FAZER LOGINEle debocha, agarra as minhas bochechas e abre a boca bruscamente, como se eu fosse um peixe engolido por sua isca astuta, que ele extrairá até do meu estômago, não importa se isso dilacera meus pulmões e laringe. Sinto fisicamente ele me puxando, me guiando e me atormentando, e com seu beijo venenoso, ele me despedaça por dentro. E engole com prazer minhas tentativas patéticas de impedi-lo com seus lábios.
— Não! Eu o chuto... e olho nos olhos atônitos de Dima, a quem quase empurrei do sofá.
— Kira, eu... eu sinto muito, droga. Ele esfrega a ponte do nariz, faz uma careta e se levanta.
Só respiro aliviado quando o meu espaço pessoal está agradavelmente vazio novamente. Deus sabe, eu quero amá-lo, quero dar a ele o que ele merece, porque nenhum homem no mundo teria feito tanto por mim quanto ele. Mas toda vez que tentamos nos aproximar, algo acontece. Somos como dois roedores em bolas de plástico: batemos um no outro, fingindo que isso é intimi*dade física suficiente e que estamos perfeitamente felizes. Mas, na realidade, é muito mais complicado.
Principalmente hoje, agora, porque esse impulso nasceu do ódio e do medo, não do amor. E porque naquele breve momento, naquela fração de segundo, suficiente para o nascimento de uma Partícula de Tudo, eu me senti viva.
— Não estou te pressionando, tá bom? Dima procura em meu rosto sinais de perdão, e eu corro para ele para enterrar meu rosto em seu ombro.
Porque ele pode ver ali algo que retorce meu interior e enche minha alma de ódio, só que desta vez. Por mim mesma.
Meu psicólogo diz que foi o fogo que me encheu de um desejo de autodestruição. E, pela primeira vez em dois anos, não consigo contestar suas palavras, porque qualquer mulher normal no meu lugar já teria fugido do Anjo da Morte há muito tempo, mas eu, contra toda a lógica, espero escapar dele viva.
— Só preciso deitar um pouco. Digo hesitante, tropeçando nas palavras, porque pretendia culpar o cansaço das aulas, mas no último instante me lembrei de que tinha fugido com as minhas amigas depois da segunda aula.
E minha mentira desajeitada parece tão óbvia que corro para as escadas, para não olhar para trás e ver o homem que acabei de insultar sem querer com um beijo que era para outra pessoa.
Espero, Gabriel, que um dia você enfrente seu próprio monstro pessoal, e que ele devore seu coração imundo antes mesmo que você consiga respirar.
Gabriel
Estou praticamente preso no hotel o tempo todo.
Eu, um festeiro, um tarado e um fo*dão incansável, tenho saído por cinco dias seguidos só para pegar uma gostosona e transar com ela até ela não aguentar mais. E não me importo com o que chamam de "vad*ia"; a única coisa que importa é que a garota seja gostosa, não se preocupe com "só uma vez e depois a gente nunca mais se vê" e tenho camisinhas de sobra.
Porque aconteceu que naquela noite, depois que eu e a Kira nos encotramos, acordei molhado e com uma ereção tão dolorosa que eu queria uivar para a lua como um lobisomem. Fiquei deitado na cama, me balançando de um lado para o outro como se estivesse em choque, cercado pelos sons fantasmas da voz dela e pelo cheiro das suas lágrimas, e nada adiantava até eu me recompor.
Eu go*zei. Simplesmente ejaculei na minha mão e fiquei ali deitado, encarando o teto, sem saber o que me deixava mais inquieto: o sêmen endurecendo na minha barriga, formando um ponto pegajoso e frio, ou a visão dos olhos dela, verdadeiros kriptonitas, no último instante antes daquele orga*smo "manual". Eu apenas aceitei. E imaginei como se fosse ela quem estivesse me fazendo um bo*quete, olhando para cima, me sugando para dentro da sua boca quente, apertando meu pa*u com tanta força com as bochechas que eu queria morrer naqueles lábios imundos.
E a partir desse sonho, tudo desandou rapidamente. Era como se eu estivesse no topo de uma montanha-russa e, de repente, começasse a cair para trás, e o céu, que estivera tão perto, torcesse meu dedo do meio e desejasse ardentemente que ele se espatifasse na ignorância.
Uma vez, me meti numa briga com uns garotos meio burros, mas bem armados e apavorados, um dos quais achou que um tiro à queima-roupa seria uma boa resposta ao meu pedido para me dar um bo*quete. A bala atravessou meu corpo, e tive a sorte de escapar apenas com um leve susto, mas jamais esquecerei a sensação de um pedaço de aço afiado me queimando, como uma agulha atravessando uma boneca de massinha.
Até aquela noite, eu tinha certeza de que nada poderia ser mais repugnante.
