LOGINEros
Eros Bitencourt não perdia o controle.
Nunca.
Mas naquele dia…havia uma prova concreta do contrário entre seus dedos.
O silêncio do escritório particular no último andar da torre da Atikos, era o tipo de silêncio que não admitia interrupções. Denso, absoluto, quase palpável, a atmosfera dentro de sua sala orbitava em espaço frio e confortável, como apreciava.
Ele permaneceu imóvel atrás da mesa de vidro escuro, os documentos sobre as informações básicas sobre aquela mulher.
Era só uma catadora de reciclagem que foi salva por seu único sobrinho. Não havia nada que oferecesse risco a sua vida profissional ou integridade biológica.
Os olhos de Eros fixaram a linha do horizonte que se estendia além das paredes envidraçadas, mas sem realmente enxergar a cidade lá fora.
Sua atenção estava em outro lugar.
Presa.
Inconvenientemente presa.
Entre seus dedos, o pequeno objeto metálico girava com lentidão calculada, desenhando círculos preguiçosos, refletindo fragmentos de luz a cada movimento quase imperceptível.
Uma lua crescente.
Delicada e discreta.
Absolutamente deslocada, como a dona desse objeto.
Nada original para alguém com aquele nome....
Mas combinava com ela, de fato.
Ele a apertou entre o polegar e o indicador, sentindo a superfície fria contra a pele, como se pudesse esmagar aquilo e apagar sua existência com a mesma facilidade com que eliminava problemas em seus negócios.
Seu polegar deslizou sobre o contorno curvo, devagar demais, lento o suficiente para se tornar consciente do rumo que suas vontades tomavam, evocando a lembrança da curva de sua cintura, seu quadril.... o desenho de ampulheta do corpo quente e macio vívido nas suas palmas, nas suas digitais....
E aquilo o irritou.
Sua mandíbula se contraiu.
O álcool havia sido um erro, um deslize apropriado a homens dominados por emoções traiçoeiras, acostumados a serem vencidos por elas. Ele queria relaxar e apagar por um momento seus pensamentos furiosos e a tensão daquela volta friamente calculada para casa.
Aquela mulher… era apenas uma consequência inconveniente desse descuido.
Era isso que deveria ser.
Ela era irrelevante.
No entanto, a lembrança da noite anterior se tornou uma sensação física, quase intrusiva em seu raciocínio objetivo e lógico.
E a consequência daquele erro, começou a emergir em sua mente como ácido.
Deveria ter mandado a tal Lua embora, ou até mesmo demiti-la imediatamente pelo comportamento reprovável.
Entretanto, a forma como ela se agarrou a ele, o calor febril do corpo dela contrastando com o frio controlado do dele. Sua boca entreaberta, gemendo, fervendo contra a dele... Aquele gosto peculiar entre o doce e o cítrico quente...
Aquilo e o álcool mandaram seu controle para o inferno.
Eros fechou os olhos por um breve instante, como se aquela sensação do toque hesitante da faxineira em sua pele pudesse ser contida.
Mas era inútil.
O gosto dela ainda estava ali, como a presença invisível de algo sob sua pele, penetrando suas células, seu sangue, mudando sua temperatura.
Praguejando, Eros teclou a tela do computador rispidamente, diminuindo ainda mais a temperatura da sala para oito graus.
Era errado e persistente a presença daquela faxineira em sua mente, de uma forma que desafiava suas determinações mais rigorosas.
Seus dedos se fecharam com mais força ao redor do colar, e por um segundo, um único segundo seu polegar percorreu a superfície lisa com um cuidado involuntário, traçando o mesmo caminho que havia feito na pele leitosa dela na noite anterior.
Como se ela ainda estivesse ali, com seu corpo respondendo aos seus toques mais intensos e cheios de luxúria.
Seus olhos se abriram abruptamente.
Frio.
Controlado.
Aquilo não significava nada.
Com um movimento seco, ele apoiou o cotovelo na mesa, mantendo o colar preso entre os dedos, agora imóvel, como se tivesse decidido que qualquer outra reação seria um desperdício de energia.
A voz dela naquela manhã voltou a sua mente como uma ressalva perfeita de sua mente analítica.
A faxineira falava baixo com Lucas sobre algo que soou estranho e distorcido. “Foi burrice te pedir que se passasse por meu noivo.” Ela tinha dito, com um tom ferido que não combinava com a leveza que tentava sustentar.
Os olhos de Eros se estreitaram levemente.
