coisas difíceis nos últimos meses. — Eu percebi. Ele me observa com atenção. Como se tentasse decifrar o que eu quis dizer. — Você teria algum problema em trabalhar na mansão? Respiro fundo. — Minha única preocupação é a Olívia. — Leve-a com você. A casa é grande. E posso colocá-la no mesmo colégio que Joseph. Meu mundo parece inclinar. Isso mudaria tudo. — Eu pagarei seus direitos. Um bom salário. E a escola da sua filha estará garantida. Ele dá um passo mais perto. — Só preciso que aceite. Mordo o lábio, pensativa. Percebo o olhar dele parar ali. Meu corpo reage. Esse homem é um perigo. Mas seria apenas meu chefe. A porta se abre de repente. Aurora entra rindo. — Serena! Tem um cartão preso na nossa porta, eu tirei mil fotos pra postar— Ela vê Enzo. As coisas caem da mão dela. — Puta merda! — Aurora! Enzo segura o riso. — Já estou indo. Pense na proposta. Se aceitar, te espero amanhã na mansão. Ele passa por Aurora e sai. A porta fecha. Aurora corre até mim, quase pulando. — Seja lá o que esse Deus grego te propôs, a resposta é sim. Amante, sugar daddy, qualquer coisa! — Para de ser maluca! É a vaga de babá. Ela arregala os olhos. — Prima… você vai virar Cinderela. Me jogo no sofá. — Eu nem aceitei ainda. Ela cruza os braços. — Aceitou sim. Essa é a oportunidade da sua vida. Olho para o teto. Oportunidade da minha vida? Ou o começo do maior erro que posso cometer? POV Enzo Entro no carro. Respiro fundo. Aquela mulher é um caos. E a família dela também. Passo a mão pelo rosto. Será que fiz certo trazendo tudo isso para dentro da minha casa? Engulo seco. — Estou seguindo seu conselho, Luna… Sorrio involuntariamente. Coloco o cinto. Dou partida. E sigo em direção à mansão. Horas mais tarde… Peter e eu estamos há horas em reunião com os europeus. Números. Contratos. Estratégias. Mas minha mente não está ali. Peço licença. Levanto. Vou até a janela do escritório. O sol está se pondo. Laranja. Intenso. Vivo. Meu coração acelera. Lembro da Luna. Das palavras dela. "Arrisque. Tire os pés do chão." Hoje eu arrisquei. Fui atrás de uma mulher que mal conheço. Por quê? Meses atrás, ela seria descartada na primeira análise. Sem perfil. Sem currículo forte. Sem indicação. E ainda assim… Eu a escolhi sem pensar duas vezes. Aqueles olhos sinceros. Aquela boca… Fecho os olhos por um segundo. Meu Deus. O que está acontecendo comigo? Pego o celular. Tiro uma foto do pôr do sol. Envio para Luna. Escrevo: Já quis ser o sol? Poder renascer todos os dias? Guardo o celular no bolso. Volto para a mesa. Minutos depois, ele vibra. Leio a resposta: Prefiro ser a lua. Aparece em algumas noites… e em todas, uma chance de ser especial e única. Solto o ar devagar. Ela me desmonta com poucas palavras. Outra notificação. Uma foto. Céu escuro. Estrelado. Respondo imediatamente: Ia perguntar onde está a lua na foto… mas acho que a intenção foi outra. Hoje nem temos lua. Ela responde quase na mesma hora: A sua Lua hoje sou eu. Estamos olhando para o mesmo céu, Iron. Meu coração dispara. Minha boca seca. Iron. Essa mulher… Essa mulher vai ser minha. Peter limpa a garganta. Percebo que a reunião já acabou. Todos estão saindo. — Enzo… você nem finalizou a reunião. Passo a mão pelo cabelo. — Peter… é impossível descobrir quem está do outro lado naquele aplicativo? Ele me encara incrédulo. — Você ainda está nisso? — Responde. Ele suspira. — Só se a pessoa quiser ser encontrada. E, pelo visto… essa não quer. Coloco o celular na mesa. — Eu vou enlouquecer. Quero