LOGINO contraste entre a minha realidade de poucas horas atrás e a atual parecia fruto de um delírio. A porta dupla de madeira nobre abriu-se para revelar a suíte presidencial do Hotel Santini, um espaço tão monumental e requintado que cheguei a hesitar no limiar da entrada, com medo de sujar o chão de mármore impecável com meus sapatos velhos.
Tudo ali exalava um luxo silencioso e avassalador: as janelas que iam do chão ao teto revelavam uma vista panorâmica de toda a cidade iluminada sob o céu noturno, os móveis de design elegante revestidos em tecidos nobres, o lustre de cristal refletindo luzes suaves e um closet gigantesco que já continha roupas novas dispostas em cabides, todas exatamente do meu tamanho. Na casa do meu pai, o mofo e o cheiro de bebida era constante no ar; ali, o ambiente cheirava a amadeirado, baunilha e sofisticação pura. Dois funcionários uniformizados deixaram minha pequena bolsa surrada sobre uma mesa lateral e se retiraram com reverências impecáveis, trancando a porta pesada ao saírem. Fiquei sozinha. Caminhei em passos lentos até a imensa cama king-size, tocando os lençóis de fios egípcios com a ponta dos dedos. Pela primeira vez em anos, eu não tinha louça acumulada na pia para lavar, nem um pai embriagado gritando ordens na minha cabeça, nem a obrigação de contar moedas para comprar o pão do dia seguinte. No entanto, em vez de alívio, um nó de angústia apertou minha garganta. O luxo daquela gaiola dourada não mudava o fato de que eu continuava sendo uma prisioneira, apenas trocava um carcereiro miserável por um mestre infinitamente mais poderoso e perigoso. Fui até o banheiro, pasma com a banheira de hidromassagem embutida e os acabamentos em ouro e pedra, e lavei o rosto na água morna, tentando espantar o cansaço acumulado. Decidi vestir uma das camisolas de seda que haviam deixado no closet, uma peça modesta, de tom azul-escuro que caía suavemente até os meus tornozelos, soltei meus cabelos e sentei-me à beira da cama, abraçando meus próprios joelhos enquanto encarava a vista da cidade. Eram quase onze horas da noite quando o som metálico da chave magnética na fechadura fez todo o meu corpo se tencionar. A porta abriu-se devagar. Matteo passou por ela. Ele havia tirado o paletó do terno, vestindo apenas a camisa social preta com os primeiros botões abertos no colarinho e as mangas dobradas até os antebraços, revelando as veias marcadas e as pontas das tatuagens sombrias que subiam por seu peito. O olhar cinzento e analítico dele varreu a suíte até me encontrar encolhida sobre a cama. O pavor congelou o sangue nas minhas veias. Meu coração disparou de forma ensurdecedora no peito. Era agora. O momento em que ele cobraria o preço por ter me tirado daquela vida miserável. O momento em que exigiria meus deveres antes mesmo da cerimônia. Levantei-me num salto, recuando até que minhas costas encontrassem a cabeceira da cama. Senti meu labio inferior tremer enquanto tentava disfarçar o terror que me dominava. Matteo percebeu minha reação imediatamente. Ele parou a alguns passos de distância, mantendo uma margem respeitosa, embora sua presença física continuasse preenchendo cada centímetro de ar daquele quarto. — Acomodou-se bem? perguntou ele, a voz grave e calma reverberando na penumbra da suíte. — S-sim... gaguejei, a voz quase sumindo. O lugar é... lindo. Obrigada, Senhor Santini. Matteo franziu levemente o cenho, seus olhos descendo pela minha figura trêmula na camisola azul antes de voltarem para os meus olhos. —Você comeu algo desde que chegou? indagou ele, apontando para o carrinho do serviço de quarto que permanecia intocado perto da janela. — Não tive muito apetite... — Você precisa se alimentar, Lia, disse ele, em um tom firme, mas isento de agressividade. Ele caminhou até o carrinho, pegou uma taça de suco natural e um prato leve que os chefs haviam preparado e trouxe até a mesa de cabeceira ao meu lado. — Não vou aceitar que adoeça por negligência. Fiquei encarando o prato e depois olhei para ele, incapaz de conter a pergunta que queimava na minha mente: — O que... o que o senhor veio fazer aqui a esta hora? perguntei, a voz transbordando vulnerabilidade. Matteo encarou-me por longos segundos em silêncio. A intensidade do seu olhar era