LOGINSebastian estaciona o carro próximo ao portão da faculdade e desliga o motor. O silêncio que toma conta do interior do veículo parece absurdamente mais intenso agora.
Quente. Perigoso. Consigo ouvir minha própria respiração. Minhas mãos ainda tremem discretamente por tudo o que aconteceu no ateliê. — Obrigada por hoje — digo em voz baixa, tentando soar mais tranquila do que realmente estou. — Você me ajudou a pensar em algumas ideias para o quadro. Viro o rosto em sua direção. E imediatamente me arrependo. Porque Sebastian já está olhando para mim. A iluminação fraca dentro do carro faz seus olhos parecerem ainda mais escuros. Mais intensos. Como se existisse fogo escondido dentro deles. Meu coração dispara violentamente. Mordo o lábio inferior sem perceber. E vejo o olhar dele descer imediatamente até minha boca. A forma como Sebastian me encara naquele instante faz meu corpo inteiro arrepiar. Existe desejo naquele olhar. Muito. Os olhos dele permanecem presos nos meus lábios por tempo demais antes de ele finalmente sussurrar: — Não faz isso. Minha respiração falha. — Por quê? — devolvo no mesmo tom baixo, surpresa pela coragem repentina surgindo dentro de mim. Sebastian ergue lentamente a mão até meu rosto. Os dedos deslizam suavemente pela minha bochecha, quentes demais contra minha pele fria. O toque é delicado. Mas a intensidade dele me desmonta completamente. — Porque… — ele murmura roucamente — se continuar assim, eu não vou conseguir me controlar. O ar fica pesado dentro daquele carro. Meu coração b**e tão forte que chega a doer. Então passo a língua devagar pelos lábios. Um movimento pequeno. Mas que parece um convite silencioso. E Sebastian perde o controle. Os lábios dele encontram os meus com intensidade imediata, arrancando completamente meu fôlego. O beijo é quente, profundo e carregado de tudo aquilo que nós dois tentamos ignorar desde o primeiro dia. Desejo. Tensão. Necessidade. Num impulso, Sebastian me ajuda a sair do banco do motorista e subir no colo dele, ali dentro do carro. Minhas mãos sobem automaticamente até os cabelos dele enquanto Sebastian segura minha cintura com firmeza, me puxando ainda mais para perto. O mundo inteiro desaparece. Só existe ele. O gosto do beijo dele. O calor do corpo dele. A forma como me beija como se estivesse tentando resistir e falhando ao mesmo tempo. Com uma coragem maior do que minha própria razão, saio do banco do passageiro e me acomodo sobre o colo dele. Sebastian solta um suspiro abafado contra meus lábios, as mãos apertando meu quadril enquanto continua me beijando intensamente. Ele é experiente. Consigo sentir isso em cada toque. Na segurança. Na forma como conduz o beijo. Na maneira como faz meu corpo reagir sem esforço algum. E eu… Sou apenas uma aluna completamente perdida no toque do próprio professor. Me movimento um pouco rápido demais tentando me aproximar ainda mais dele. Então a buzina dispara alta dentro do carro. O som nos atinge como um choque de realidade. Nós dois nos afastamos imediatamente, ofegantes. Sebastian pisca algumas vezes, como se estivesse despertando de um transe perigoso. Os olhos dele descem rapidamente para a posição em que estou sentada sobre ele. Então ele fecha os olhos por um breve segundo, claramente tentando recuperar o controle. Com cuidado, segura minha cintura e me ajuda a voltar para o banco do passageiro. O silêncio agora é diferente. Pesado. Quase doloroso. Sebastian passa a mão pelos cabelos antes de finalmente falar: — Acho melhor você voltar para o dormitório, Luana Simons. A forma como ele pronuncia meu nome dessa vez não tem provocação. Tem conflito. Desço do carro sem conseguir responder. O vento frio da noite atinge meu rosto imediatamente, mas