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Capitulo 2

last update Tanggal publikasi: 2026-05-02 20:36:51

Kira

A cor do meu vestido de noiva tem um nome muito romântico: "rosa acinzentado".

O estilista tira as medidas finais, prende o tecido restante nas costas e rabisca uma anotação em seu caderno sobre a necessidade de mais uma camada de tecido sob a pesada saia de seda com sua cauda incrivelmente longa.

— Acho perfeito. Diz ele em um tom deliberadamente pomposo, claramente satisfeito com o seu trabalho.

Seguro as minhas saias e saio para o salão. Todas as minhas amigas estão aqui comigo, embora para mim "todas" signifique apenas duas: Vera e Yulia. Yulia, como sempre, ergue uma sobrancelha com ceticismo, porque é quase impossível agradá-la, enquanto Vera simplesmente b**e palmas com entusiasmo e exclama:

— Você é como uma verdadeira princesa de conto de fadas.

Dou voltas à vontade na frente delas, virando de costas e de lado para que possam examinar o meu vestido verdadeiramente lindo. É uma pequena alegria na qual me derreto feliz, sentindo uma gota de felicidade se transformar em um gole de champanhe no meu estômago, as bolhas enviando uma sensação de formigamento pelas minhas veias. Um "porém": para esconder a queimadura, tive que escolher um modelo de mangas compridas, e está um agosto quente e úmido, e depois de alguns minutos, minha pele sob o tecido grosso começa a coçar intensamente, como se estivesse sendo queimada de novo. Mas o casamento é daqui a três semanas, e Dima e eu estamos torcendo para que setembro seja tradicionalmente frio. Algum dia terei coragem de exibir essa coisa feia no meu braço, mas definitivamente não no meu próprio casamento.

— E os sapatos? Yulia acena para os meus pés, ainda calçados com sapatilhas de balé simples. — Será que o Príncipe Encantado vai mesmo te dar sapatos de cristal?

— Você é uma chata. Vera a cutuca com o cotovelo e depois me diz: — Só ignora ela. Ela está com ciúmes.

Somos amigas desde a escola. Estudamos juntas no ensino médio, fomos para a mesma universidade e nos formaremos juntas no ano que vem. Nada fora do comum. Seremos professoras.

—  Continuo perguntando. E os sapatos? Yulka folheia preguiçosamente uma revista de moda, de repente congela e até para de mascar chiclete. Ela enrola a revista de volta e a vira para mim. — Seu.

Uma única palavra, mas estou pronta para estrangulá-la, porque não existe "meu", porque só quem é mais próximo, que sabe exatamente onde dói, pode atingir o ponto mais vulnerável assim. E Yulka faz isso de propósito, porque ainda acha que casar com Dima é uma ideia estúp*ida, já que ele é tio dele. Tio do meu Rafael...

— Ah...

A foto em preto e branco na página dupla me atinge em cheio no coração, revirando-o do avesso com seu olhar pesado e cru*el. Um olhar que faz você querer se proteger com as mãos, como se fosse uma m*aldição. E é simplesmente uma zombaria, porque no rosto familiar de uma pessoa morta há muito tempo, esses olhos parecem completamente estranhos, como se tivessem sido roubados de outra pessoa. Um olhar e, talvez, um sorriso cru*el.

Gabriel. Que ironia do destino: um homem com o nome de um anjo acabou sendo um verdadeiro de*mônio. Pelo menos para mim. Um verdadeiro pesadelo, que eu, uma pessoa caseira e dedicada, odeio com todas as minhas forças.

— Você é completamente estúp*ida? Vera arranca a revista das mãos de Yulka, fecha-a com força e a coloca bem no fundo da pilha sobre a mesa.