esmagadora, como se ele pudesse ler cada pensamento sombrio e assustado que se passava na minha cabeça. Ele deu um passo lento na minha direção. Instintivamente, prendi a respiração e fechei os olhos por uma fração de segundo, esperando o pior. Contudo, a mão pesada e quente de Matteo não se ergueu com violência ou posse bruta. Ele apenas ergueu dois dedos e tocou suavemente o meu queixo, inclinando meu rosto para cima até que eu fosse forçada a encarar seus olhos cinzentos. — Você acha que vim exigir algo de você esta noite, declarou ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação fria. Não consegui responder, mas o pavor no meu olhar foi resposta suficiente. — Escute com atenção o que vou lhe dizer, Lia, a voz dele baixou para um tom rouco, denso e terrivelmente sincero. — Eu tirei você daquela casa para proteger o que é meu. Ninguém mais neste mundo vai erguer a voz contra você, ninguém vai tentar extorquir você e ninguém vai tocar em um único fio do seu cabelo sem a minha permissão. Ele aproximou-se ligeiramente, o cheiro de seu perfume amadeirado e charuto caríssimo envolvendo meus sentidos. — Eu sou um homem cruel com meus inimigos, e o mundo em que vivo é feito de sangue e violência. Mas você... você agora é a minha noiva. Eu não vou tomar nada de você à força sob este teto. Quando o nosso momento chegar, será porque você pertence a mim, e não por medo. As palavras dele caíram sobre mim com o peso de uma sentença. Havia uma obsessão assustadora naquela promessa, uma posse tão profunda que me fazia sentir completamente dominada, e ainda assim... pela primeira vez na vida, senti que estava sob o manto de alguém capaz de mover o inferno para me manter a salva. Matteo soltou meu queixo devagar, o polegar roçando ligeiramente na minha bochecha antes de afastar a mão. — Coma o que deixei na mesa e durma, ordenou ele, dando dois passos para trás. — Os seguranças ficarão no corredor. Você está completamente segura aqui. Ele virou-se de costas e caminhou até a porta. Antes de sair, parou com a mão na maçaneta e olhou de relance por cima do ombro. — Boa noite, Lia. A porta fechou-se com um clique suave, deixando-me sozinha na vastidão daquela suíte luxuosa. Sentei-me novamente na cama, o coração ainda descompassado, enquanto levava a mão ao queixo, onde o toque dele parecia ter deixado uma marca invisível. Eu continuava apavorada com o futuro, mas a certeza de que Matteo Santini erguia um escudo impenetrável ao meu redor era a única coisa que me mantinha de pé.O tique-taque do relógio na parede do camarim privativo da suíte parecia uma contagem regressiva para o início de uma nova existência. Em poucas horas, eu deixaria de ser apenas Lia Machini para me tornar a esposa do homem mais temido de toda a Itália.A sensação de caminhar de olhos vendados para um abismo escuro dominava cada pensamento meu. Eu não sabia o que esperar do futuro. Criada sob a sombra da violência, meu corpo ainda reagia a qualquer barulho mais alto com um tremor involuntário. O medo de que, após as luzes da festa se apagarem e as portas da mansão Santini se fecharem, a rotina de agressões e humilhações se repetisse me aterrorizava. A imagem do meu pai erguendo a mão contra mim ainda era uma ferida aberta, e a dúvida se Matteo se tornaria outro carrasco queimava como ácido no meu peito.Terminei de ajustar os detalhes do vestido e inclinei-me na direção do espelho de corpo inteiro.A visão que o reflexo me devolveu fez meu fôlego travar. A renda delicada do vestido de
Ajeitei os punhos da minha camisa social enquanto o elevador privativo subia para a suíte presidencial do meu hotel. Faltava pouco para a cerimônia. Amanhã, a alta sociedade do submundo testemunharia a união que consolidaria meu império, mas, antes que qualquer aliança fosse selada diante de um padre, eu precisava encará-la.Passei a chave magnética na porta e entrei no ambiente silencioso. Lia estava em pé perto da janela panorâmica, observando as luzes da cidade. Ela trajava algo incrivelmente simples, um vestido leve, sem adereços caros, e os cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros. Não havia maquiagem pesada ou joias reluzentes, e ainda assim Lia não precisava de absolutamente nada para ser deslumbrante. Sua beleza era natural, pura e gritante no meio da minha rotina cercada de superficialidade. Mas o que mais me fascinava era a sua essência: o jeito submisso como abaixava a cabeça, a fala calma, a postura doce e contida de quem foi acostumada a ocupar o menor espaço possível
