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Capítulo 6

last update Date de publication: 2026-05-30 10:16:24

Os dias adquiriram um ritmo diferente, menos desesperador.

Depois de meses, Sarah finalmente conseguiu pagar uma das parcelas atrasadas da universidade antes do vencimento.

O recibo digital apareceu na tela do celular enquanto ela estava sentada no metrô, a caminho das aulas.

Ela encarou a confirmação na tela por alguns segundos.

Não era felicidade. Era alívio.

Um alívio pequeno, cauteloso, como o de quem já aprendeu que a estabilidade desaparece rápido.

Ainda assim, ela percebeu uma mudança.

As noites continuavam longas, as transmissões continuavam acontecendo.

Mas ela já não precisava atravessar madrugadas inteiras no bar antes de voltar para casa destruída.

O corpo respondeu com descanso e concentração.

Menos sobrevivência, mais rotina.

A mudança apareceu primeiro nos estudos.

Sarah voltou a participar das aulas.

Não de forma expansiva, ela nunca foi esse tipo de pessoa.

Mas havia foco outra vez, atenção e precisão.

Os professores notaram.

Ela respondia perguntas difíceis sem consultar anotações.

Percebia contradições em debates jurídicos antes que os outros alunos sequer acompanhassem o raciocínio.

Sua mente funcionava alguns segundos à frente do restante da sala.

Na aula de Processo Civil, o professor interrompeu a explicação para observá-la depois de uma argumentação particularmente precisa.

— Exatamente isso.

O homem apoiou o marcador na mesa.

— Essa é a primeira vez hoje que alguém realmente analisou a consequência prática da decisão.

Alguns alunos olharam para Sarah.

Ela murchou na cadeira, encarando o próprio caderno, como sempre fazia.

Aos poucos, seu nome circulou pelo corpo docente não mais como a bolsista invisível do fundo da sala.

E sim como alguém brilhante.

As notas voltaram a subir na mesma velocidade com que o cansaço deixava de consumir cada parte de sua rotina.

A vida não havia ficado fácil, mas Sarah finalmente conseguia pensar em algo além de sobreviver até o próximo mês.

E talvez fosse exatamente isso que tornasse tudo ainda mais traiçoeiro.

Porque começava a acreditar que realmente poderia chegar até o fim daquele curso.

No fim daquele dia, Sarah saiu da universidade com os livros pressionados contra o peito e uma sensação incomum de exaustão produtiva.

Não era o desgaste vazio das semanas anteriores.

A mente continuava ativa.

O céu de Chicago escurecia mais cedo, tingindo os prédios de tons azulados enquanto ela caminhava até a estação.

O celular vibrou dentro do bolso do casaco.

Sarah tirou o aparelho sem pressa, à espera de mais um aviso bancário ou de uma mensagem de Peter.

Mas não era.

A interface da Nyx apareceu na tela.

E, abaixo dela, uma notificação diferente das habituais:

Solicitação de contato pessoal.

Ela franziu levemente o cenho.

A plataforma raramente liberava o recurso sem valores altos envolvidos.

Abriu, o nome apareceu:

John.

O coração acelerou antes mesmo que ela terminasse a leitura.

Solicitação de acesso prioritário e contato privado direto.

Valor estimado de retorno: $15.000.

Os pés travaram na calçada.

As pessoas continuavam passando ao seu redor, mas o som da cidade sumiu.

Quinze mil dólares.

O valor pagaria uma parte absurda das dívidas da universidade.

Resolveria meses inteiros de vida, talvez mais.

Mas o que realmente a deixou imóvel não foi o valor.

Foi a própria hesitação.

Já não era uma transação simples.

Sarah continuou parada no meio do fluxo de pessoas, encarando a tela iluminada, enquanto o vento frio atravessava a rua.

O valor permanecia ali, impossível de ignorar.

Ela tentou racionalizar.

Mensalidades. Aluguel. Livros. Comida.

Meses sem precisar entrar em pânico toda vez que abrisse a conta bancária.

Aquilo resolvia problemas demais para ser tratado com calma.

Ainda assim, recuou.

Não era apenas dinheiro, era proximidade.

Contato privado direto. Mais acesso. Menos distância.

Sarah conhecia a lógica do sistema: homens pagavam fortunas tentando transformar fantasia em exclusividade.

Queriam atravessar a distância, criar intimidade artificial, um sentimento de posse disfarçado de interesse.