Acontece que talvez não fosse algo físico, mas simplesmente o olhar dela enquanto eu go*zava em completo silêncio, em uma cama vazia.
Juro, se a Kira, a Prost*ituta, estivesse por perto, eu a teria estrangulado.
Mas, felizmente para minha mãe e para o alívio da minha reputação nada estelar, Kira morava do outro lado da cidade, e nossos caminhos nunca mais se cruzaram.
Até sexta-feira, quando a minha mãe ligou, deixando escapar sem querer sobre meu tio e sua viagem para as ensolaradas ilhas tropicais. Naturalmente, com a sua noiva. E, claro, minha mãe a odeia tanto quanto eu, porque o perdão é tabu na nossa família desde a época do meu pai, que nos ensinou, a mim e ao meu irmão, a sempre revidar.
Ela não sabe o que Kira fez nem como conheceu Rafael, e eu guardo esse segredo apenas em memória do meu irmão e porque não quero manchar a imagem dele. Para ela, ele sempre será uma cópia amenizada do meu pai, porque Rafael herdou tudo dele. Como costumávamos brincar, ele até roubou os meus olhos, porque na nossa família de brancos, eu sou o único de cabelo e pele mais escura.
Descobrir exatamente onde meu tio levou a boneca foi moleza. Algumas ligações para as pessoas certas e eu sei de tudo, até o bangalô que ele reservou para o fim de semana inteiro.
Políticos só acham que são bons em se esconder, mas, na realidade, a vida deles é uma longa e frenética luta entre dois vidros sob o microscópio de um jornalista.
A última coisa que faço antes de embarcar no avião é pegar uma acompanhante. Aquela que, sem hesitar, aceita transar por dinheiro.
Uma égua forte, quase tão alta quanto eu, com uma bun*da empinada de agachamentos, peitões e uma faixa de pelos pubianos bem cuidada, cor de chocolate.
Transo com ela no avião pelo menos três vezes. Acima das nuvens, fazendo piadas sujas sobre como tínhamos conquistado o "ápice do se*xo".
— Você parece tenso.
Uma boa garota, ela aceita tudo na boca: fica de lado e empina a bun*da para que eu possa dar uns t***s com a mão toda. Ela se esforça como uma profissional, até chegar à garganta. Aliás, ela é uma profissional.
E quando jogo a cabeça para trás para me perder naqueles lábios treinados, o único pensamento que me atormenta é o de matar completamente qualquer desejo de go*zar. Porque eu quero uma boca completamente diferente.
Por que diab*os você não me deu, Kira?
Empurro a cabeça da garota para longe, mesmo que ela esteja se esforçando e consiga gemer mesmo comigo na boca, mas eu não preciso dela agora. Não dela, não dessa transa vazia, que será apenas mais uma descarga no espírito das três primeiras.
— Qual é o seu nome? Pergunto à garota enquanto ela ajeita a roupa e se senta na cadeira à minha frente, retocando a maquiagem de forma imediata, sutil e experiente em questão de minutos.
— Sarah. Ela sorri, erguendo brevemente os olhos do espelho de mão. Outra mulher teria se ofendido, mas esta não se importa. Ela já se acostumou?
Mas, que diferença faz?
— Então, qual é a nossa história de fachada? Ela pergunta um pouco depois, dando um gole no champanhe que a aeromoça lhe trouxe.
Gabriel— Você ainda não ganhou peso nenhum, Kira. Digo a primeira coisa sensata que consigo pescar no meio da multidão de pensamentos obscenos na minha cabeça.É um m*aldito caso de *déjà vu*. Ela está fugindo de novo, e eu a estou seguindo por algum motivo m*aldito, trancando-me no banheiro a sós com ela. Normalmente, é exatamente assim que eu acabaria transando de forma selvagem e sem compromisso: encontro uma égua gostosa e desinibida, pago um coquetel caro, deixo ela saber que sou bem-dotado — e a conduzo para o banheiro para fodê-la até ficar totalmente esvaziado.Mas com a Kira... eu na verdade enfio as mãos nos bolsos da calça, porque tocá-la seria como acariciar uma gata sarnenta no cio. Ela pode até achar que é inalcançável, independente e feita de pedra, mas toda mulher emite sinais fáceis de perceber. Respiração ofegante, olhos semicerrados, lábios entreabertos. E gotículas de água tremendo em seus cílios claros.Droga, não — Gabriel, sua mente está indo pelo caminho errad