descobrir quem ela é… mas, ao mesmo tempo, não quero. Isso está me consumindo. Peter segura o riso. — Se apaixonou? Estreito os olhos. — Cala a boca. Você é o culpado por ter me indicado esse aplicativo. Ele me entrega um copo de uísque. — Você disse que nunca mais ia amar. Tomo um gole. O líquido queima na garganta. — E não vou. Isso não é amor. Olho novamente para o céu pela janela. Escuro. Estrelado. Igual à foto. — Deve ser só desejo. Mistério. Ego. Peter cruza os braços. — E a babá? Respiro fundo. — Acho que amanhã ela vem. — Outro problema? — Outro problema. Ele ri. — Não disse que ela era a solução? Aperto o copo entre os dedos. — Ela é um caos ambulante. Faço uma pausa. — Mas, por algum motivo… eu quero esse caos perto de mim. Peter sorri de lado. — Ela é linda. Talvez seja isso. Solto uma gargalhada curta. — Não é sobre a beleza dela. Penso por um segundo. — É a personalidade. A força. O jeito que ela me enfrenta. Peter se aproxima. — Vai se apaixonar por duas mulheres ao mesmo tempo, meu caro. Engulo seco. Olho para o céu mais uma vez. — Eu não posso. Minha voz sai mais baixa. — E não vou. Mas, pela primeira vez em muito tempo… Eu não tenho certeza disso.POV. EnzoO mundo gira.Minha cabeça… explode.Tudo fica confuso.Pesado.Irreal.Olho pro meu pai.Esperando.Implorando.— Pai… fala que isso é mentira…Ele não me encara.Não nega.Só… respira fundo.E isso é pior que qualquer resposta.Henrique sorri.Satisfeito.— Ele não vai dizer que é mentira… — diz, debochado. — Porque é verdade, Enzo. Seu pai e a Hilda tiveram um caso… quando você e a Jessy ainda eram crianças.Jessy leva as mãos à cabeça.Começa a chorar.Desesperada.— Pai… que tipo de pessoa faz isso?! — ela grita.Mas Henrique não olha pra ela.Meu pai perde o controle.Avança.Agarra o roupão dele.— Desgraçado! — rosna. — Fala tudo! Fala que você sumiu com ela… e com o filho que ela carregava!Meu coração para.Filho?Henrique ri.Como se fosse tudo um jogo.Jessy encara ele.Quebrada.— Eu não aguento mais… — ela sussurra.Vou até ela.Abraço.Mas eu mesmo…já estou despedaçado.Henrique se solta.Se ajeita.E fala.Frio.Sem culpa.— Eu fiz isso mesmo… — ele diz. — S
POV. SerenaHoras mais tarde…Sento na poltrona do quarto.Com uma xícara de chá nas mãos.O vapor sobe devagar.Mas por dentro…eu estou longe de estar calma.O medo do que vem pela frente me consome.Mas, ao mesmo tempo…eu só quero que tudo isso acabe.Logo.Levo a mão até minha barriga.Aliso com carinho.Um sorriso surge, mesmo em meio ao caos.— Eu tenho certeza que você é uma menininha linda… — sussurro. — Seu papai vai te amar muito.Meu celular toca.Meu coração dispara na hora.Enzo.Atendo rápido.— Meu amor… esqueceu que não pode ligar assim?A voz dele vem firme.Mas diferente.— Não importa mais. Tudo isso tá perto do fim, minha princesa.Meu coração acelera.— É sério? Achou o pendrive?— Ainda não… — ele responde — mas temos outras cartas agora. Depois eu te explico.Pausa.A voz dele suaviza.— Como você tá? E nosso filho? E a Olívia?Solto uma risadinha.— Calma, senhor… estamos bem. E morrendo de saudade do papai.Ele respira do outro lado.Pesado.— Eu não vejo a h
