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Capítulo 93

Author: Dona Morena
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-14 00:13:31

Mary Anne

O carro subiu a estrada de cascalho com o barulho familiar das pedras sob os pneus.

Eu reconheci cada curva antes mesmo de vê-la. A fileira de ciprestes à esquerda. O portão de ferro forjado que Clarke abria com o controle remoto. O cheiro que entrou pela janela entreaberta do carro, terra úmida, folhas de videira, um leve toque de fumaça distante de alguma queimada controlada. Eu fechei os olhos por um segundo e respirei fundo.

— Chegamos enfim ao nosso lar — Clarke falou, a voz ba
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    Mary Anne No dia seguinte ao encontro com Cecil, a casa amanheceu quieta demais. Eu acordei antes de Clarke de novo. Fiquei deitada de lado olhando o teto de vigas, ouvindo a respiração dele e tentando entender o que eu sentia. Não era mais raiva pura. Era uma coisa mais fina, mais irritante: o resto. Como cinza que ainda quente depois que o fogo apaga. Desci descalça. Fiz café. O cheiro encheu a cozinha e trouxe Clarke atrás de mim quinze minutos depois, cabelo bagunçado, só de cueca e camiseta velha. Ele parou no vão da porta e me observou em silêncio. — Você está com cara de quem ainda quer brigar — ele falou. — Estou com cara de quem não consegue parar de brigar. Ele soltou uma risada baixa, veio até a bancada e roubou minha xícara. Tomou um gole e fez careta. — Você colocou açúcar demais. — É o meu café. — Falo emburrada. — Agora é o nosso café. E está doce demais. — Fala tentando não sorrir. Eu limpei a mão no pano e encarei ele. — Você está tentando me fazer

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    Mary AnneClarke combinou o encontro para o final da tarde, num escritório alugado em Florença. Neutro. Sem testemunhas além do advogado dele. Eu fiquei no carro, como combinado, o celular na mão e o coração batendo rápido demais. Ele tinha pedido que eu não entrasse. Eu tinha aceitado. A contragosto. Quarenta e três minutos. Foi o tempo que a reunião durou. Eu contei cada um deles olhando o relógio do painel. Quando a porta de vidro do prédio se abriu e Clarke saiu, o rosto dele estava cansado, mas sereno. O advogado veio logo atrás, apertou a mão dele e foi embora. Clarke caminhou até o carro sem pressa, abriu a porta do motorista e entrou. — Acabou — foi a primeira coisa que ele falou. Eu virei o corpo inteiro para ele. — Como assim “acabou”? — Ela admitiu que soube da garrafa. Não foi ela quem colocou a substância, mas soube e não avisou. Achou que eu “precisava relaxar”. A versão dela. O advogado registrou tudo. Ela assinou um termo reconhecendo a omissão e se comprometendo

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    Mary AnneO segundo dia na Toscana começou com luz demais e silêncio demais. Eu acordei antes de Clarke. Fiquei olhando o perfil dele contra o travesseiro, a respiração funda, a marca antiga de um chupão que já amarelava no pescoço, cabelos metade castanhos escuros e grisalhos, que desciam peloa costeleta emendando com a barba por fazer. Por um momento quis acreditar que o mundo lá fora podia esperar. Que a gente tinha direito a mais algumas horas só de casa, vinhedo e corpo. O telefone dele vibrou na mesa de cabeceira. Clarke abriu os olhos na hora. Não era o toque de alguém qualquer. Eu vi a forma como o maxilar dele endureceu antes mesmo de atender. A conversa foi curta, em italiano rápido, a voz baixa. Quando desligou, ficou alguns segundos parado olhando a tela. — O que foi? Ele se sentou na beira da cama, as costas nuas viradas para mim. — Informações novas sobre aquela noite. A noite da bebida. O nome não precisou ser dito. Cecil. O estômago revirou. Eu me levantei tamb

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    Mary AnneO carro subiu a estrada de cascalho com o barulho familiar das pedras sob os pneus. Eu reconheci cada curva antes mesmo de vê-la. A fileira de ciprestes à esquerda. O portão de ferro forjado que Clarke abria com o controle remoto. O cheiro que entrou pela janela entreaberta do carro, terra úmida, folhas de videira, um leve toque de fumaça distante de alguma queimada controlada. Eu fechei os olhos por um segundo e respirei fundo. — Chegamos enfim ao nosso lar — Clarke falou, a voz baixa. Não era só uma frase. Era um alívio. A mansão apareceu no alto da colina exatamente como eu lembrava, e ao mesmo tempo diferente. As paredes de pedra pareciam mais douradas sob a luz da tarde. As janelas da suíte principal estavam abertas, as cortinas brancas balançando. Alguém (provavelmente a empregada que Clarke mantinha em tempo parcial) tinha preparado a casa. Havia vasos de lavanda fresca na entrada. Descemos do carro em silêncio. Clarke tirou as malas do porta-malas sem pressa. Eu

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    Mary Anne O avião já tinha cruzado a costa há um tempo. Lá embaixo o mar se estendia como um tapete escuro e brilhante. Eu segurava a taça de champanhe com as duas mãos e olhava pela janela, o corpo ainda carregando o cansaço gostoso da noite anterior, do casamento, do almoço em família e da madrugada inteira em que Clarke me fez pagar cada segundo da abstinência. Os músculos das coxas reclamavam. O pescoço ardia nos lugares onde ele tinha chupado forte demais. Eu sorria sozinha. Ao meu lado, Clarke estava inclinado sobre o tablet. O sorriso no rosto dele era pequeno e distraído. De vez em quando ele aumentava o zoom em alguma foto. — Vem cá — ele chamou baixinho. Eu me incline. Na tela havia imagens da festa: a fogueira, Magda descalça, Anthony com cara de quem tinha desistido de lutar, as crianças correndo, eu de vermelho com o véu sendo levantado. Ele parou numa foto em que eu estava rindo de cabeça jogada para trás, as moedas do vestido capturadas no movimento. — Você e

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