Mas John a fazia se sentir insegura, justamente por não buscar as mesmas coisas.

Voltou a caminhar em direção à estação.

Uma parte dela queria aceitar imediatamente, a outra tentava entender por que aquela decisão pesava tanto.

O celular vibrou novamente.

Uma mensagem privada.

“Você não precisa responder agora.”

Sarah paralisou novamente.

A respiração travou.

Apertou os dedos ao redor do aparelho, tentando ignorar como aquele homem antecipava reações que nem ela própria decifrava direito.

Do outro lado da cidade, Thiago observava a conversa aberta na tela do notebook enquanto a noite avançava atrás dos vidros do escritório.

Ele sabia que o valor era alto o suficiente para chamar atenção imediata.

Sabia também que havia uma boa chance de ela precisar daquele dinheiro.

Estranhamente, o que o deixava inquieto não era a possibilidade de ela aceitar.

Era o medo de que aceitasse apenas pelo dinheiro.

Sarah entrou no metrô, se sentou próxima à janela.

Dessa vez não abriu os livros, nem revisou anotações.

A mente permanecia ocupada demais tentando organizar aquilo.

Aceitar nunca foi a questão.

Ela já tinha entendido há semanas que cruzaria limites que antes jurava intocáveis.

O problema era outro.

A maioria dos homens naquela plataforma sumia da mente dela assim que a transmissão acabava.

Eram apenas nomes. Mensagens. Pedidos. Dinheiro.

Mas ele permanecia.

Nos pensamentos distraídos durante as aulas.

Nos momentos de silêncio do metrô.

Isso não deveria acontecer.

O trem seguia cortando a cidade enquanto as luzes do centro desapareciam aos poucos pelas janelas.

E Sarah encarou um fato desconfortável: ela queria aceitar.

Não apenas pelo dinheiro, mas para descobrir o que aconteceria depois.

Em sua sala, Thiago permanecia sentado, enquanto o resto do prédio começava a se esvaziar.

O notebook continuava aberto, o relógio avançava.

A solicitação enviada seguia sem resposta.

Ele não costumava esperar por nada.

Na vida profissional, tudo corria sob urgência.

Pessoas respondiam por necessidade.

Negócios se moviam ao redor dele.

Decisões eram tomadas sob pressão.

Mas aquela espera era diferente, mais pessoal.

Thiago passou a mão pelo cabelo, bagunçando os fios alinhados, enquanto lidava com um sentimento irritante: estava ansioso.

O trajeto até o West Side pareceu mais curto naquela noite.

Ou talvez Sarah simplesmente estivesse distraída demais para notar o caminho.

Quando entrou no loft, deixou a mochila sobre a cadeira e ficou parada no meio do quarto escuro, com o celular na mão.

Ela sabia exatamente o que deveria fazer.

Aceitar. Receber o dinheiro. Manter distância emocional. Seguir em frente.

Era simples, ou, pelo menos, deveria ser.

A verdade incômoda era que John tinha deixado de ser apenas um cliente há algum tempo.

Sarah caminhou até a janela.

Lá fora, o vento percorria as ruas mal iluminadas de Austin.

O reflexo dela surgiu parcialmente no vidro.

Cansada.

Confusa demais para alguém que normalmente sabia separar personagem e realidade.

O celular vibrou novamente.

Não era uma nova mensagem.

Apenas o aviso de que a solicitação continuava pendente.

Ela abriu a conversa privada.

Fitou a tela, decidindo o que dizer, antes de finalmente digitar:

“Isso normalmente termina mal?”

Enviou antes que pudesse reconsiderar.

Thiago leu a pergunta.

Diante daquela sequência de interações, hesitou por vários segundos sem saber o que responder.

Aquela dúvida não era sobre a plataforma.

Nem sobre dinheiro ou sobre o tipo de acordo que estavam criando.

Era sobre pessoas.

“Depende do quanto alguém está disposto a fingir que não está envolvido.”

Sarah leu a mensagem.

Percebeu, antes mesmo de racionalizar, que ambos estavam cruzando uma linha que ela não estava disposta a admitir em voz alta.

Alguém enxergava exatamente o ponto onde ela tentava manter distância.

Caminhou até a pequena cozinha do loft e apoiou as mãos na bancada fria.

Tentou organizar os pensamentos.

Era ridículo.

