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2 - CECÍLIA – QUASE UM CASAL

Autor: Crisfer
last update Data de publicação: 2026-09-28 01:58:00

Volto pra casa ainda com o corpo quente do quase beijo. Meu coração tá batendo descompassado, como se eu tivesse corrido morro acima. O toque da mão dele no meu cabelo, o cheiro, a respiração perto da minha boca… tudo ainda tá fresco. Balanço a cabeça, tentando espantar o sorriso. Não adianta. Tô sorrindo feito uma idiota.

Abro a porta de casa e encontro Arthur sentado no chão da sala, organizando os carrinhos em fila indiana perfeita. Ele levanta a cabeça quando me escuta e inclina um pouco o rostinho, me observando.

— Mamãe tá sorrindo — ele diz, simples e direto.

— Tô? — finjo surpresa, fechando a porta atrás de mim. — Deve ser porque eu tô vendo o menino mais lindo do morro.

Ele dá um sorrisinho tímido, mas continua me encarando, com um olhar daqueles olhares que parecem ler minha alma. Arthur é assim: pouco fala, mas quando fala, acerta em cheio.

Me jogo no chão ao lado dele e começo a fazer cócegas na barriguinha. Ele se contorce, rindo alto daquele jeitinho rouco que eu amo. Logo estamos os dois rolando no chão, eu fazendo aviãozinho com ele no colo, ele tentando prender meus cachos com as mãozinhas pequenas. Por alguns minutos o mundo lá fora desaparece. É só eu e ele. Meu centro, meu motivo pra tudo.

— Mamãe, para! — ele pede entre risadas, mas já tá puxando minha blusa pra eu continuar.

— Só se você me der um beijo primeiro.

Ele planta um beijo babado na minha bochecha e eu me derreto. Esse menino é meu calmante e minha loucura ao mesmo tempo. Depois de um tempo, sento com ele no colo, abraçando seu corpinho quente. Ele se acomoda, encostando a cabeça no meu peito, e ficamos um tempinho assim, em silêncio. Arthur é o único que consegue me trazer paz no meio dessa correria toda.

Mais tarde, enquanto preparo os bolos de pote na cozinha, meu celular vibra em cima da mesa. É o Urso.

📲 Urso: Princesa, ficou chateada comigo hoje? Desculpa ter saído correndo daquele jeito.

Sorrio feito boba de novo, limpando as mãos no pano de prato antes de responder.

📲 Eu: Chateada nada. Só fiquei com cara de boba esperando o beijo kkkk

📲 Urso: Kkkkk porra, me ferrei. Quase te beijei ali mesmo. Tava louco pra isso. Amanhã eu compenso. Quero te ver. Tarde toda só nós dois. Topa?

Fico olhando pra tela, mordendo o lábio. Meu coração dá cambalhota.

📲 Eu: E o que a gente vai fazer nessa tarde toda?

📲 Urso: Segredo. Mas prometo que vai gostar. Te busco ou te mando localização?

📲 Eu: Manda localização. Mas não me faz passar vergonha, hein.

Ele manda uma sequência de emojis rindo e de coração. Depois escreve:

📲 Urso: Tu nunca passa vergonha, Cecília. Tu é diferente das outras. Quero ficar contigo sem pressa, tá ligada?

Leio a mensagem várias vezes. “Diferente das outras.” Será que é verdade? Ou só papo de homem que sabe o que falar? Balanço a cabeça, tentando não surtar. Guardo o celular e volto pros bolos, mas minha cabeça tá longe, imaginando como vai ser esse encontro.

Deito mais tarde com o Arthur já dormindo na minha cama. Fico olhando o teto, relembrando as palavras da Jéssica. “Tu tá apaixonada por um homem que nem te pediu em namoro.” Ela tem razão. Jurei pra mim mesma que não ia mais me envolver com esse mundo de bandido depois do Ismael. Mas o Urso… ele me faz sentir vista. Desejada. E isso tá me deixando com medo. Medo de sofrer de novo, medo de ilusão, medo de colocar o Arthur em risco. Ainda assim, o sorriso não sai do meu rosto. Tô ferrada.

