Masuk~ Alicia ~
Engoli em seco ao ver toda a amplitude daquele homem, parado à minha frente com a mão estendida em minha direção.
Ainda trêmula, segurei a mão dele, e Jack me virou de frente para o espelho novamente.
— O que você vê? — Uma mulher feia, descuidada, com um corpo horrível e…
Eu tinha uma resposta pronta na minha cabeça, pois repetia isso para mim todo santo dia, mas ele me cortou e aproximando-se um pouco mais, olhou nos meus olhos através do espelho, colocando um dedo nos meus lábios, calando-me.
— Isso é o que você realmente vê ou o que alguém te falou um dia?
— Como você sabe que…
— Sua amiga me explicou. Apenas responda…
— Sim, é como me vejo — respondi, convicta.
— E se eu disser como te vejo, você vai acreditar em mim?
Ele me virou novamente para o espelho, e eu balancei a cabeça, concordando.
— No momento em que eu te vi pela primeira vez, fiquei encantado com o seu sorriso… E seus olhos verdes, como lindas esmeraldas, são estonteantes… Você é linda, Alicia.
Me surpreendi, mas sequer fui capaz de sorrir. Estava claro que ele só queria me consolar.
— Olha, isso é realmente gentil da sua parte, mas até agora você só falou do meu rosto. Já meu corpo…
Jack desviou o olhar e abriu aquele sorriso maligno que me tirava dos eixos.
— Eu adoraria poder dizer tudo que penso, mas fico com medo de te assustar ou ser indelicado...
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— Porque você sabe que tenho razão! — Resmunguei, saindo da frente do espelho, decidida a sumir dali.
— Não! Porque você é gostosa pra caramba... E, se você quiser, posso falar com detalhes tudo que eu penso. Só preciso do seu sim!
"Ele realmente me acha atraente?", pensei, dessa vez chocada.
— Pode falar… — Praticamente exigi, sem acreditar no que estava ouvindo.
— Me perdoe a indelicadeza, mas, antes de olhar nos seus olhos, você estava de costas e não pude deixar de reparar… Você tem um belo traseiro, além das pernas grossas, o quadril largo e os seios fartos… — Ele desceu o olhar pelo meu corpo e umedeceu os lábios, enquanto eu o observava ainda atônita. — Eu me perderia facilmente em meio a tanta fartura.
"Ele só pode estar brincando com a minha cara", pensei, recusando-me a crer.
— Você fala isso, mas, com certeza, não sairia com uma mulher como eu. Deve estar acostumado com mulheres de corpos perfeitos e esculturais, inclusive aposto que existem várias na sua cola!
Ele soltou uma risada presunçosa que me fez bambear.
— Estou acostumado com mulheres, neném. Cada uma com a sua beleza única, e aprecio cada uma delas. Às vezes, o que é rabisco para alguns é obra de arte para outros. Ser diferente do que alguns acham ser o ideal não quer dizer que você não seja perfeita para alguém.
Eu já não tinha palavras para rebater.
— Qual era o seu objetivo quando decidiu pisar aqui na academia?
— Calar a boca do meu ex-marido… — Respondi de imediato.
— Um homem que não valoriza sequer a mulher que tem do lado não é digno da sua preocupação. Independentemente da razão que a fez chegar até aqui, o seu corpo ideal será aquele que a fará sentir-se bem consigo mesma. E não o que eu ou qualquer outra pessoa diga que é, muito menos um babaca qualquer. Se você quiser perder peso porque isso vai te fazer feliz, eu me disponho a te ajudar… Mas, se o seu objetivo é apenas provar algo para alguém, mesmo que eu te ajude, não vamos resolver a real questão. Porque, nesse caso, o seu conflito é interno, então te aconselho a procurar um psicólogo, e não uma academia.
Permaneci olhando para o Jackson, bestificada, e não fui capaz de formular uma resposta coerente. Por mais duras que as palavras dele parecessem, eu sabia que era verdade.
Samanta havia entrado no vestiário há algum tempo, escutou parte da conversa e estava olhando-o tão boquiaberta quanto eu.
— Você quer a minha ajuda? Se sim, você está liberada para treinar comigo o tempo que quiser, gratuitamente... Se não...
— Eu, é... Preciso pensar! — Respondi gaguejando, querendo dizer não, mas ao mesmo tempo sentindo a necessidade de dizer sim. Eu estava em conflito interno.
— Pense com carinho, você não tem nada a perder...
— Ah, ela vai pensar, claro que vai! Nem que eu entre na cabeça dela! — Samanta respondeu por mim, com seu sorriso travesso de sempre.
— Por favor, anote o meu telefone e não hesite em me procurar sempre que precisar.
Jackson passou seu número pessoal e se retirou após acenar brevemente para Samanta.
— Minha nossa, o que foi tudo isso? — Ela falou empolgada, assim que ele saiu de nossa vista.
— Ele falou tanta coisa…
Contei tudo que aconteceu antes de ela chegar, fazendo com que Samanta entrasse em êxtase.
— Amiga, se ele te acha atraente, não é a opinião do seu ex-marido carrancudo que vai importar! E amanhã você volta comigo, quer queira, quer não!
Eu ri, mas logo em seguida me lembrei de que ainda tinha que buscar o David na casa da minha mãe.
— Céus, estou muito atrasada para buscar o David. Vamos!
Cheguei à casa da mamãe 20 minutos depois do horário combinado.
