FAZER LOGIN~~ Leon~~
Eu estava retornando para casa após uma consulta médica, com a cabeça a mil. Meu celular tocava o tempo todo com problemas do trabalho; minha funcionária também ligava para se queixar das atitudes da minha filha. Naquele momento, eu não queria saber de nada, nem falar com ninguém. Estava mentalmente exausto e precisava ficar um tempo sozinho.
Passei algum tempo dirigindo sem rumo até que, após muita insistência, atendi a um dos telefonemas de Vera, minha governanta.
— Leon, você poderia conversar com a Luana? Estou há horas tentando convencê-la a tomar banho. Ela não quis almoçar porque queria batata frita e não tinha, e ainda atirou o copo de suco longe… O senhor terá que mandar lavar o estofado das cadeiras — disse ela, exausta.
Massageei as têmporas, respirando profundamente.
— Eu estou chegando, Vera. Não se preocupe.
Ela se calou no telefone por um momento.
— Tudo bem.
Em alguns minutos, cheguei em casa e Vera veio rapidamente ao meu encontro.
— Não estava trabalhando? Que milagre é esse, conseguiu voltar mais cedo?
Forcei um sorriso.
— Resolvi passar um tempo com a Lulu.
Vera abriu um sorriso satisfeito. Virei-me para ir ao encontro da minha filha, porém ela me chamou mais uma vez.
— Leon, hoje, quando estava caminhando rumo à parada de ônibus, conheci uma moça que está precisando de emprego…
Parei para ouvir, já sabendo onde ela queria chegar.
— Comentei com ela sobre a vaga para babá e ela me deixou o currículo. É estudante de medicina… Não tem muita experiência como cuidadora, mas me pareceu ser esforçada.
— Tudo bem.
— Seja breve, filho. Não estou dando conta sozinha. A Luana demanda muita atenção, tem me dado trabalho. Eu já tenho idade e…
— Tudo bem, Vera, já falei. Deixe o currículo no meu escritório que depois dou uma olhada.
Dei de ombros, ciente do trabalho que minha filha vinha dando. Eu sabia que Vera, de fato, não estava dando conta. Ela trabalhava comigo há muitos anos — mais precisamente desde a minha infância, tendo sido funcionária dos meus pais. Era uma senhora de idade e só permanecia ao meu lado por consideração, pois já devia ter se aposentado.
Quando cheguei ao quarto da minha filha, que, para minha infeliz surpresa, estava acompanhada da avó, Luana abriu um largo sorriso.
— Papai, você chegou! — disse, abrindo os braços.
Sorri aproximando-me e a peguei no colo.
— Posso saber por que a senhorita anda desobedecendo tanto à Vera?
— Não apenas à Vera. Fiz de tudo para que comesse e ela sequer tocou na comida — minha madrasta murmurou.
— Vou ter uma conversa com essa mocinha — falei, fazendo cócegas nela, que riu.
— Você passa muito a mão na cabeça dela, por isso ela age dessa forma.
— Tudo bem, eu sei como lidar com ela.
— Eu estive pensando, querido… Talvez seja bom para vocês se eu vier morar aqui.
— Imagina, não precisa se incomodar.
— Minha neta passa muito tempo sozinha, sendo cuidada por empregados e enfermeiros. Além do mais, precisa de uma figura materna… Logo ela será uma moça, Leon. Não pensa nisso?
— Irei contratar uma nova babá, já estou resolvendo isso.
— Babá? Não estou falando disso, e você sabe, Leon. Ela precisa de alguém que seja presente, que vá estar ao lado dela sempre… Por que não aceita minha proposta e me dá, de uma vez, a guarda da minha neta?
Eu sabia que, de certa forma, ela tinha razão, mas também conhecia suas reais intenções: tudo não passava de interesse financeiro.
— Isso está fora de cogitação.
Carla bufou.
