Se connecterO ar frio ainda dominava as ruas de Chicago, mesmo perto do horário do almoço. Sarah deixou o prédio da universidade com o casaco fechado até o pescoço, atravessando a calçada movimentada sem realmente prestar atenção nas pessoas ao redor. O celular vibrava dentro do bolso desde o fim da prova. Ela já sabia quem era antes mesmo de olhar: Peter.Cedeu ao cansaço mental por um segundo, sem forças para recusar a companhia.
— Se você me disser que ainda não comeu nada hoje, eu juro por Deus que atravesso Chicago só pra te agredir.
A voz dele arrancou dela um sopro de riso.
— Você ameaça violência com uma frequência preocupante.
— Porque você facilita meu trabalho.
Ela atravessou a rua junto do sinal aberto.
— Eu tô indo comer agora.
— Mentira.
Sarah sorriu de leve pela primeira vez desde a conversa no corredor da faculdade.
Peter sempre percebia.— Você tá ocupado?
— Pra você? Nunca. Me encontra no café de sempre.
Sarah cedeu ao cansaço mental por um segundo, sem forças para recusar a companhia.
— Tá.
✦ ✦ ✦
Quando saiu da Millennium Station, o vento frio do lago atingiu seu rosto com força.
Sarah puxou o casaco para mais perto do corpo e seguiu pelas calçadas cinzentas do Loop, misturando-se ao fluxo apressado de executivos. Acima dela, o trem elevado ecoava entre as fachadas de vidro dos prédios, dominando os ruídos da avenida. O café ficava a poucos minutos dali, espremido entre duas grandes torres corporativas.O espaço era quente e apertado o suficiente para embaçar completamente os vidros por causa do frio lá fora.
Peter já estava sentado perto da janela quando Sarah entrou. Mesmo usando roupas simples, havia alguma coisa naturalmente chamativa nele. Talvez o jeito expressivo, a confiança ou o fato de parecer confortável demais sendo exatamente quem era.Sarah sempre invejou aquilo.
Ele abriu um sorriso imediato ao vê-la.— Meu Deus, você tá com uma cara péssima.
O horror teatral na voz dele arrancou outra risada dela.
— Você também.
— Mas no meu caso é estético.
Peter empurrou um copo de café quente na direção dela sem perguntar se queria.
Já conhecia a resposta.Por alguns minutos, conversaram sobre coisas pequenas: a prova, o frio, um cliente estranho que Peter tinha atendido no salão naquela semana.
A conversa desacelerou.
Peter apoiou o cotovelo na mesa.— Quanto tá faltando?
Sarah encarou o copo entre as mãos.
Ele suspirou baixo.— Sarah.
A resposta demorou a sair.
— Bastante.
O amigo sustentou o olhar.
— E você tá pensando em fazer o quê?
Ela soltou uma pequena risada sem humor.
— Honestamente? Não faço ideia.
Os dedos apertaram o copo quente entre as mãos.
— Eu tô cansada, Peter.
A frase saiu mais baixa do que pretendia. Mais honesta também.
— Parece que eu tô sempre correndo atrás de alguma coisa e nunca alcanço.
O olhar dele suavizou, conhecia aquela versão dela.
A garota cansada do abrigo, que fingia estar bem, mesmo quando claramente não estava.— Você já pensou em usar essa sua beleza absurda pra ganhar dinheiro?
Sarah arregalou os olhos, horrorizada.
— O quê?
Peter deu de ombros.
— Não tô falando de prostituição antes que você faça essa cara.
Ela continuou o encarando, incrédula. Então ele pegou o celular e abriu um aplicativo:
Nyx.Sarah franziu levemente o cenho.
— Que site é esse?
— Plataforma de conteúdo adulto por assinatura.
Uma onda de desconforto a fez encarar a tela com reserva.
Peter virou a tela na direção dela.Perfis começaram a deslizar rapidamente: fotos cuidadosamente construídas, corpos bonitos, fantasias, desejo.
Alguns explicitamente sexuais. Outros mais sensuais do que realmente explícitos. Tudo construído em torno de fantasia, atenção e desejo.— Tem gente aqui que vende nude, vídeo explícito, essas coisas — Peter explicou casualmente. — Mas também tem gente que nunca fica nua.
Sarah continuava olhando a tela sem saber exatamente como reagir.
— E as pessoas pagam por isso?
Peter soltou uma pequena risada nasal.
— Amiga… homens solitários pagam por atenção feminina desde que o mundo existe.
Cortou o contato visual de imediato, aquilo a incomodava.
