Share

A VERDADE 4

last update publish date: 2026-09-04 07:08:38

O tempo pareceu parar dentro da sala de fisioterapia.

O relógio de parede continuava marcando os segundos com um tique-taque constante, mas nenhum dos dois parecia capaz de ouvi-lo.

O mundo do lado de fora permanecia em movimento.

O vento balançava as cortinas, o latido distante de Chico misturava-se ao canto dos bem-te-vis e, ao longe, um trator cruzava lentamente a estrada de terra que levava aos cafezais.

Ainda assim, toda a realidade parecia comprimida naquele pequeno espaço onde duas v
Continue to read this book for free
Scan code to download App
Locked Chapter

Latest chapter

  • NOS CAMPOS DO DESTINO - Algumas histórias Nunca Acabam.   ORGULHO TAMBÉM DESTRÓI FAMÍLIAS

    O amanhecer chegou silencioso à Fazenda Santa Aurora. Uma névoa fina cobria os campos, escondendo parcialmente as cercas e os pastos que pareciam emergir lentamente conforme os primeiros raios de sol atravessavam o horizonte. O cheiro de terra úmida misturava-se ao aroma do café recém-passado que escapava da cozinha da casa-grande, enquanto os peões iniciavam mais um dia de trabalho. O som das botas sobre o cascalho, o ranger dos portões dos currais e os relinchos dos cavalos devolviam à fazenda a rotina de sempre. Mas, dentro da casa, ninguém conseguia agir como se fosse um dia comum.Raul já estava acordado havia horas. Não pregará os olhos durante a noite inteira.Permanecera sentado no escritório até quase o amanhecer, olhando fotografias antigas e tentando imaginar o rosto de Miguel em cada lembrança da infância que vivera ao lado do pai. Quando finalmente deixou o cômodo, o cansaço estampava-se nas olheiras profundas e na barba que começava a crescer sem o cuidado habitual

  • NOS CAMPOS DO DESTINO - Algumas histórias Nunca Acabam.   O PESO DOS NOVE ANOS 2

    Perfeito.Mariana permaneceu sentada na beira da cama, observando o filho dormir. A luz prateada da lua desenhava contornos suaves sobre o rosto de Miguel, revelando uma expressão que alternava momentos de tranquilidade com pequenos sinais de inquietação. Em alguns instantes ele franzia discretamente a testa, murmurava palavras incompreensíveis ou apertava o lençol entre os dedos, como se sua mente continuasse tentando organizar tudo o que aconteceu durante o dia. Aquele comportamento não era comum. Desde pequeno, Miguel sempre dormira profundamente. Bastava deitar a cabeça no travesseiro para mergulhar em um sono tranquilo, consequência das longas brincadeiras ao ar livre e da segurança que sempre encontrou ao lado da mãe. Naquela noite, porém, nem mesmo a inocência da infância fora capaz de protegê-lo da confusão que se instalara em seu coração.Mariana deslizou delicadamente a mão pelos cabelos do menino, repetindo um gesto que fazia desde o dia em que ele nascera. Quantas v

  • NOS CAMPOS DO DESTINO - Algumas histórias Nunca Acabam.   O PESO DE NOVE ANOS

    A noite caiu lentamente sobre a Fazenda Santa Aurora, cobrindo os campos com uma escuridão tranquila que contrastava com o caos instalado dentro da casa-grande. As primeiras estrelas surgiam no céu limpo enquanto uma lua quase cheia iluminava os pastos, desenhando sombras compridas sobre as cercas de madeira e fazendo o orvalho começar a se formar sobre a relva. Os peões já haviam encerrado o trabalho do dia. O barulho dos tratores dera lugar ao canto ritmado dos grilos e ao som distante dos cavalos se movimentando nas baias antes de adormecerem. Para quem observasse a fazenda de fora, tudo parecia em perfeita ordem. A propriedade respirava paz. Apenas quem estivesse dentro daquela casa perceberia que nenhuma daquelas pessoas conseguiria dormir naquela noite.Raul permanecia sozinho no antigo escritório de Damião. A única iluminação vinha do abajur sobre a mesa de madeira maciça, cuja luz amarelada deixava o ambiente ainda mais silencioso. À sua frente, estavam espalhados álbu

  • NOS CAMPOS DO DESTINO - Algumas histórias Nunca Acabam.   PAI 2

    Miguel permaneceu olhando para Raul como se tentasse guardar cada detalhe daquele rosto para sempre. Seus olhos percorriam lentamente os cabelos já marcados por alguns fios grisalhos, a barba cuidadosamente aparada, o brilho úmido que insistia em permanecer em seus olhos e, por fim, pararam nas mãos grandes que repousavam sobre os braços da cadeira de rodas. Sem compreender exatamente por quê, sentiu que aquelas mãos lhe pareciam familiares. Não porque as conhecesse, mas porque, de alguma maneira impossível de explicar, transmitiam a mesma sensação de segurança que experimentava quando Raul o ajudava a subir em Ventania ou corrigia a posição de seus pés durante as primeiras aulas de montaria.O menino respirou profundamente. Seu coração continuava acelerado, mas o medo que sentira nos primeiros instantes começava a dar lugar a uma curiosidade intensa. Durante anos imaginara aquele encontro de inúmeras formas. Pensava que, se um dia conhecesse o pai, faria centenas de perguntas.

  • NOS CAMPOS DO DESTINO - Algumas histórias Nunca Acabam.   PAI

    O desenho escapou lentamente dos dedos de Miguel e deslizou até o assoalho de madeira, onde permaneceu aberto entre os pés do menino e as rodas da cadeira de Raul. Nenhum dos quatro pareceu notar. A sala de fisioterapia mergulhou em um silêncio tão profundo que o tique-taque do relógio preso à parede tornou-se quase ensurdecedor. Do lado de fora, a Fazenda Santa Aurora seguia seu ritmo habitual. O vento atravessava os eucaliptos espalhando o perfume da terra aquecida pelo sol, os peões conduziam o gado para outro pasto enquanto suas vozes se misturavam ao canto dos pássaros, e, ao longe, um cavalo relinchou ao reconhecer outro animal no piquete vizinho. A vida continuava exatamente como sempre continua, indiferente ao fato de que, dentro daquela sala, uma família inteira acabava de renascer.Miguel permaneceu completamente imóvel. Seu pequeno peito subia e descia num ritmo acelerado, enquanto seus olhos percorriam lentamente o rosto de Raul, como se procurassem nele alguma respo

  • NOS CAMPOS DO DESTINO - Algumas histórias Nunca Acabam.   O MENINO NA PORTA 2

    A pergunta de Miguel permaneceu suspensa no ar, simples e inocente, mas pesada o suficiente para fazer o coração dos três adultos perder o compasso. O menino continuava parado no centro da sala, segurando o desenho já amassado entre os dedos. Seus olhos percorriam o rosto da mãe e, em seguida, o de Raul, tentando encontrar alguma explicação para as lágrimas que insistiam em permanecer ali. Clara aproximou-se devagar do pai e segurou sua mão com a delicadeza de quem ainda acreditava que todo sofrimento podia ser resolvido com um abraço. Ela também não compreendia o que acontecia, mas sentia que alguma coisa muito importante havia mudado.Mariana inspirou profundamente, mas o ar pareceu insuficiente. Durante nove anos, sempre que imaginava aquele momento, acreditava que conseguiria conduzi-lo com calma, escolhendo cada palavra, preparando Miguel aos poucos para uma verdade tão grande. Agora, diante do filho, percebia que a vida não respeitava roteiros. A verdade chegava quando de

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status