LOGINAnnaCruzamos a porta de vidro da delegacia central com o passo firme, embora o meu estômago estivesse revirado em nós invisíveis. Na recepção, o advogado especialista em direito penal contratado pelo corpo jurídico dos Bianchi já nos aguardava com uma prancheta nas mãos, revisando as últimas diretrizes com seriedade.Fomos conduzidos diretamente à sala privativa do delegado Ricardo. O ambiente era sóbrio, iluminado pela luz fria dos fluorescentes e pelo zumbido constante de um ar-condicionado antigo. Sentei-me em uma das cadeiras metálicas, sentindo a coxa de Matteo colada à minha no encosto ao lado, oferecendo-me a muralha invisível de segurança de que eu tanto precisava.Prestámos o depoimento oficial.Relembrar cada segundo daquele cativeiro foi como rasgar uma ferida que mal começava a cicatrizar. Tive que detalhar o terror dos primeiros minutos, o modo como o cativeiro estava estruturado, a frieza ameaçadora de Mário, a tensão sufocante de cada hora contando o tempo até o resgat
AnnaAssim que a porta lateral da sala de audiência se fechou atrás dos guardas que levaram Mário para o inferno particular dele, o silêncio pesado do tribunal começou a se dissipar, dando lugar ao burburinho abafado de advogados e oficiais recolhendo suas pastas.Matteo caminhou a passos largos na minha direção. O seu rosto, antes endurecido pela fúria de ver o tio, suavizou-se no instante em que os seus olhos azuis se cravaram nos meus. Ele abaixou-se levemente, segurou as minhas mãos com uma delicadeza infinita e beijou os nós dos meus dedos, como se quisesse apagar qualquer vestígio físico ou mental daquele pesadelo.Logo atrás dele, o delegado Ricardo aproximou-se, ajeitando a pasta de couro sob o braço com uma expressão séria, mas visivelmente aliviada pelo desfecho.— Anna... parabéns pela postura lá dentro — disse Ricardo, cumprimentando-me com um aceno respeitoso de cabeça. — Mas preciso te lembrar de uma formalidade burocrática: ainda precisamos colher o seu depoimento ofici
AnnaA porta dupla de madeira pesada se abriu com um estalo seco, e o ar-condicionado da sala de audiência pareceu congelar ainda mais o meu sangue. Mas, desta vez, não era o frio do medo. Era a adrenalina pura de quem caminhava de cabeça erguida para ver aquele indivíduo tirano ruir.Assim que dei o primeiro passo para dentro do recinto, o meu olhar se cravou diretamente na mesa da defesa.Mário já estava lá, sentado ao lado do seu advogado, vestindo um terno cinza e ostentando aquela postura soberba de quem acreditava ser dono do mundo. No entanto, no milésimo de segundo em que os seus olhos escuros e gélidos pousaram em mim, toda a sua fachada de arrogância desmoronou.A cor fugiu do rosto dele instantaneamente. A boca de Mário se abriu ligeiramente, e os seus olhos se arregalaram em uma mistura grotesca de pânico, horror e descrença absoluta.Ele estava me vendo ali. Inteira. Vivia. Elegante. Segurando a mão de Matteo com uma firmeza inabalável.Naquele preciso instante, vendo a s
AnnaNo fundo, eu sabia exatamente como dobrar o Matteo. Depois de tudo o que enfrentamos e de cada segundo de pavor naquele cativeiro, ele jamais conseguiria me manter trancada dentro do apartamento enquanto a vida do nosso maior inimigo era decidida. O ódio e o desprezo que eu sentia por Mário não me deixavam outra escolha: eu precisava estar lá. Precisava olhar nos olhos daquele monstro e ver o exato momento em que a sua ilusão de impunidade ruiria.Quando estávamos prestes a cruzar a porta de saída, abaixei-me devagar para me despedir do Matt. O Golden Retriever encostou o focinho quente na minha mão, soltando um resmungar baixo como se soubesse que estávamos indo fechar um ciclo sombrio.Nesse mesmo instante, o celular de Matteo tocou no bolso do seu paletó. Ele tirou o aparelho, olhou o visor e atendeu direto no viva-voz enquanto me ajudava a ajustar o casaco.— Fala, Jonas — disse Matteo, a voz grave e profissional.Era o Jonas — o dono da agência, o chefe do meu chefe. A pesso
Matteo Eu não preguei o olho nem por um segundo. A mistura de ódio pelo Mário e o alívio avassalador de ter a Anna viva nos meus braços me manteve em alerta total. Ela dormia profundamente, com a cabeça apoiada no meu peito, a respiração calma e ritmada quente contra a minha pele. Uma das minhas mãos não parava de acariciar os seus cabelos, enquanto a outra segurava o celular no modo silencioso. Uma mensagem de Luca piscou na tela. Meu irmão me avisava que já havia alinhado tudo com o nosso corpo jurídico e que nos encontraríamos diretamente no tribunal. Coloquei o aparelho na mesa de cabeceira com cuidado, sem mover o corpo para não despertá-la, e fiquei ali, apenas observando a beleza dela. — Se continuar me encarando assim, você vai se atrasar, Bianchi... — murmurou Anna, a voz rouca pelo sono, os olhos ainda fechados enquanto se aconchegava mais ao meu corpo. Sorri fraco, selando o topo da cabeça dela com os lábios. — Já estou me levantando, amor. Pode continuar descansando.
MatteoO vapor denso subia rapidamente pelo banheiro, transformando o vidro do box numa parede opaca e criando uma atmosfera quente que finalmente afastava o frio horrendo daquela noite. Quando terminei de abrir o fecho e ajudar Anna a se desfazer do tecido sujo, guiei-a devagar para debaixo do jato do chuveiro.Ela fechou os olhos por um segundo assim que a água morna tocou a sua pele. Ficou ali parada sob o fluxo, soltando o ar devagar, como se a água estivesse lavando não apenas a terra e o sangue seco, mas também o peso invisível de horas de cativeiro. Quando abriu os olhos, encarou-me com um brilho cansado, doce e irresistivelmente manhoso.— Eu preciso de ajuda, amor... — pediu ela num sopro leve, o tom de voz dengoso fazendo o meu peito derreter por completo.— Eu estou aqui — respondi baixo.Despi-me sem pressa, jogando as minhas roupas no cesto, e pisei no box ao lado dela. Peguei a esponja macia, espalhei uma quantidade generosa de sabonete líquido até formar uma espuma dens