não é suficiente para diminuir o calor ainda espalhado pelo meu corpo. Fecho a porta devagar. E enquanto caminho em direção ao dormitório, não sei o que dói mais. O fato de ele ter parado… Ou perceber o quanto eu queria que ele não tivesse parado. Entro no quarto tentando fazer o mínimo de barulho possível. A penumbra toma conta do ambiente, iluminado apenas pela luz fraca da cidade entrando pela janela. Fecho a porta devagar atrás de mim, tiro os sapatos e caminho lentamente até minha cama, ainda sentindo o coração descompassado dentro do peito. Tudo parece distante. Confuso. Quente demais. Troco de roupa rapidamente, quase no automático, e me jogo sobre a cama, encarando o teto escuro do quarto. Mas é impossível descansar. Porque Sebastian continua inteiro dentro da minha cabeça. Ainda consigo sentir a barba dele roçando minha bochecha de maneira deliciosa, áspera na medida certa para arrepiar minha pele inteira. Consigo lembrar perfeitamente das mãos grandes e firmes segurando minha cintura, me puxando para mais perto como se também estivesse perdido naquele momento. Fecho os olhos com força. Meu Deus. O beijo dele ainda parece vivo nos meus lábios. Mordo o lábio inferior lentamente, sentindo um arrepio percorrer meu corpo só de lembrar. É errado? Sim. Muito. Ele é meu professor. A pessoa que deveria manter distância. A pessoa que deveria ser proibida para mim. Mas, mesmo sabendo disso… Não consigo deixar de querer senti-lo outra vez. Querer aquele olhar intenso preso no meu. Querer suas mãos em mim novamente. Viro o rosto na direção da cama de Sara. Ela está completamente apagada, abraçada ao travesseiro de maneira dramática como sempre. Solto um pequeno suspiro. Porque, pela primeira vez em muito tempo… Sinto que estou prestes a me envolver em algo capaz de destruir completamente meu coração. ... Estou concentrada no meu desenho. Ou pelo menos tentando. O lápis desliza pelo papel apenas para, segundos depois, eu amassar a folha e jogá-la de lado junto das outras tentativas fracassadas espalhadas pela mesa. Nada parece certo. Nada parece intenso o suficiente. Já apaguei traços incontáveis vezes. Já comecei novos esboços até perder a paciência. Mas toda vez que tento colocar alguma ideia no papel… Sebastian Blackwood invade meus pensamentos. Os olhos dele. A voz rouca dizendo meu nome. O beijo. Meu Deus. Solto um suspiro frustrado e fecho o caderno com força antes que eu acabe rasgando mais uma folha. Ao redor, os alunos começam a se organizar em seus lugares conforme o horário da próxima aula se aproxima. A aula dele. E imediatamente meu estômago se contrai. Porque desde ontem à noite, eu não faço ideia de como Sebastian vai agir comigo. Como se nada tivesse acontecido? Distante? Arrependido? Meu coração aperta discretamente com esse último pensamento. A porta do auditório se abre. — Boa tarde a todos! — Sebastian cumprimenta ao entrar. Ergo os olhos automaticamente. E imediatamente percebo a diferença. Nas outras aulas, ele sempre entra com calma. Organiza os livros, ajeita os papéis na mesa, observa a turma antes de começar a falar. Hoje não. Hoje ele parece… inquieto. Tenso. Os movimentos estão mais rápidos, menos controlados. Ele mal olha para os alunos enquanto organiza algumas folhas sobre a mesa. Então percebo outra coisa. Sebastian evita olhar na minha direção. Meu peito aperta imediatamente. Observo discretamente enquanto ele começa a explicar o conteúdo da aula, caminhando pela sala como sempre faz. Mas toda vez que seus olhos percorrem os alunos… Eles desviam de mim. Como se me olhar fosse perigoso demais agora. Passo lentamente a mão pelos cabelos e desvio o olhar para qualquer ponto aleatório da sala, tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do