POV. EnzoChego em casa com o coração leve.Não.Leve não.Explodindo.Eu vou ser pai.Vou ter minha família.Mas não posso demonstrar nada.Ainda não.Transformo tudo isso em força.Porque agora…eu tenho um motivo muito maior pra acabar com essa guerra.…Peter estaciona logo atrás.Desce do carro sorrindo.— Bom dia, meu amigo!— Bom dia.Entramos juntos.E logo damos de cara com meu pai, sentado no hall, tomando café como se nada estivesse acontecendo.Ele nos observa.Analítico.— A noite dos dois foi boa?Eu e Peter trocamos um olhar.Seguramos o riso.— Se foi boa ou não — ele continua — vocês podem me dizer se acharam o pendrive?O clima muda na hora.Olho sério pra ele.— Pai… tem que ter outro jeito de acabar com o Henrique. A gente não achou nada.Peter reforça:— É verdade, tio Lorenzo… tem outro caminho?Meu pai suspira.Pesado.— Vocês acham que estão lidando com o quê? — ele diz, frio. — Isso é máfia. Não existe “outro jeito”.Antes que eu responda—a porta se abre com
POV. EnzoEu nunca senti algo assim.Nunca.É como se tudo dentro de mim tivesse mudado…no mesmo instante.Meu maior sonho.Se tornando real.Eu sempre quis isso.Uma família.Um lar.Alguém pra chamar de meu… pra sempre.E quando terminei com a Jessy anos atrás…eu achei que esse sonho tinha morrido ali.Mas a vida…tem um jeito estranho de surpreender.A mulher da minha vida.O meu grande amor.Carregando um filho meu.Nosso filho.Abraço a Serena com força.E eu não me seguro.Choro.Sem vergonha.Sem filtro.Deixo ela sentir tudo.— Você acha que eu não iria querer um filho nosso? — digo, com a voz falha. — Isso… isso é o maior sonho da minha vida.Ela me olha, ainda insegura.— Enzo… mas olha a situação que estamos vivendo…Seguro o rosto dela.Firme.— Isso só me dá mais motivo pra acabar com tudo isso… e rápido.Ela se afasta um pouco.Vai até o sofá.Senta.Eu vou atrás.— Ninguém pode saber… — ela diz, mais séria agora. — Se descobrirem, a gente vira alvo.Assinto.Sem hesit
POV. EnzoA mensagem da Serena não sai da minha cabeça.“Iron… é importante.”Tem algo errado.Eu sinto.Mas hoje…não dá pra ir até ela.Aqui em casa virou um caos.Meus pais…a tensão…e ainda esse maldito pendrive que simplesmente sumiu.Passo a mão no rosto, frustrado.— Vamos continuar procurando — digo para Peter.Estamos na casa da árvore.Revirando tudo.De novo.Cada canto.Cada lembrança.Nada.— Isso não faz sentido, Enzo… — Peter murmura.Antes que eu responda—um grito.Vindo da mansão.Congelo.— Você ouviu isso?— Ouvi.Não pensamos.Saímos correndo.…Entramos na sala quase ao mesmo tempo.E a cena—me faz parar.Jessy.Parada no meio da sala.Pálida.Assustada.E, à frente dela…meu pai.Sentado no sofá.Tomando uísque.Como se nada estivesse acontecendo.Como se estivesse assistindo a um espetáculo.— Enzo… — Jessy diz, com a voz falhando. — O que… o que seu pai tá fazendo aqui? Ele morreu!Peter solta uma risada baixa, incrédulo.— Jessy… respira.Me aproximo devaga
POV. EnzoAlguns dias depois…Os últimos dias têm sido uma tortura.Hoje fazem quinze dias…quinze dias desde a última vez que vi a Serena.Desde aquela tarde.Desde o único momento em que conseguimos ser… nós.Agora?Estamos nos evitando.Forçados a isso.Jessy e Oliver estão nos vigiando o tempo todo.Eles ainda não acreditam.Sabem que tem algo errado.E isso… é perigoso.…Peter e Aurora já sabem de tudo.Não tivemos escolha.Precisávamos de ajuda.Mesmo assim… quanto mais gente envolvida, maior o risco.…Naquele mesmo dia em que estive com a Serena…voltei à casa da árvore.Revirei tudo.Cada canto.Cada lembrança.E não encontrei nada.Nada.O desespero só aumenta.Porque eu simplesmente não faço ideia do que fiz com aquele baú.O baú que meu pai confiou a mim.Quando eu ainda era só uma criança.…E falando nele…hoje ele volta.Decidiu parar de se esconder.Decidiu enfrentar Henrique.De uma vez por todas.Mas o que mais me preocupa…não é isso.É a minha mãe.Ela não sabe de