Yulka dá de ombros, e eu me viro rapidamente para o espelho. Tento me recompor, repetindo mentalmente minhas palavras queridas: é passado, já se foi, preciso deixar para lá e seguir em frente. Fecho os olhos, respiro fundo e sorrio, sabendo que, quando me olhar no espelho novamente, não serei mais uma jovem assustada de vinte anos, mas sim uma garota inteligente, prestes a se formar com honras, praticamente a esposa de um político famoso.

E ninguém jamais me dirá isso...

Abro os olhos e Gabriel está ali, atrás de mim. Com um gesto familiar e repugnante, ele inclina a cabeça para o lado, de modo que seus cabelos castanhos com mechas bronzeadas caiam sobre os olhos, e profere silenciosamente aquela mesma frase m*aldita: quanto você vale, seu verme do beco? Eu te compro, só deixe meu irmão em paz.

— Nunca. Cerro os punhos. — Nunca, nunca, nunca você se atreverá a me machucar de novo.

E expiro, porque sim. Ele não pode. Não tem jeito. Afinal, ele teria que atravessar o oceano de avião, no mínimo.

— Não dê ouvidos a ela, ela só está irritada porque tudo com o Igor está incerto de novo. Diz Vera enquanto saímos do salão depois da prova de roupa. — Agora eu só preciso voltar aqui semana que vem, para o ensaio geral. A Yulka vai se acalmar e pedir desculpas, e vai até ficar com inveja de mim.

Enquanto caminhávamos atrás dela, Yulka passou na nossa frente, gritando alto ao telefone. Ela gritava que estava farta de tudo, que as coisas não podiam continuar assim, que estavam piorando a cada dia. E eu fiquei paralisada a cada palavra, porque tudo era tão parecido com aquela noite, com a nossa discussão, depois da qual me tranquei no primeiro quarto que encontrei e chorei por um longo tempo, enterrando o rosto no travesseiro. O que eu disse a ele naquela hora? Não me lembro de cada frase, mas assim como Yulia está gritando com o namorado agora, eu gritei na cara do Rafael: tem alguma coisa errada aqui, sabia?!

— Desculpa, mas eu... Parei e vi o olhar confuso da Vera. Tínhamos combinado de ir a um café e fazer algo que não fazíamos há muito tempo: nos divertir com um encontro casual.

— Kira, vamos lá. Minha amiga tentou me convencer.

Dou-lhe um beijo rápido na bochecha, peço-lhe que se despeça de Yulka por mim e saio correndo antes que eu comece a chorar copiosamente no topo da Rua Andreyevskaya. Rafael sempre dizia que eu era uma chorona inveterada, e guardava um lenço no bolso do paletó. Ele também ria de mim por chorar tanto em melodramas dramáticos quanto em desenhos animados infantis.

Esconde-me dentro do Nissan que Dima me deu, coloco as mãos no volante e, cansada, encosto a testa nele. Em algum lugar aqui, bem no centro, uma enorme e lancinante sensação de culpa pulsa. Por ter dito aquelas palavras no calor do momento, por ter cedido a um impulso. Por querer terminar o namoro por algo trivial que nem me lembro mais. E por Rafael ainda ter ido me procurar, mesmo com a casa já em chamas. E por ter morrido tentando abrir a porta, que por algum motivo estava trancada por fora.

— Você pode conviver com isso, logo vai passar. As palavras de desespero da minha mãe voltam à minha memória. Ela repetia essas palavras quase o tempo todo que passava ao lado da minha cama na unidade de queimados.

Dois anos se passaram, mas nada sarou.

O telefone, como uma tábua de salvação, literalmente me arrasta pela nuca para longe dessas lembranças dolorosas. É o Dima: perguntando como foi a prova do vestido e se estou satisfeita com tudo.

Ele me lembra que vamos jantar com os amigos dele e que na sexta-feira vamos para Bali passar o fim de semana inteiro com eles.

Dima... Ele é um bom homem. Ele me tirou de um lugar do qual geralmente não há volta. E o que nos une é muito mais forte do que o amor.

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