Kira— Consegui arrancar um presente de casamento do Varfolomeev. Yulya anuncia triunfante após o terceiro brinde.M*al comi alguma coisa, então minha cabeça já está girando um pouco. Dou um gole minúsculo — ou melhor, apenas encosto os lábios no vinho Moscatel doce e frisante.— Vamos voar para as ilhas tropicais! Por dez dias! Yulya gesticula com tanta empolgação que quase derruba um prato da mesa. — Um resort cinco estrelas com tudo incluído — três piscinas, uma delas de água salgada! Um spa!Engulo em seco, tentando conter uma onda de lembranças indesejadas que — como guerrilheiros — começam a invadir minha mente por todos os lados. A praia, a areia, o som das ondas e o ar com gosto de frutas tropicais — tão doce que minha visão fica turva. E aquele beijo voraz e avassalador — do tipo que me fazia querer chorar e caminhar voluntariamente para o abismo.Sinto um m*al-estar comigo mesma por não conseguir me alegrar verdadeiramente pela minha amiga em um momento tão importante. Porqu
KiraSeis meses depois…— Me pediram para te entregar isso.Levanto os olhos do tablet e deparo-me com um lindo buquê de rosas cor de caramelo, decorado com um balão, quase como um presente de casamento. Vera coloca um elegante cartão de visitas ao lado.— E aí? Minha amiga insiste, batendo o dedo impacientemente num pedaço de papelão, como se estivesse invocando um gênio da lâmpada. — Pelo menos veja quem mandou!Sinceramente, não estou interessada, mas para satisfazer a sua curiosidade, continuo olhando.Alex Morozov. O fotógrafo mais estiloso, que está fazendo sucesso no Instagram com os seus ensaios fotográficos impressionantes, destacando os bumbuns firmes das mulheres. Ele se especializa em fotografia erótica, e todo mundo, de cantoras a modelos e bailarinas, quer as suas fotos para seus portfólios. Mas ele próprio parece o sonho de qualquer fotógrafo: coberto de tatuagens, com um corte de cabelo estiloso, atlético e tão sarado que poderia estrelar um comercial de academia. — Qu
Gabriel— Não me toque! Some daqui com os seus cremes, eu não sou criança!Minha mãe bufa e estende a mão para passar um cotonete com antisséptico no meu lábio machucado. Consigo me virar, pulo de pé e aponto para a porta:— Saia daqui! E aí?!— Você precisa de um médico. Ela responde calmamente, sentando-se de forma demonstrativa no sofá e cruzando as pernas. — Não vou a lugar nenhum até ter certeza de que a vida do meu único filho não vai acabar por causa de uma infecção generalizada.— Você se importa? Eu respondo bruscamente.— Não, desde que cheguei aqui e aguentei o seu mau-humor por meia hora. Você é igualzinho ao seu pai.— Bem, pelo menos em alguma coisa, senão você ia achar que eu sou um órfão.— Eu ficaria feliz em ir embora, até para os confins da Terra, mas estou simplesmente apavorado. Então, pelo menos posso admitir isso para mim mesmo. Tenho medo de que esta m*aldita ilha seja pequena demais para que eu e Kira sintamos falta um do outro, e se eu a vir de novo, então...
KIRACaio silenciosamente de uma grande altura para dentro do meu próprio corpo.Talvez seja por isso que não sinto os meus braços nem as minhas pernas, apenas o arame farpado em volta do meu coração, apertando tanto que o som da pele perfurada estalando me faz sangrar lágrimas.Gabriel crava os dedos na areia, respirando pesadamente, enquanto Dima circula acima de mim e me envolve cuidadosamente numa capa. Ela está coberta de areia e arranha a minha pele, mas me deixa um pouco mais sóbria, porque estou completamente embriagada por aquele beijo.E o pânico sobe pela minha garganta novamente, ameaçando se transformar em outro ataque.Estou com medo, porque o que aconteceu foi uma revelação pessoal enviada de cima.Pela primeira vez em dois anos, sobrevivi a um ataque sem o spray. Eu estava morrendo. Sentia o meu coração, como um corredor desesperado, mas azarado, ainda tentando lutar contra a longa distância, mas se transformando em pedra a cada batida.E de repente — o gosto do ódio n
GabrielEla jaz aos meus pés como uma sereia: pálida, magra, com os cabelos como se tivessem crescido na areia. E respira com dificuldade, porque correu tão rápido que m*al consegui acompanhá-la. E por que a persegui? Quem poderia responder a uma pergunta tão simples? Não tenho a menor ideia. Só me resta uma desculpa tolerável para aquela parte de mim que quer esmagar essa praga e não hesitará em usar todos os meios necessários: "oficialmente", eu fui atrás de Kira, aproveitando-me da sua condição para pegar uma e terminar o que a minha mãe começou — acabar com ela.Mas não consigo.Simplesmente não consigo nem tocá-la enquanto ela emite esses sons, como se estivesse respirando por um tubo entupido de terra. Preciso ajudá-la a se levantar, garantir que não tenha convulsões e aproveitar essa desculpa para processar a minha mãe por abuso emocional.— Vá embora. Pede Kira, sem se virar. — Só vai embora. Você veio aqui para me provocar, não foi? Amanhã de manhã sou todo sua.Quero dizer a







