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capítulo 3

last update publish date: 2026-05-02 20:50:52

Aperto o cinto de segurança, saio para a estrada e, no próximo cruzamento, viro à esquerda no último instante. Um impulso me atinge com a velocidade de uma bomba nuclear, como se meu executor pessoal tivesse apertado o botão vermelho dentro de mim. Prometi que não voltaria a procurá-lo, que não subiria voluntariamente na roda da morte e deixaria o passado zombar dos ossos das minhas memórias, mas, novamente, como uma mariposa atraída pela chama, minhas asas são chamuscadas. Estou cometendo este ato de pura destruição contra a minha própria vida, mas preciso dele, porque pelo menos assim sei que estou viva.

O túmulo do Rafael fica em uma parte remota do cemitério. Um grande monumento de granito branco: um losango irregular, sobre o qual repousa um anjo chorando. É visível de longe. Agarro o lírio branco que comprei no caminho e digo a mim mesmo para não chorar. Talvez, se espíritos realmente existem, o fantasma dele esteja perturbado porque a responsável por sua morte polui o ar com seu hálito e salga a pedra com suas lágrimas.

Aproximo-me, a poucos metros de distância, mas um ombro masculino forte emerge da densa vegetação de hera ornamental. Paro, tentando descobrir quem poderia ser. Rafael não era particularmente sociável, mais um solitário como eu. Não conheço uma única pessoa de seu círculo que viria ao seu túmulo assim, não em um aniversário e sem motivo aparente.

Ninguém, exceto uma pessoa, a quem odeio tanto quanto temo. Mas simplesmente não pode ser ele.

Dou o próximo passo com muita ousadia, ignorando deliberadamente minha intuição, que não apenas me diz, mas grita, como um pecador na fogueira, que preciso correr o mais rápido possível.

E estou quase pronto para ouvi-la, porque algo naqueles ombros largos sob a camisa preta me parece vagamente familiar, e porque, em resposta aos meus passos cautelosos, ele vira a cabeça de um jeito... o que monstro faz aqui, do outro lado do oceano?

Eu congelo, porque das sombras sob seus cabelos castanhos levemente ondulados, um perfil nítido e preciso emerge: um nariz delicadamente esculpido, lábios teimosos, um queixo proeminente coberto por uma barba por fazer. E as sombras de seus cílios tremem sobre suas maçãs do rosto como uma espécie de escrita infer*nal.

De onde ele veio?!

Dou um passo para trás, porque não estou pronta. E duvido que algum dia estarei. Para encontrar meu executor pessoal.

E algo estala sob os meu sapato, clicando, como a fechadura de uma jaula de Cérbero na qual acabei de entrar.

Ele se vira, enfiando as mãos nos bolsos de suas calças elegantes: pernas longas, esguio, magro e esculpido como um puro-sangue. Tão... insuportavelmente perigoso que movo minha bolsa da lateral para o estômago e a agarro com as duas mãos.

Gabriel. M*aldito seja.

— Você está parecendo uma mendiga. Ele saboreia cada palavra de humilhação, demorando-se, apreciando a forma como suas palavras penetram minha compostura como o veneno da raiva.

Ah, sim, Gabriel sempre foi um mestre em humilhar pessoas. Ele identificava seus pontos fracos na primeira tentativa, reconhecia infalivelmente o limite do aceitável e sempre — sempre! — o ultrapassava, só por diversão, só para ver seu bullying reduzi-las a nada.

— O que você está fazendo aqui? Pergunto com uma voz surpreendentemente calma.

Gabriel ergue uma sobrancelha, inclina-se ligeiramente para a frente, me achatando com um único olhar. Ele tem olhos... São âmbar claro, surpreendentemente brilhantes contra seu rosto moreno. Os olhos de um anjo m*aligno.

Feche esses olhos imundos! Grita meu subconsciente aterrorizado, mas eu apenas aperto minha bolsa com mais força.

— Estou aqui no túmulo do meu irmão, sua va*dia. O que mais? Ele responde em um rosnado baixo.

Então ele beija o indicador e o dedo médio dobrados, pressiona-os contra o mármore salpicado de folhas e diz, claramente não para mim:

— Descanse em paz, Rafa.

E quando tento me distanciar, ele me prende com uma única palavra:

— Pare.

Senhor, se ouvires as preces da tua filha negligente, salva-me e protege-me.

