MasukAnna— Anna... Olha aqui! Me escuta! — a voz sussurrada e urgente de Sônia cortou a névoa dos meus pensamentos, puxando-me com solavanco de volta à realidade fria daquele quarto.Pisquei rápido, sacudindo a cabeça para espantar o torpor que tentava tomar conta de mim. A adrenalina do telefonema para o Matteo começava a baixar, deixando no lugar um cansaço físico devastador, mas os olhos de Sônia brilhavam na penumbra com um vigor renovado.— Eu tô aqui, Sônia... tô aqui — respondi num fio de voz, ajustando a postura na cadeira de madeira.— Eu tô quase lá, Anna. Falta muito pouco — disse ela, mantendo a voz grave e pausada. — A fita no meu pulso direito deu uma folga. Chega a sua cadeira para cá. Vamos tentar agora.Sem perder um segundo, inclinei o corpo e arrastei a minha cadeira alguns centímetros pelo assoalho de tábua gasta, tomando um cuidado extremo para que os pés de madeira não fizessem barulho contra o chão. Giramos de costas uma para a outra até que os nossos pulsos voltass
MatteoO ruído seco do sinal cortado ecoou pela caixa de som do celular, deixando um silêncio sepulcral na cobertura de Alessandro. A voz trêmula de Anna e a última frase que ela pronunciou ainda vibravam dentro dos meus ouvidos, martelando o meu cérebro como uma sequência de impulsos elétricos desconexos.Permaneci estático, com as mãos apoiadas sobre a mesa de centro, encarando a tela escura do aparelho enquanto o meu peito subia e descia em arfadas descontroladas.— Conseguimos! — a voz de Hugo quebrou a paralisia do ambiente. Ele bateu com a palma da mão na mesa, apontando para o monitor do notebook. — A ligação durou vinte e dois segundos! O sinal entrou direto por uma torre de transmissão analógica na periferia norte e triangulou com precisão.O delegado Ricardo deu dois passos rápidos à frente, debruçando-se sobre a tela enquanto o segundo perito traçava o mapa na interface de geolocalização.— Temos o quadrante, Bianchi — declarou Ricardo, erguendo os olhos para mim com um bri
AnnaO visor do celular brilhou a poucos centímetros do meu rosto. O capanga pressionou o ícone de viva-voz com o polegar, mantendo a tela erguida na minha direção com uma mão, enquanto com a outra sustentava a pistola com o cão puxado, o cano de ferro gélido colado a milímetros da têmpora de Sônia. Sônia permanecia imóvel, os olhos fixos na parede, a respiração tão rasa que mal parecia viva.Dois toques curtos. No terceiro, o ruído característico da ligação sendo atendida cortou o ar abafado do quarto.— Matteo Bianchi.A voz dele. A voz grave, firme, mas impregnada de um desespero contido que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. Ouvir o tom seco com que ele pronunciou o próprio nome rompeu a última barreira de autocontrole que me sustentava.Um soluço doloroso rasgou a minha garganta, e as lágrimas quentes transbordaram instantaneamente, queimando na minha pele e caindo sobre o vestido.— Anna?! Anna, você está aí?! Meu Deus, Anna, você está bem?! Fala comigo, por favor! — a
AnnaOs meus dedos estavam dormentes, queimando em uma dor dilacerante de tanto esforço. Eu não sentia mais a ponta das unhas, apenas a pressão bruta e o atrito constante contra as bordas ríspidas da abraçadeira de plástico que prendia os pulsos da Sônia. A penumbra do quarto tornava tudo mais difícil, mas a urgência de sair daquele inferno guiava cada movimento cego das minhas mãos presas às minhas próprias costas.Apoiando os braços no encosto de madeira da cadeira de Sônia, forcei as mãos com todo o peso do meu corpo, usando o relevo gasto da madeira para criar alavanca.— Força, Anna... devagar, sem fazer barulho — sussurrou Sônia, mantendo o pescoço esticado e os ouvidos atentos a qualquer ruído no corredor. — Se você conseguir folgar a ponta da trava do lacre, a estrutura cede.Respirei fundo, sentindo o suor frio escorrer pela minha testa e pingar no chão. Com os dois polegares rígidos, empurrei com uma força desesperada a trava de plástico da abraçadeira dela. Senti a pele dos
Matteo — Nós precisamos agir agora — declarou o delegado Ricardo, a voz firme e cortante quebrando o silêncio tenso que pairava sobre a sala. Ele caminhou até o centro do escritório, encarando-nos com uma gravidade absoluta. — Cada minuto que passamos aqui parados, congelados pelo pavor, é um minuto a mais que entregamos de bandeja para o controle do Mário. É exatamente isso que sequestradores experientes querem: paralisar a vítima pela chantagem e pela incerteza. Engoli em seco, ajeitando a postura e encarando-o com os olhos ainda ardendo. — Não vamos envolver a polícia, Ricardo — reiterei, o tom rasgado pela exaustão e pela fúria. — Se um único carro de patrulha encostar na área ou se o Mário desconfiar de uma investigação oficial, acabou. Ele cumpre a ameaça. — Eu já disse que não há viaturas nem registros oficiais, Bianchi — respondeu Ricardo, cruzando os braços. — Mas continuar aqui na sede da ArmorRout é um tiro no pé. O Mário pode ter olhos aqui, funcionários e recepcionista
MatteoA voz metálica e rouca de Mário ecoou pelo alto-falante do meu celular com uma calmaria sádica que me revirou o estômago. O ar no escritório parecia ter congelado instantaneamente. Alessandro prendeu a respiração ao meu lado, enquanto Emma e Sofia abafavam os soluços cobrindo a boca com as mãos, os olhos arregalados de puro pavor. O delegado Ricardo permaneceu imóvel, a expressão afiada de quem analisava cada inflexão daquela chamada.— Buonasera, meu querido sobrinho... — debochou Mário do outro lado da linha, o tom arrastado e cínico. — Espero que já tenha começado a movimentar os seus advogados e que o Luca já esteja preparando as malas da minha esposa. O relógio está correndo... e a sua amada não é muito fã de ambientes escuros.O meu sangue fervendo subiu diretamente para a cabeça. A fúria cega quase atropelou o resto de juízo que me sobrava. Avancei contra a mesa, apoiando as duas mãos sobre a madeira escura e me curvando sobre o aparelho:— Seu desgraçado! Fala quanto vo