---

Na manhã seguinte, o corre corre recomeça cedo. Levo Arthur pra terapia a pé, descendo o morro com ele segurando na minha mão. Ele vai quietinho, segurando o carrinho vermelho que leva pra todo lugar. O sol já tá quente, o morro acordando com cheiro de pão e café.

— Tá animado pra terapia hoje, amor?

— Sim. A tia vai brincar com os blocos de montar.

Sorrio, apertando a mãozinha dele. A terapia é cara pra caralho. Todo mês eu aperto o orçamento, faço mil bicos, durmo tarde montando potes de bolo. O SUS é uma loteria, e eu não posso esperar. Quero dar o melhor pro meu filho. Às vezes escuto comentários velados das pessoas: “coitadinha, mãe tão nova”, “deve ser difícil criar sozinha um menino assim”. Finjo que não escuto e sigo em frente. Sou boa nisso: sorrir e aguentar.

— Se comporta direitinho, a mamãe tá aqui se precisar. — Deixo Arthur com a terapeuta, dou um beijo demorado nele.

Sento na recepção, pego o celular e faço a divulgação dos bolos nos grupos do morro e rede sociais.

---

No caminho de volta, esbarro com a Jéssica.

— Menina! Tá com cara de quem ganhou na Mega-Sena — ela diz, rindo.

Conto tudo, animada, quase pulando:

— Ele me chamou pra sair hoje à tarde! Disse que quer passar a tarde toda comigo, Jess. Tá parecendo coisa séria.

Ela ri, mas me olha com carinho.

— Finalmente o Urso vai assumir, hein? Mas vai com calma, Cê. Não entrega o coração logo de cara não. Tu merece ser pedida em namoro, não ficar nessa de “quase”.

— Eu sei… mas ele tá sendo tão diferente. Tô tentando não criar muita expectativa.

Jéssica baixa o tom, olhando pros lados:

— Falando em expectativa… soube que o Fera apareceu ontem no morro. Todo mundo ficou em alerta. Dizem que ninguém sabe quem ele é de verdade. Ninguém nunca viu o rosto dele direito. Mas quando ele dá ordem, até os caras mais pesados abaixam a cabeça. É tipo um fantasma que manda em tudo.

— Gente, que doideira — comento, balançando a cabeça. — Medo de um homem que vive escondido? Eu nem ligo pra essas coisas. Isso não me interessa.

— Ele pode ser o dono do morro. — ela diz dando de ombros.

Faz mesmo sentido o Urso ter ido dar atenção a esse tal de Fera, se ele for mesmo o dono do morro. Mas mudo de assunto rápido. Não quero pensar em perigo, em tráfico, em nada disso. Hoje eu quero sonhar.

Volto pra casa e começo o ritual de me arrumar. Tomo banho caprichado, passo creme no corpo todo. Fico na frente do espelho do quarto experimentando roupas. O vestido florido azul? Muito infantil. O preto justo? Muito “quero te pegar”. Escolho um meio-termo: um short jeans que valoriza minha bunda e uma blusinha cropped branca simples, mas que marca bem a cintura.

— Arthur, com qual roupa a mamãe fica mais bonita? Essa ou o vestido vermelho?

Ele tá sentado na cama, me observando com atenção. Aponta pro vermelho sem hesitar.

— Vermelho. Combina com seu sorriso mamãe.

Eu rio alto, surpresa.

— Menino, tu tá ficando charmoso, charmoso igual a mamãe!

Troco de roupa rindo, passo um perfume docinho que guardo pra ocasiões especiais e prendo parte dos cachos, deixando alguns soltos no rosto. Me olho no espelho e respiro fundo. Tô bonita. Tô nervosa. Tô esperançosa.

O celular vibra.

📲 Urso: Tô te esperando, princesa. Vem logo que tô ansioso.

Sorrio pro reflexo. Meu coração tá a mil.

— Deseja sorte pra mamãe, Arthur?

Ele levanta o polegar, sério.

— Sorte, mamãe.

Dou um beijo nele, entrego ele pra vizinha que vai ficar de olho enquanto eu saio, e respiro fundo antes de abrir a porta.

Caminho pelo morro em direção ao local que ele mandou, o sol batendo no meu rosto, o vento bagunçando meus cachos. Tô leve, animada, acreditando que esse encontro pode ser o começo da história de amor que sempre sonhei. Um amor de verdade. Seguro. Meu.

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