meu peito. Porque, de alguma forma… A distância dele incomoda muito mais do que deveria. ... Eu deveria falar com ele? Ou fingir que nada aconteceu? A pergunta martela minha cabeça desde o instante em que saí daquele carro. Solto um suspiro cansado e apoio as costas no travesseiro, olhando para o caderno de desenho aberto sobre minhas pernas. O lápis permanece entre meus dedos, imóvel, enquanto a página em branco parece me provocar. Porque não importa o quanto eu tente pensar em outra coisa… Tudo me leva até Sebastian Blackwood. Até seus olhos escuros presos nos meus. Até a maneira como segurou minha cintura. Até aquele beijo intenso que ainda parece queimando nos meus lábios. Fecho os olhos por um instante. Meu Deus. Como eu deveria simplesmente ignorar algo assim? Passo os dedos lentamente pelo papel vazio do caderno. Talvez seja exatamente isso. Talvez minha arte precise nascer daquilo que estou sentindo agora. Confusão. Desejo. Medo. A sensação de querer algo que não posso ter. Me sento melhor na cama e volto a pegar o lápis, deixando a ponta tocar o papel devagar. E então a imagem surge naturalmente na minha mente. Duas pessoas. Próximas demais. Quase se beijando. Mas sem realmente se tocar. Como se existisse algo invisível impedindo aquele amor de acontecer por completo. Uma tensão silenciosa. Dolorosa. Intensa. Exatamente como eu e Sebastian. Meu coração acelera só de pensar nisso. Porque talvez o problema não seja apenas o beijo. Talvez o verdadeiro problema seja perceber que, pouco a pouco… Estou me apaixonando pelo homem errado.Nunca imaginei que aquele dia chegaria.Passei tantas noites acordada estudando, tantas tardes inteiras pintando até minhas mãos ficarem cobertas de tinta, tantas vezes achei que não conseguiria...E, ainda assim, ali estava eu.Vestida com a beca preta, segurando o capelo entre as mãos, observando centenas de cadeiras ocupadas por famílias orgulhosas.O grande auditório da universidade havia sido completamente decorado para a cerimônia de formatura.Arranjos de flores brancas enfeitavam o palco.O brasão da faculdade ocupava o centro da parede.Uma orquestra tocava músicas suaves enquanto os formandos encontravam seus lugares.Meu coração parecia não caber dentro do peito.Procuro discretamente pela plateia.Não demoro a encontrá-los.Meus pais estão sentados na primeira fileira.Minha mãe enxuga discretamente os olhos antes mesmo da cerimônia começar.Meu pai mantém um sorriso orgulhoso que parece impossível de esconder.Peter também está ali.Ao lado dele...Kezia.Assim que nossos
A sala está completamente tomada por caixas. Livros empilhados em um canto. Quadros cuidadosamente encostados contra a parede. Pincéis, telas, cadernos de desenho e potes de tinta ocupam praticamente todo o chão. Nunca imaginei que conseguiria acumular tantas coisas durante a faculdade. — Você tem certeza de que isso tudo era seu? — Sebastian pergunta, equilibrando uma caixa enorme nos braços. Cruzo os braços e finjo pensar. — Acho que ainda faltou alguma coisa. Ele arregala os olhos. — Faltou? Não consigo conter a risada. — Estou brincando. Sebastian solta um suspiro exagerado. — Ainda bem. Ele coloca a caixa no chão da antiga sala de pintura, que agora seria oficialmente meu ateliê. Paro na porta por alguns segundos. Aquele cômodo havia mudado bastante desde a primeira vez em que entrei ali. Sebastian mandou instalar prateleiras novas para guardar minhas tintas, um armário maior para os materiais, uma bancada ampla para preparar as telas e uma iluminação especial pr