Ele não tinha o hábito de prestar atenção em conversas alheias. Mas aquela… havia sido impossível de ignorar.
Tão impossível, que esteve presente em sua mente o dia todo.
“Eu só queria que pelo menos uma vez… eu não fosse o tapete usado para limpar os pés deles.”
Algo em seu olhar se tornou mais atento.
Mais interessado.
Não pelo tom de autocomiseração impresso no ligeiro tremor da voz da faxineira de cabelos prateados como o seu nome. Mas pela utilidade que aquilo teria para ele.
Ele se lembrava da maneira como ela havia se afastado de Lucas, da forma como tentou encerrar o assunto, como se tivesse vergonha até mesmo de ter pensado naquela suposta proposta.
Ela queria um noivo ou precisava de um noivo?
Eros inclinou levemente a cabeça, o colar voltando a girar entre seus dedos, mas agora com intenção, com uma certa dose de satisfação.
Era isso. Por isso ela ainda estava ali, irritantemente permeando seus pensamentos.
Aquela conversa começou a coordenar uma ideia bastante ousada e interessante em sua mente.
Lucas se negou a ajudar a amiga empregada, obviamente não queria que aquela moça esquisita se apaixonasse por ele e se tornasse um problema futuro.
Mas ele não era sentimental como Lucas. E poderia usar isso. O desejo da faxineira não seria um problema para ele.
Na verdade, era uma solução para Eros.
Uma solução que poderia ser efetiva para algo que se tornou uma peste, uma sarna, uma parasita que o perseguia por toda parte, um problema irritante que se chamava Nádia.
A imagem da ex-noiva surgiu com a mesma irritação e desprezo feroz em sua mente.
A encenação pública, as entrevistas calculadas, a expressão ensaiada de vítima, como se ainda pudesse reverter a situação que causou.
Nádia não ia demorar a voltar ao Brasil, e logo que ela chegasse, tudo voltaria a ficar insuportavelmente sufocante, e ele não estava disposto a viver nesse inferno de novo.
Eros tirou o colar em forma de lua crescente do bolso, o observando com uma atenção criteriosa.
Não podia acabar com esse problema imediatamente, mas podia redirecionar a atenção. Podia criar algo maior, mais chamativo, mais convincente e emocionante.
Algo que o faria vencer a opinião pública imediatamente.
Seu olhar escureceu ligeiramente, enquanto o raciocínio se encaixava com a precisão de uma engrenagem perfeitamente lubrificada.
Ela precisava de um noivo.
Eros girou o colar entre os dedos, lentamente.
Um sorriso frio começou a se formar em seus lábios.
Ele precisava de uma solução eficiente.
E talvez…tivesse acabado de encontrá-la na empregada apetitosa de seu sobrinho.
Ele se sentou ao seu lado, Lua respirou profundamente antes de entregar-lhe o celular.— Noah, o filho da Iara, não é do Ariel.Eros franziu a testa, ela sentiu uma lágrima escorrer.— O filho da Iara é... — Precisou interromper a frase para recuperar a voz. — É do Lucas.O silêncio que se seguiu pareceu preencher toda a biblioteca.Eros permaneceu observando-a durante alguns segundos, depois voltou os olhos para a mensagem aberta na tela. Lua acompanhou as pequenas alterações de sua expressão enquanto ele lia.A mandíbula se contraiu, os músculos do pescoço ficaram tensos.Entretanto, quando finalmente pousou o celular sobre a mesa, sua primeira pergunta não foi sobre a mentira que Iara contou sobre a paternidade do menino.— Há quanto tempo você sabe?Lua abaixou os olhos.— Há anos. Eu conheci o Noah quando fiquei na casa dela.Eros inspirou profundamente.A resposta o atingiu, e Lua percebeu que ele precisava de alguns instantes para assimilar tudo o que acabou de descobrir.— Meu
Ela sentiu o estômago contrair e engoliu em seco, temia que aquele momento chegasse.— Eros...— Não estou exigindo explicações, meu amor.A tranquilidade da resposta a surpreendeu, embora não devesse.— Eu sei que você guarda alguma coisa sobre Iara há muito tempo. Também sei que esse segredo não pertence apenas a você, e foi justamente por isso que nunca tentei descobri-lo por conta própria, embora tivesse meios suficientes para fazer isso.Lua abaixou os olhos para os dedos entrelaçados aos dele.— Você nunca me perguntou diretamente e eu sou muito grata por isso...— Porque confio em você. — Eros acariciou sua mão com o polegar. — Mas existe uma diferença entre respeitar o silêncio de alguém e ignorar que esse silêncio pode estar se transformando num problema perigoso.Ela respirou profundamente.— Eu prometi a ela que não contaria a ninguém.— E não vou obrigá-la a quebrar essa promessa. Só quero saber se você deseja conversar comigo sobre o que está carregando sozinha, porque es