— Bom, faça como achar melhor…
Minha mãe biológica faleceu quando eu ainda era um bebê e, cerca de um ano depois, meu pai se casou com Carla, que acabou me criando e me ensinando a chamá-la de mãe para agradá-lo. Porém, quando teve seu filho biológico, passou a me tratar com diferença, enciumada pela atenção que meu pai me dava. Só era uma mãe carinhosa e dedicada na frente dele.
Meu velho havia falecido há cerca de seis anos. Ele deixou para mim a empresa que um dia construiu ao lado da minha mãe e me preparou a vida inteira para assumir a direção. Quando minha mãe partiu, 50% das ações que lhe pertenciam se tornaram minhas. Em contrapartida, quando meu pai morreu, suas ações foram divididas entre os dois filhos; logo, meu meio-irmão herdou 25%, o que não agradou minha madrasta, pois me tornei o sócio majoritário e ela jamais aceitou que eu fosse superior a ele.
Assim que Carla se retirou e ficamos a sós, sentei-me na beira da cama. Luana imediatamente desviou o olhar. Todos diziam que eu a mimava e não impunha limites, mas minha filha tinha apenas quatro anos, havia perdido a mãe de forma trágica em um acidente de carro que a deixou paraplégica e, desde então, vivia presa a uma cadeira de rodas, sem poder levar a vida de uma criança comum.
— O que está acontecendo? Por que não quis comer? Não deixou que te dessem banho… E que história é essa de arremessar o copo de suco?
Ela apenas balançou a cabeça em negação. Eu sabia que Luana fazia tudo isso para chamar atenção e que eu estava sendo ausente, principalmente após a partida da minha esposa. Mas minha cabeça também estava uma bagunça, e eu usava o trabalho como válvula de escape.
— A comida estava muito ruim. Eu queria batata frita.
— As coisas não podem ser sempre da forma que você quer. Você sabe que deve obedecer a quem estiver cuidando de você. Combinado? E a comida da Vera é muito gostosa. Se eu souber que voltou a ter esse tipo de comportamento, terei que te deixar de castigo.
Ela apenas concordou com a cabeça, com uma carinha triste.
— O papai vai contratar uma nova babá. Vou procurar alguém legal, não se preocupe.
— Hmm… — Luana desviou o olhar.
— Agora, vou chamar a Vera e você vai para o banho.
Dessa vez, minha filha obedeceu sem retrucar e, uma vez banhada, nos reunimos para fazer um lanche. Durante o resto do dia, busquei dar atenção a ela e, mais tarde, também jantamos juntos, algo que já não acontecia há algum tempo.
— Já estou indo, Leon. Nos vemos amanhã — Vera se aproximou ao finalizar seu expediente. Notei que estava cansada; sua rotina em minha casa vinha sendo exaustiva e, mesmo pagando um salário muito acima do convencional, às vezes eu sentia que ela estava prestes a desistir.
— Eu te levo — ofereci. — Pode ficar com a Luana, mãe? — Perguntei à minha madrasta, que havia ficado para jantar conosco.
— Claro…
Lancei um olhar de aviso para Luana e me retirei com Vera, para que ela não tivesse que se desgastar ainda mais pegando ônibus. Durante o trajeto, o assunto que eu tanto temia veio à tona.
— Eu preciso descansar, filho.
— Quer uns dias de folga?
— Não é isso. Eu amo o senhor e a sua família, mas realmente chegou o momento de parar.
Suspirei.
— Tem certeza? A senhora é a pessoa em quem mais confio. Não me vejo encontrando outra pessoa assim.
Vera abriu seu doce sorriso.
— Deu uma olhada no currículo da menina que falei?
— Não, acabei esquecendo, mas amanhã mesmo ligo para ela. Também posso contratar uma pessoa para os afazeres domésticos e a senhora fica apenas coordenando o trabalho delas. O que acha?
Ela soltou uma risadinha e me olhou de forma terna.