Terminamos a sobremesa entre risadas e pequenas provocações. No fim, Sebastian estava certo. A sobremesa realmente era a melhor do cardápio. — Eu odeio admitir quando você tem razão. — Comento enquanto o garçom recolhe os pratos. — Ainda bem que isso acontece com frequência. Reviro os olhos. — Convencido. Ele sorri. — Um pouco. Pagamos a conta e saímos do restaurante. A noite está agradável. Uma brisa fresca balança meus cabelos enquanto caminhamos até o carro de mãos dadas. Entramos, e Sebastian liga o motor. Espero que ele pegue a estrada de volta para casa. Mas, novamente, ele segue na direção oposta. Olho para ele desconfiada. — Sebastian... — Hum? — Você errou o caminho. Ele sorri sem olhar para mim. — Não errei. Cruzo os braços. — Então para onde estamos indo? — Ainda tenho mais um lugar para te levar. Meu coração acelera. — Outro restaurante? Ele ri. — Não. — Então me dá uma dica. — Não. — Você está insuportável hoje. — Eu sei. Dou uma risada e de
Termino de me arrumar diante do espelho, alisando distraidamente o tecido do vestido. Faz tanto tempo que não saímos para um jantar de verdade que quase esqueci como era escolher uma roupa sem pensar em faculdade, provas ou pintura. Pego minha bolsa e saio do quarto. Sebastian já me espera na sala. Assim que me vê, seus olhos percorrem meu corpo lentamente. Ele abre um sorriso daqueles que fazem meu coração perder o ritmo. — Você está deslumbrante. Sinto minhas bochechas aquecerem. — Obrigada. Aproximo-me dele. Sebastian segura delicadamente minha mão e deposita um beijo em seus dedos. — Pronta? Assinto. Saímos de casa e seguimos até o carro. Durante alguns minutos, apenas observamos a cidade pela janela. As luzes dos postes começam a se acender, iluminando as ruas enquanto o movimento do fim da tarde diminui aos poucos. Encosto a cabeça no banco e olho para Sebastian. — Ainda acho estranho. Ele desvia rapidamente os olhos da estrada para mim. — O quê? Brinco com a
Meu coração parece querer escapar pela boca enquanto caminho pelos corredores da faculdade.O quadro está cuidadosamente embalado, apoiado sobre o carrinho que a universidade disponibilizou para a exposição. Ao meu redor, outros alunos conversam, riem e tentam esconder o nervosismo.Todos fingem tranquilidade.Mas basta olhar para seus rostos para perceber que ninguém realmente está calmo.A exposição acontece no grande ateliê da faculdade.As paredes brancas foram preparadas para receber os trabalhos finais dos alunos, e a luz direcionada valoriza cada pintura como se estivesse em uma verdadeira galeria de arte.Um a um, os quadros são posicionados.Dou um passo para trás depois de pendurar o meu.Respiro fundo.Ali estava ele.Meses de trabalho.Meses de dúvidas.Meses colocando minha alma sobre uma tela.Agora não havia mais nada que eu pudesse fazer.Apenas esperar.---Os professores entram alguns minutos depois.Minha orientadora está à frente do grupo, acompanhada por outros tr
Ouço a porta da frente se abrir, seguida pelo som abafado de passos pela casa. Meu coração sorri antes mesmo de vê-lo. Poucos segundos depois, Sebastian aparece na porta do ateliê com um sorriso tranquilo no rosto. Seu olhar encontra o meu imediatamente. — Está de volta. — Sorrio. Ele faz que sim com a cabeça enquanto apoia um dos ombros no batente da porta. — Estamos. Kezia mandou dizer que a cidade continua exatamente igual. — Ele ri baixinho antes de voltar sua atenção completamente para mim. — E então... já terminou ou ainda precisa de mais um tempo? Olho para o cavalete. Depois volto a encará-lo. Um sorriso orgulhoso se espalha pelo meu rosto. — Eu terminei. Meu coração acelera outra vez. — Vem ver. Sebastian caminha lentamente até a tela. Seu olhar percorre cada detalhe da pintura. Ele não diz absolutamente nada. Fica apenas observando. Em silêncio. Meu nervosismo cresce a cada segundo. Será que ele não gostou? Será que... Antes que eu consiga perguntar qual