O sábado amanheceu cinzento, com uma névoa espessa cobrindo os arranha-céus da cidade. Era o último dia antes do casamento. Amanhã, a esta hora, eu estaria caminhando em direção ao altar para me tornar, perante Deus e o submundo, a esposa de Matteo Santini e nova senhora Santini.Eu estava sentada no sofá de veludo da suíte, encarando o vapor que subia da xícara de chá intocada sobre a mesa, quando duas batidas leves ecoaram na porta. Antes que eu pudesse responder, a porta abriu-se e Klaus passou por ela.Diferente do irmão, que trajava a firmeza de um terno escuro e alinhado a qualquer hora do dia, Klaus vestia uma calça de alfaiataria preta e uma camisa cinza ligeiramente aberta no colarinho, dobrada até os cotovelos. Ele trazia uma pasta fina de couro debaixo do braço e trajava aquele mesmo sorriso cínico e descontraído no rosto.— Bom dia, futura cunhada, disse ele, fazendo uma breve e exagerada reverência ao fechar a porta atrás de si. — Não se assuste. Matteo está em uma reuni
A manhã de sexta-feira trouxe uma movimentação atípica para o andar da suíte presidencial. Faltavam apenas dois dias para a cerimônia que selaria meu destino com Matteo Santini. Por volta das dez horas, a porta se abriu para dar passagem a uma equipe inteira de estilistas, costureiras e maquiadoras renomadas, trazendo consigo araras móveis repletas de vestidos de alta costura, manequins e caixas de veludo com joias cintilantes.Eu me mantive num canto do imenso closet, observando tudo em silêncio. A estilista principal, uma mulher elegante de sotaque francês, aproximou-se de mim com extrema cortesia, instruindo suas assistentes a ajustarem o vestido de noiva feito sob medida para o meu corpo por ordens diretas de Matteo.Tratava-se de uma peça deslumbrante de renda italiana e seda pura, com um decote ombro a ombro delicado e uma cauda longa que parecia esculpida em nuvens. Enquanto as costureiras se ajoelhavam ao meu redor para marcar a bainha com alfinetes, encarei minha imagem no es
O contraste entre a minha realidade de poucas horas atrás e a atual parecia fruto de um delírio. A porta dupla de madeira nobre abriu-se para revelar a suíte presidencial do Hotel Santini, um espaço tão monumental e requintado que cheguei a hesitar no limiar da entrada, com medo de sujar o chão de mármore impecável com meus sapatos velhos.Tudo ali exalava um luxo silencioso e avassalador: as janelas que iam do chão ao teto revelavam uma vista panorâmica de toda a cidade iluminada sob o céu noturno, os móveis de design elegante revestidos em tecidos nobres, o lustre de cristal refletindo luzes suaves e um closet gigantesco que já continha roupas novas dispostas em cabides, todas exatamente do meu tamanho. Na casa do meu pai, o mofo e o cheiro de bebida era constante no ar; ali, o ambiente cheirava a amadeirado, baunilha e sofisticação pura.Dois funcionários uniformizados deixaram minha pequena bolsa surrada sobre uma mesa lateral e se retiraram com reverências impecáveis, trancando a
A imagem da mão de Klaus aproximando-se de Lia ainda queimava na minha mente como ferro em brasa. Aquele impulso primitivo, selvagem e visceral de proteger o que me pertencia nunca havia se manifestado com tanta força em toda a minha vida. Nem mesmo para o meu próprio irmão, o homem a quem confiei minha retaguarda por anos, eu permitiria qualquer tipo de familiaridade com ela. Lia era minha. Apenas minha.Eu estava sentado na minha poltrona de couro no escritório principal da propriedade Santini, girando um copo de uísque puro entre os dedos enquanto encarava os papéis na mesa. A porta se abriu e Giovanni, o soldado encarregado da vigilância de Lia, passou pelo umbral com uma postura tensa e rígida.— Dom Santini? disse ele, fazendo uma breve reverência. — Tenho um relatório importante sobre a residência da senhorita Machini.Pousei o copo sobre a madeira polida com um baque seco.— Fale.— Há cerca de uma hora, o pai da garota, Dário, voltou para casa visivelmente embriagado, relato