— Não quero que minha filha fique com qualquer pessoa… — falei, abaixando a cabeça para esconder as lágrimas que preencheram meus olhos. — Se eu morrer amanhã, o que será dela? Não sei se posso confiar na Carla.
Vera balançou a cabeça positivamente, entendendo-me perfeitamente, pois inúmeras vezes havia presenciado o que passei nas mãos daquela mulher.
— Tudo bem, pode ser assim. Eu te entendo.
Sorri aliviado, conversando mais um pouco antes de parar na porta do prédio onde ela morava. Era um bairro da periferia que eu não tinha o hábito de frequentar. Acabei me perdendo no trajeto de volta e parei ao avistar uma moça para pedir informação, mas, para minha surpresa, era uma jovem que se debruçou na janela do meu carro, oferecendo-se.
Num primeiro momento, fiquei inerte com a situação inesperada. Mas, quando a analisei, enxergando sua extrema beleza, acabei cedendo à tentação. A mulher tinha cabelos ruivos naturais, belos olhos azuis, pele clara levemente corada nas bochechas e lábios carnudos.
Não pude deixar de notar que em seu rosto não havia maquiagem e suas roupas eram simples; ainda assim, ela era naturalmente atraente. Já fazia mais de um ano que eu não tocava em uma mulher, e há tempos não sentia a necessidade que me consumiu naquele momento. Vi nisso uma oportunidade de ocupar a mente e relaxar. Sem pensar muito, deixei que ela entrasse no carro e partimos para um motel.
Era uma manhã de sábado banhada por um sol dourado e límpido, típico das manhãs mais bonitas da primavera nos campos da Serra. No interior do quarto principal da nova sede, Luana estava de pé em frente ao imenso espelho de moldura rústica. Suas pernas, embora ainda trêmulas pelo esforço hercúleo da reabilitação, sustentavam sozinhas o peso de seu corpo. Ela respirava pausadamente, contemplando o próprio reflexo. O vestido de noiva, confeccionado sob medida, era uma obra-prima no estilo sereia: a renda francesa abraçava suas curvas com delicadeza e estendia-se em uma cauda fluida que tocava o chão, contrastando perfeitamente com a intensidade de seus longos cabelos castanhos, que caíam em ondas sobre os ombros.— Será que ele vai gostar, mãe? — Luana perguntou, a voz embargada pelo nervosismo. Suas mãos apertavam o tecido do vestido enquanto ela piscava repetidamente, tentando conter o choro para não borrar a maquiagem impecável.Isadora aproximou-se por trás, com os olhos brilhando de
Os dias foram passando , trazendo consigo uma atmosfera de renovação que há muito tempo a mansão dos D’Avila não experimentava. A pequena Lis já estava em casa, e sua presença doce mantinha os avós e tios completamente deslumbrados. No jardim da casa, observando Erick carregar a filha cuidadosamente em um passeio matinal, Priscila aninhou-se de lado contra o peito de Luan, com os olhos brilhando diante da cena.— Dá até vontade de fazer um também... Não dá, meu amor? — ela comentou em um tom manso, provocando o noivo com um sorriso de canto.Luan soltou uma risada ruidosa, dando um beijo no topo da cabeça dela antes de responder com seu habitual humor ácido: — Dá... Dá sim, minha vida. Ainda bem que é uma vontade que logo passa.Priscila deu um tapinha leve no peito dele, e os dois riram juntos, aproveitando a calmaria dos últimos dias.Enquanto isso, aproveitando as semanas que antecediam o parto, Luana, Miguel e Dona Rosa fizeram uma viagem de retorno para o Rio Grande do Sul. A m
