LOGIN~ { POV Daniel } ~A primeira colheita da Fazenda Ferrari terminou sem grandes problemas, o que, considerando as condições em que aquela propriedade se encontrava, já era motivo suficiente para comemorar.Os trabalhadores conseguiram manter o ritmo, os cavalos responderam bem ao esforço e Túlio passou boa parte do dia conferindo as cargas, anotando números e garantindo que nenhuma laranja desaparecesse misteriosamente entre o talhão e o galpão.Celina, por sua vez, cumpriu a missão de vigiar os animais com a seriedade de quem estava disposta a arrancar as orelhas de qualquer peão que tentasse exigir mais deles do que deveriam dar.E Isadora...Bom, Isadora passou o dia inteiro ao meu lado.Não que isso tivesse alguma importância especial.Eu só estava observando a proprietária da fazenda trabalhar, garantindo que ela não se metesse em alguma encrenca e, de quebra, aproveitando a oportunidade para mostrar que eu era muito mais do que o sujeito convencido que ela insistia em enxergar.U
Pisquei duas vezes, tentando processar a pergunta da Celina.Por um segundo, minha mente deu um nó, até que uma ideia alternativa estalou na minha cabeça e eu soltei um riso soprado.— Espera aí... — ergui as sobrancelhas, encarando minha amiga de cima a baixo. — Você tá me perguntando se eu confio no Túlio ou tá querendo saber se eu o aprovo porque ficou interessada nele?Celina não desvios o olhar.Um sorriso de canto devagar nasceu nos lábios dela, sem a menor sombra de vergonha.— Bom... que ele é bem pegável, isso é inegável — ela deu de ombros, pegando um pedaço de broa da cesta. — É bonito, educado, tem aquele ar de homem sério e compenetrado que dá até um charme a mais.Soltei uma risada involuntária e balancei a cabeça.— Você não presta.— Eu sei.Ela pegou uma fatia de bolo e deu uma mordida antes de voltar a falar.— Mas não foi só por isso que eu perguntei.Ajustei a postura, o tom divertido evaporando quando percebi a gravidade no olhar dela.— Ele conversou comigo sobre
Com o carregamento da carroça completamente cheio de sacos pesados de juta, iniciamos o trajeto de volta em direção ao galpão principal.A carroça estava pesada o suficiente para que os cavalos sentissem a diferença no primeiro trecho da subida, mas Daniel parecia completamente à vontade.Ele vinha ao meu lado com uma postura irritantemente relaxada, uma das mãos firme nas rédeas enquanto a outra descansava sobre a perna.O suor ainda brilhava na testa e nos braços, a camisa escura grudando um pouco nas costas por causa do esforço de minutos antes.E ele ainda tinha a coragem de parecer satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio por me pegar no flagrante encarando cada centímetro do seu corpo.— Está se divertindo? — perguntei, sem conseguir esconder a irritação.Ele virou o rosto na minha direção.— Bastante.— Eu percebi.Um sorriso preguiçoso apareceu no canto da boca dele.— Algum problema, patroa?— Por que você piscou pra mim enquanto trabalhava?— Pisquei? Não me l
~ { POV Isadora } ~Daniel estava me irritando.Muito.Mais do que deveria.E o pior de tudo era que eu sabia exatamente o motivo.Desde que ele tinha segurado a minha mão naquela caminhonete e dito, com aquela voz baixa e séria, que eu podia contar com ele, alguma coisa dentro de mim parecia ter saído do eixo.Eu ainda conseguia sentir a pressão dos dedos dele sobre os meus, lembrar do jeito como ele tinha me olhado e, principalmente, da ausência daquela provocação habitual.Ele não estava tentando me conquistar naquele momento.Ele só estava ali.E aquilo era muito mais perigoso.— Para, Isadora — murmurei para mim mesma, enquanto observava o movimento dos trabalhadores começando a se espalhar pelo laranjal.Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar.Não com a fazenda do meu pai à beira da ruína, quem eu achava ser minha mãe rondando a estrada e meu pai só com a Verona no hospital.Eu precisava retomar o controle.Da fazenda, da colheita, da minha cabeça.Principalmente da minha cabe
Acordei antes mesmo do despertador tocar.Fiquei alguns segundos encarando o teto do quarto, ouvindo o silêncio da madrugada se dissolver aos poucos do lado de fora, com os primeiros sons dos animais começando a se espalhar pela propriedade e uma faixa de claridade azulada entrando pela fresta da cortina.Eu deveria estar cansado.Depois de tudo que tinha acontecido no dia anterior, dormir deveria ter sido fácil.Mas minha cabeça não tinha colaborado.A imagem de Isadora parada naquela estrada, chorando dentro do carro, ainda voltava para mim toda vez que eu fechava os olhos.A forma como ela tinha saído correndo e se jogado nos meus braços, sem pensar duas vezes, continuava presa na minha memória de um jeito que eu não sabia muito bem como explicar.Talvez porque, pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela tivesse baixado completamente a guarda comigo.Não existia patroa. Não existia marra. Não existia o orgulho Ferrari.Só existia uma Isadora assustada, precisando de alguém, e e
Quando entrei na sala, Túlio já foi sentando em uma das poltronas, com uma pasta enorme apoiada sobre as pernas e várias folhas espalhadas ao redor, como se tivesse passado as últimas horas montando um quebra-cabeça.Fechei a porta atrás de mim e me joguei na poltrona em frente à dele.— Então? O que você descobriu?Túlio levantou os olhos dos papéis e soltou um suspiro satisfeito.— Cara, o que a veterinária me mostrou hoje é realmente interessante — começou ele, ajeitando as folhas em pilhas organizadas com uma precisão quase cirúrgica.Ergui uma sobrancelha, encostando as costas na poltrona e cruzando os braços, sem perder a chance de cutucar.— Que intimidade toda é essa com a Celina que ela já está te mostrando coisas interessantes?Túlio travou a mão no meio do ar, ajustando a armação dos óculos enquanto a orelha dele ficava visivelmente vermelha.— Não seja idiota, Daniel. Não é nada do que você está pensando.— Ah, mas eu posso estar pensando muitas coisas — provoquei, dando u