— Eu não conseguiria fazer isso.
— Conseguiria sim.
Ela balançou a cabeça.
— Não, Peter. Isso não tem nada a ver comigo.
Ele apoiou o celular sobre a mesa.
— Você acha que esses caras tão procurando só pornografia? Porque não tão.
Sarah permaneceu em silêncio.
Ele continuou:— Alguns querem putaria, claro. Mas outros só querem alguém olhando pra eles, conversando, dando atenção. Fantasia vende muito mais do que nude.
Ela apertou o copo entre as mãos, ainda sem jeito.
— Ainda assim… eu não consigo me imaginar fazendo isso.
Peter inclinou levemente a cabeça, encarando ela como se a resposta fosse genuinamente absurda.
— Gata, você tem noção da aparência que você tem?
Ela afundou um pouco na cadeira.
— Peter…
— Não, eu tô falando sério.
Ele apontou discretamente pra ela com o copo de café na mão.
— Você é alta, loira, tem esses olhos hazel estranhos que mudam de cor dependendo da luz… às vezes verdes, às vezes quase dourados.
Sarah sentiu o rosto esquentar na mesma hora.
Peter continuou sem dar espaço para interrupções.— E ainda tem esse corpo ridículo de bonito sem nem tentar. Magra, cintura fina, pernas longas… sinceramente, isso devia ser ilegal pra alguém que vive de café e estresse.
Ela acabou rindo pelo nariz apesar do constrangimento.
— Você exagera demais.
— Não exagero. Você só passou a vida inteira ocupada sobrevivendo e nunca percebeu como as pessoas olham pra você.
O sorriso dela diminuiu um pouco.
— Você fala isso pra me manipular.
— Claro que falo. E tá funcionando.
Sarah balançou a cabeça, mas dessa vez sem conseguir esconder completamente o pequeno sorriso.
Peter então voltou a deslizar os perfis devagar.— Olha isso aqui.
Mostrou uma garota usando cosplay.
Outra usando máscara. Outra simplesmente fazendo live conversando.— É personagem, maquiagem, iluminação, câmera certa. Você aprende tudo.
Sarah observava em silêncio. O desconforto permanecia, mas a rejeição já não era tão imediata. O amigo percebeu na mesma hora.
— Você não precisa fazer nada que não queira.
A voz dele ficou mais calma, mais séria.
— Você não precisa continuar se matando assim só porque acostumou a sobreviver no modo difícil.
Sarah desviou os olhos para o vidro embaçado. Do lado de fora, o vento frio continuava castigando as ruas de Chicago. Ela considerou a ideia. Não respondeu, mas também não se moveu. E Peter percebeu isso na mesma hora.
O relógio na parede do escritório já passava das nove quando Thiago empurrou a cadeira para trás, massageando a têmpora. Precisava de café, ou de qualquer coisa que mantivesse sua mente funcionando por mais uma hora. Ele abriu a porta da sala. Na antessala, apenas a luminária permanecia acesa, projetando um facho dourado sobre a pilha de documentos. Sarah estava lá, inclinada sobre a mesa, com os óculos de leitura na ponta do nariz e os dedos deslizando pelo teclado.Thiago parou a poucos metros dela, encostando-se na parede, os braços cruzados contra o peito, observando-a por alguns segundos antes de se fazer notar.— Você não tem vida fora daqui? — ele perguntou, a voz grave fazendo-a se sobressaltar.Sarah ergueu o rosto de supetão, piscando algumas vezes antes de soltar uma risada curta.— Pelo visto, você também não tem.Thiago a encarou, medindo o cansaço evidente sob a expressão desafiadora dela.— Então vamos embora.Ele voltou para a sala, fechou o notebook, recolheu-o e ves
Segunda-feira chegou com a pontualidade implacável de um relógio suíço.O escritório já fervilhava de atividade quando Sarah cruzou a portaria, com o tailleur impecável e a mente focada no relatório de fusão que precisava estar na mesa do chefe até o meio-dia.Ela cumprimentou os colegas com um aceno rápido e subiu para o andar executivo, abrindo documentos antes mesmo de tirar o casaco.Thiago chegou um pouco mais tarde que o habitual.Atravessou o escritório com passos firmes. A expressão estava mais tensa que o normal, a mandíbula marcada e olheiras discretas denunciavam uma noite mal dormida.Passou pela mesa de Sarah sem desacelerar e depositou um copo térmico ao lado do teclado.— Bom dia, Senhor Kane.— Bom dia — murmurou, com a voz rouca.E entrou na própria sala.Sarah piscou, paralisada com os dedos sobre o teclado.Esticou a mão e puxou o copo para perto. Ao abrir a tampa, o cheiro doce e inconfundível subiu — café com leite, baunilha e canela. Exatamente do jeito que pedia