A mansão Bitencourt estava mergulhada no silêncio quando Lua voltou a verificar o celular pela quarta vez naquela noite, incapaz de afastar a inquietação que a acompanhava havia semanas e que, nos últimos dias, se transformou numa preocupação tão persistente que até mesmo os momentos mais tranquilos ao lado da família haviam começado a perder parte de sua habitual serenidade.Do lado de fora, uma chuva fina escorria pelos vidros da biblioteca, distorcendo as luzes dos jardins cuidadosamente iluminados. Sobre a mesa de madeira escura, alguns documentos relacionados à próxima reunião da Atikos permaneciam esquecidos ao lado de uma xícara de chá que esfriou sem que Lua conseguisse beber mais do que dois goles.Havia quase vinte minutos, relia uma mensagem antiga de Iara.Não continha informações particularmente reveladoras, apenas algumas palavras tranquilizadoras, a garantia de que estava bem e um pedido para que Lua não se preocupasse tanto. Entretanto, conhecia a amiga suficientemente
Quando finalmente chegou o momento indicado, Lua levantou-se e aproximou-se da bancada.Duas linhas.Nítidas.Inconfundíveis.Por alguns segundos, ficou olhando para o pequeno objeto sem conseguir organizar os próprios pensamentos.Então levou uma das mãos ao ventre lentamente.— Meu Deus... eu estou...grávida... de novo...A voz saiu tão baixa que quase não conseguiu ouvi-la. Havia um bebê, talvez ainda tão pequeno que mal pudesse ser distinguido num exame, mas já suficientemente presente para modificar completamente o futuro que ela e Eros imaginavam.Lua sentiu as lágrimas começarem a descer, a porta recebeu duas batidas discretas.— Moranguinho?- Ela tentou responder, mas a emoção apertou sua garganta. — Lua, está tudo bem?A preocupação na voz dele a fez caminhar até a porta, quando a abriu, encontrou Eros parado diante dela, com a expressão severa e os olhos azuis examinando imediatamente seu rosto molhado de lágrimas.— Meu amor, o que aconteceu? Está se sentindo mal?Lua ergue
Lua gargalhou, envolvendo o pescoço dele com os braços.— Coitadinho do meu marido gostoso, abandonado e negligenciado por causa de um doce.Eros a ergueu da cadeira com uma facilidade que ainda a surpreendia, acomodando-a sobre suas pernas quando voltou a se sentar.— Finalmente alguma compreensão.Ela sorriu e ofereceu um pedaço da barra, mas percebeu que o olhar dele havia adquirido uma expressão diferente.Não exatamente preocupada, mas pensativa.— O que foi agora? — perguntou, aproximando o chocolate da boca.Eros observou o movimento e arqueou uma sobrancelha.— Estava me lembrando de uma coisa interessante.— Do quê?— Da última vez em que você demonstrou uma obsessão tão intensa por doces, principalmente chocolate.Lua mastigou lentamente, tentando compreender a direção daquela conversa.— Eu sempre gostei de chocolate, você sabe. Sempre me compra com eles, quando apronta alguma coisa com o Máximos.— Eu sei, moranguinho. Mas existe uma diferença considerável entre gostar de
O arquipélago de Palau parecia ter sido criado para convencer as pessoas de que o paraíso realmente existia em algum lugar do mundo, escondido entre águas de um azul quase inacreditável, pequenas ilhas cobertas por uma vegetação exuberante e formações rochosas que emergiam do oceano como esculturas cuidadosamente moldadas pela natureza.Lua estava começando a acreditar nisso.Da varanda privativa da luxuosa villa construída sobre a água, conseguia observar os cardumes atravessando a transparência do mar, enquanto o sol da tarde espalhava reflexos dourados sobre a superfície tranquila da lagoa.A brisa tropical movimentava suavemente as cortinas de linho branco, trazendo consigo o perfume salgado do oceano e o aroma das flores que ornamentavam o caminho até o pequeno deque particular.Era o quinto dia da lua de mel que Eros prometeu proporcionar a ela desde o casamento, mas que acabou sendo sucessivamente adiada por compromissos profissionais, viagens internacionais, pela conclusão de