Gabriel

Ela está tão perto que consigo ver a artéria do pescoço pulsando.

Um pescoço branco, salpicado de pequenas pintas, tão fino que eu poderia torcê-lo facilmente com uma mão. E ela é tão... desajeitada, magra, como um pardal faminto.

E o olhar dela é o mesmo, apesar dos olhos serem enormes: cauteloso, como olhar para uma be*sta automática engatilhada. E você espera, espera o disparo — o tiro que vai te atingir em cheio no estômago.

Kira, a safada. Embora eu sempre a chame de "Kira, a P*uta" para mim mesmo, e ela não mereça outros nomes.

Minha imaginação evoca vividamente uma imagem dela, crucificada em uma mesa de cirurgia, se contorcendo enquanto eu carimbo essas palavras em sua bu*nda magricela com a minha própria mão, e a tentação de lhe dar um presente de casamento desses é tão forte que preciso colocar as mãos nos meus bolsos.

— O que você está fazendo aqui? Ela pergunta, com mais firmeza do que pretendia.

Sempre foi assim com a Kira: desde o primeiro dia em que o Rafa a trouxe para nossa casa, ficou claro que ela ia arruinar tudo, quebrar tudo, nos arrastar pela lama, porque alguém como ela pertence ao bordel mais barato da Tailândia, onde uma noite com uma garota custa menos que um hambúrguer em uma lanchonete comum. Não consigo imaginar por que ela não encontrei alguns caras legais naquela época que lhe proporcionassem férias inesquecíveis. Só por alguns dias, talvez uma semana. Para que a criaturinha fosse despedaçada como um cão de caça, para que se lembrasse do seu lugar para o resto da vida.

E bem na hora em que me preparo para alcançá-la, a coisa levanta o queixo e, em vez de ouvir os seus instintos de autopreservação e ao menos tentar escapar, de repente caminha direto para mim. Ou melhor, passa por mim, em direção ao túmulo. Coloca a flor na lápide e começa a murmurar... Que dia*bos ela está murmurando? Uma oração?

Segurei seu cotovelo, rápido demais para a Kira prever. Eu não conseguiria fazer isso sozinho, porque até mesmo tocar sua pele é insuportavelmente repugnante. É como pegar um fio desencapado e minha palma queima instantaneamente.

— Cale a boca, por*ra. Sibilo em seus olhos cerrados e praticamente a arrasto para longe, para longe do lugar que não deveria ser profanado por seu hálito e cheiro.

Ela não resiste, mas m*al consegue mover os pés, acompanhando meu passo rápido. Paro quando um muro de pedra surge diante dos meus olhos, os túmulos ficando para trás. Sou ateu, um Anticristo, porque adoro minha própria fé, que não inclui nenhuma baboseira sobre perdão, dar a outra face ou "não pecar mais", mas até eu respeito a paz dos mortos.

Abro meus dedos e solto a mão mole de Kira. Pelo canto do olho, percebo que Kira esconde a mão atrás das costas, fazendo uma careta ao ver a pulseira vermelha em sua pele. Um vestígio da minha saudação grosseira.

— Se eu te vir aqui de novo, vou te enterrar do lado dele. Prometo, sem nenhuma hipocrisia.

Va*dia magra e pálida... sorrindo? Ela está falando sério? Como se eu tivesse prometido cobri-la de pôneis arco-íris, sorrindo?!

— Então vá pegar uma pá, Gab. Responde Kira. 

Ela perdeu completamente o medo, p*uta me*rda.

— Cave uma cova. Para depois. Para você não ter que se preocupar com isso depois.

Gab? Ela me chamou de Gab? Com aquela boca imunda de pu*ta, como se tivesse algum direito moral de fazer isso.

E eu sou mais rápido que ela de novo: aperto suas bochechas com os dedos, empurrando-os para dentro, até o fundo, até os dentes, até que seus olhos verdes se encham de lágrimas.

— Como você me chamou? Agora, diga de novo.

— Eu-não-tenho-medo-de-você, Gab. Ela diz, palavra por palavra, como se estivesse falando com um louco.

E, sinceramente, não sei por que ainda a deixo respirar.

Meus dedos se abrem, e esse gesto definitivamente está fora do meu controle. É como se um enorme semáforo piscasse na minha cabeça, me avisando que essa criaturinha rastejou para dentro da minha pele de novo e atingiu algo que está doendo há muito tempo.

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