Meses depois…No grande salão de convenções da D’Avila Forensics toda a elite empresarial e forense do país estava reunida. Era o dia da grande transição de poder. No canto do lounge VIP, Luan ajustava o nó de sua gravata de seda, o olhar fixo no vidro do espelho, absorto em seus próprios pensamentos.— Hoje é o dia que você sempre sonhou, meu amor. Não está feliz? — Priscila aproximou-se do noivo com um sorriso doce, envolvendo a cintura dele com os braços ao notar que ele se isolou do burburinho da festa.— Feliz como nunca, minha linda... — Luan soltou um suspiro, girando o corpo para encará-la. — Só estou com um medo absurdo de não dar conta do recado. Medo de decepcionar o meu pai depois de tudo o que ele construiu.Priscila sorriu com ternura, erguendo o rosto para beijá-lo com carinho nos lábios. — Eu tenho a mais absoluta certeza de que você vai ser um líder ainda melhor do que o mestre..Luan soltou uma risada nervosa, o peito aliviado pela presença dela, quando a figura impo
Os dias foram passando e Leon D’Avila cumpriu sua palavra. Ele enviou um representante legal da empresa direto para a o Sul para dar continuidade nos trâmites de compra da imensa propriedade. Uma vez que todas as certidões foram minuciosamente analisadas e os gargalos jurídicos resolvidos pelos advogados, o representante finalizou o negócio. O valor de vinte milhões de reais foi transferido à vista, como combinado, estabelecendo em contrato o prazo improrrogável pedido pelo vendedor de até dois meses para a desocupação total e entrega do imóvel.O representante de Leon mal pisou fora da imensa casa de alvenaria da fazenda, e Fabiana se aproximou do pai a passos rápidos no escritório.— E então, pai? Deu certo? O dinheiro já entrou? — ela questionou, ajeitando os cabelos loiros com ansiedade.— Deu sim, filha... Com esse montante eu quito todas as minhas dívidas e ainda nos sobra uma boa quantia para que possamos recomeçar em outra província — o Senhor Dornelles respondeu, soltando um
No dia seguinte, a família viajou de volta para São Paulo. Ao cruzarem os portões da mansão dos D’Avila, Isadora e Leon fizeram questão de conduzir Dona Rosa pessoalmente até uma suíte que havia sido preparada com extremo zelo no primeiro andar.— Esse quarto pertenceu à minha antiga babá, a senhora que foi como uma segunda mãe para mim — Leon explicou, abrindo a porta de madeira maciça. — Depois que ela faleceu, não tive ânimo para desmontar nada, acabou virando um quarto de visitas comum. Mas a Isadora e eu mandamos reformar e redecorar tudo especialmente para a senhora, para que tenha sua total privacidade e fique confortável durante sua estadia conosco.Miguel trocou um olhar cúmplice com Luana, sorrindo satisfeito e profundamente grato pelo respeito e carinho que a família dela demonstrava com ele e com sua mãe. Dona Rosa deu alguns passos para dentro da suíte, correndo os olhos pelas cortinas de linho e pelos detalhes elegantes.— É simplesmente lindo, senhor Leon. Estou muito
A partida dos D’Avila de volta para a capital paulista, deixou para trás uma promessa silenciosa de retorno. Luana precisava retomar suas consultas médicas e dar andamento ao internato da faculdade, mas Miguel e Dona Rosa ainda tinham pendências a alinhar.Na manhã seguinte, o movimento era calmo na pequena venda de Dona Rosa. Miguel reabastecia uma das prateleiras altas com fardos de farinha, enquanto a mãe organizava o caixa. Foi quando o som do sinete da porta ecoou e um homem cruzou o umbral.— Miguel! Mas que alegria te encontrar por aqui, vivente! — o homem exclamou com empolgação.Era Bernardo, um antigo capataz e colega de lida dos tempos em que Miguel trabalhava como peão na Fazenda Santa Bárbara, a imensa propriedade que pertencia ao pai de Fabiana.— Bernardo! Quanto tempo, parceiro — Miguel desceu da escada, apertando a mão do amigo com um sorriso sincero. — O que te traz por estes lados?— Vim buscar uns mantimentos para a patroa. Mas olha, soube do teu noivado... Meus pa