Ela nem conhecia aquele homem, não sabia o rosto dele. A idade. A voz.

Nada.

Ainda assim, ele começava a existir fora da tela.

O celular vibrou novamente.

“Se você quiser recusar, eu entendo.”

Sarah franziu o cenho.

Antes que pudesse processar o impacto da frase, outra surgiu logo abaixo:

“Não queria transformar isso em algo desconfortável pra você.”

A atmosfera do local mudou.

Fazia semanas que ninguém se importava com o conforto dela.

Sarah sentou na ponta da cama, ainda encarando a conversa.

Então digitou:

“Você sempre pensa tanto antes de falar?”

Thiago soltou um riso contido.

Afrouxou a gravata enquanto observava a tela.

Depois respondeu:

“Só quando a resposta importa.”

Sarah sentiu o peito apertar, de forma irritantemente involuntária.

Abaixou o celular, apoiando-o sobre as pernas.

Na tentativa de ignorar como aquela conversa a afetava além do limite aceitável.

Uma pessoa sem rosto, sem nome real, sem qualquer detalhe concreto.

Talvez tenha sido esse vazio que a levou a perguntar sem ponderar:

“Qual sua idade?”

A resposta veio imediata.

“32”

Pelo menos não era tão mais velho assim.

Ainda assim, movia-se vários passos à sua frente.

“Me envia uma foto sua?”

Assim que enviou, o corpo de Sarah tensionou.

Aquilo mudava o jogo.

Tornava a distância menor, mais real.

Thiago observou a mensagem.

Poderia ignorar.

Desviar.

Mudar o rumo da conversa.

Seria o mais lógico.

Mas não quis.

A ideia de ser observado por ela causava menos desconforto do que de costume.

Ele balançou a cadeira giratória.

Os primeiros botões da camisa social branca já estavam abertos pelo cansaço do dia longo no escritório.

A iluminação suave desenhava sombras sobre a definição discreta do peito e do abdômen sob o tecido entreaberto.

Ergueu o celular, mas escondeu o rosto.

A fotografia capturava apenas do pescoço para baixo.

A gravata frouxa caía ao redor do colarinho.

A camisa exibia o suficiente para sugerir, nunca revelar.

As mangas estavam dobradas até os antebraços.

A postura era calma, confortável demais.

Era imagem sugestiva, mas contida.

Exatamente como as que ela costumava enviar.

Thiago analisou a foto por alguns segundos antes de enviá-la.

No loft, o celular vibrou nas mãos de Sarah.

Quando o arquivo carregou, Sarah permaneceu imóvel.

John deixava de ser uma ideia abstrata.

Seus olhos percorreram a imagem: a gravata desalinhada, os botões abertos da camisa social, a tensão discreta dos músculos sob a luz baixa.

Aproximou a imagem com os dedos, dando zoom para observar detalhes que não deveria examinar por tanto tempo.

As mangas dobradas mostrando a definição dos músculos no antebraço.

As linhas firmes do peito parcialmente descoberto.

Os ombros largos e firmes.

A postura relaxada demais para alguém que passava o tempo inteiro sob controle.

Soltou o ar devagar.

Presa no misto de sensações.

Irritada consigo mesma ao perceber que tentava imaginar o rosto dele.

Thiago monitorava o indicador de visualização sem conseguir desviar os olhos da tela.

Ela não respondia, mas também não fechava o chat.

A demora alimentava uma expectativa que ele não gostava de admitir.

Quase juvenil.

E desconfortavelmente incomum.

Finalmente, a mensagem dela apareceu:

“Então é assim que homens que têm tudo sob controle se parecem?”

Thiago soltou o ar pelo nariz, apoiando a cabeça no encosto da cadeira.

Um pequeno sorriso cansado surgiu no canto da boca pela primeira vez naquela noite.

Ele respondeu devagar:

“Achei que já tínhamos concordado que talvez eu esteja procurando justamente o contrário.”

Sarah sentiu o rosto esquentar.

Odiou perceber o quanto aquela conversa se tornava perigosa.

Já não existia espaço entre a curiosidade e a tensão.

Ela fixou os olhos na tela aberta.

O pedido ainda aguardava resposta.

Sabia que, depois daquele clique, tudo mudaria.

O polegar pairou sobre a tela por alguns segundos, então ela aceitou.

A confirmação surgiu.

O sistema processou o pagamento.

O valor. O vínculo privado. O novo canal de contato.

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