Sarah evitou falar com Peter. Sabia que ele estava passando o fim de semana em uma viagem romântica com o namorado.Passou o sábado inteiro enterrada sob o edredom, deixando as horas passarem sem fazer esforço para acompanhá-las.Foi o toque estridente do celular, já no final da tarde, que quebrou o transe. O nome de Amanda piscava na tela. Com a convivência forçada no último andar da Kane Group, as duas haviam desenvolvido uma afinidade genuína.— Ei, Sarah. Vamos tomar uns drinks hoje? — a voz de Amanda veio animada.Sarah soltou um suspiro pesado, afundando o rosto no travesseiro.— Ai, não sei, Amanda… Não estou muito legal hoje.— Mais um motivo para encher a cara — Amanda rebateu sem margem para drama. — Te encontro no The Violet Hour em uma hora. Sem desculpas.A relutância durou pouco. A perspectiva de ficar remoendo o fim com Thomas era pior do que qualquer esforço social. Ela se arrumou, buscando recuperar algo de sua própria identidade, e tomou um táxi para Wicker Park.O T
Passaram-se algumas semanas, e a rotina na Kane Group consolidou-se como um relógio de precisão. Em uma tarde de terça-feira, enquanto o refeitório fervilhava com o barulho de xícaras e o burburinho de prazos, Sarah estava em um canto, tentando ignorar a conversa na mesa ao lado.— A Jennifer tentou de novo? — uma das associadas perguntou, com um riso abafado. — Tentou — respondeu a outra, com um tom de quem trazia notícias de guerra. — E? — Chamou o Kane pra beber depois do expediente.Sarah sentiu a respiração travar, mesmo que fingisse ler um relatório.— O que ele respondeu? — “Qual o prazo da campanha?” — A associada imitou o tom seco e impessoal. Risadas contidas ecoaram pela mesa. — Ela insistiu. “Sexta-feira?”— “Tenho compliance.”— Juro. Ele nem se deu conta de que ela estava dando em cima dele.Durante anos, Sarah convencera-se de que Thiago era o tipo de homem que colecionava mulheres. Era a única explicação que tornava suportável o desaparecimento dele depois daquela
Sarah entrou no apartamento de Thomas esperando encontrar a paz que o escritório lhe roubava. Ele a recebeu com aquele sorriso que, até poucas semanas atrás, era tudo o que ela precisava para sentir que o dia tinha valido a pena.— Você está exausta — ele disse, puxando-a para um abraço e tirando a bolsa de suas mãos.Encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos. O perfume dele era suave, mas, contra a própria vontade, ela pensou em Thiago.— Fui promovida hoje. Estou trabalhando direto com o CEO. — A voz soou um pouco mais baixa do que pretendia.Thomas se afastou ligeiramente, o sorriso brilhando com um orgulho genuíno que fez Sarah se sentir em casa novamente.— Isso é incrível, Sarah! — Ele a beijou na testa, conduzindo-a para o sofá. — Você merece. Eu vi o quanto você tem se dedicado, o quanto tem sacrificado das suas noites por esse cargo.Ele serviu uma taça de vinho para cada um. Enquanto celebrava a notícia, ela continuava com a mente em outro lugar.— Ouvi dizer que o K
Eram quase 22h quando o movimento na Kane Group se reduziu a um zumbido distante de sistemas de climatização. Thiago estava sentado à mesa, a gravata afrouxada, debruçado sobre uma pilha de petições e contratos que exigiam uma revisão minuciosa. O trabalho não era apenas produtividade; era um sedativo para a mente.Uma batida firme, porém despretensiosa, soou na porta. Antes que ele pudesse responder, Augusto entrou, ainda carregando o cansaço de um turno exaustivo no hospital.— Você precisa de uma vida, ou de um hobby, ou talvez de um terapeuta que não seja eu — Augusto brincou. — Vamos. Conheço um bar em North River que serve um uísque capaz de fazer você esquecer até seu nome.Thiago hesitou, mas a exaustão física finalmente venceu a rigidez mental. Ele fechou a pasta com um suspiro seco.Meia hora depois, estavam em um canto reservado de um bar sofisticado em North River.O ambiente era ruidoso, mas a conversa entre os irmãos parecia isolada do restante do bar. Augusto, com a fac