— Me perdoa, mãe, prometo que isso não vai se repetir.
— Não me importo, de verdade. Fico feliz que esteja cuidando novamente de si. — Ela dizia com um sorriso suave.
Mamãe se preocupava muito comigo desde que tudo aconteceu, e eu sabia que ela não se importava em ficar com o neto, pois para ela o mais importante era que eu voltasse a estar bem.
— Mas eu também não quero me ausentar tanto da vida do David. Já basta o pai, que nunca sequer faz uma visita.
— Você está sendo incrível, minha filha, muito guerreira como mulher e mãe… Espero que se permita encontrar um novo alguém que seja merecedor de ter você ao lado.
Sempre que mamãe tocava no assunto, eu desconversava. Estava decidida a nunca mais me envolver afetivamente, porém me traí ao lembrar imediatamente das palavras de Jackson, e inevitavelmente ele veio à minha cabeça.
— É, quem sabe um dia…
— Seja cedo ou tarde, se acontecer, espero que você seja feliz.
Apenas sorri, distraindo-me dos meus pensamentos assim que David chegou, agarrando minha perna.
— Já peguei todas as minhas coisas, mamãe!
— Então vamos nessa, que hoje vai rolar filme e pipoca.
— Pipoca está na dieta?
Acabei rindo.
— Não tenho certeza, mas você vale o risco!
Voltamos para casa e confesso que, ao final do filme que assistimos, eu não fazia ideia do que havia se passado. As palavras de Jackson e o seu olhar inebriante voltavam continuamente em meus pensamentos, e as lembranças, bem como todos os desejos insanos que elas me causavam, me acompanharam pelo resto da noite.
3 meses depois do nosso casamento, dei à luz a Mary, e ver a emoção do Jack ao segurar a filha nos braços pela primeira vez não tinha preço. Nossa pequena tinha os traços do pai, a pele bronzeada e cabelos negros, porém os olhos, esses eram verdes como os meus e do irmão. Ao me olhar no espelho 6 meses depois, certa manhã, analisando meus seios assimétricos devido à amamentação, as olheiras fundas, devido às noites mal dormidas, e os cabelos desarrumados, presos num coque, além das gordurinhas a mais que a gravidez me proporcionou, sorri quando Jack entrou no banheiro com Mary nos braços. — Veja o que temos aqui, minha princesa, se não é a mamãe mais linda e maravilhosa desse mundo! — Falou, beijando-me na testa, e cochichou: — E a mais gostosa.Então percebi que o que tornava um casamento feliz não era o dinheiro, as aparências, ou somente os bons momentos, e sim quem está ao nosso lado e a forma como esse alguém encara cada momento da vida conosco. Afinal, a vida é feita de fases,
Alguns dias se passaram e, certa tarde, Jack chegou em casa após dizer que havia ido trabalhar, extremamente agitado. — Neném, tenho uma surpresa para você… — O quê? — Perguntei curiosa. — Venham comigo… Você e o Bruce também, filhão. — Falou, chamando o David. Todos seguimos e, em determinado momento, ele vendou os nossos olhos. — Vou ajudar vocês a descerem, não olhem agora! Ele pegou David no colo e me apoiou, nos conduzindo a pé, até que parou. — Podem tirar a venda. Quando removi a venda, vi que estávamos dentro de uma linda casa. — Oh, minha nossa! — Uaaau! — E então, o que acharam? Era uma verdadeira mansão. Estávamos parados em um enorme quintal que possuía um belíssimo jardim, mais à frente era possível ver uma piscina e a área de churrasqueira. Bruce farejava o local correndo de um lado para o outro, já deixando seu território marcado com litros de xixi, antes de se atirar na enorme piscina. — Acho que ele aprovou! — Jack dizia rindo. — Isso tudo é... — Gagueje
Acordei apenas pela manhã. Foi quando me dei conta de que estava no hospital e viva, e chorei aliviada ao ver o Jack ao meu lado, debruçado sobre a minha barriga. — Amor... Jack… — O sacudi. Jack abriu os olhos, ainda sonolento, e se levantou rapidamente, me abraçando. — Como você está, meu amor? Eu estava tão preocupado! — Jack, o David! O Robert pegou o David? — Não, ele está bem, está na casa da sua mãe, fique tranquila. — E o nosso bebê? Jack derramou uma lágrima e acariciou o meu rosto. — Falaram que fariam o ultrassom agora pela manhã, mas eu tenho certeza que vai estar tudo bem. — Que mal eu fiz para ele, por que ele me odeia tanto? Jack abaixou a cabeça e desviou o olhar, como se buscasse palavras. — Acabou, meu amor, o Robert não vai mais te perturbar... — Ele foi preso? O que houve depois? Só lembro que ele me amarrou e começou a atear fogo em nossas roupas, e depois disse que ia pegar o David e fugir… Quando eu consegui me soltar, a casa estava inteira em chamas
~~ Jackson ~~Poucos minutos depois que a Alicia saiu, recebi um telefonema da mãe dela que me deixou intrigado. — Oi, querido, como você está? A Alicia está por aí? Liguei no celular dela, mas não me atende. — Oi, dona Neuza, a Alicia já saiu para encontrar com a senhora. Neuza se calou por um momento. — Ah, sim, não sabia que ela viria aqui. — Vocês não combinaram de ir ao banco? — Ao banco? — Sim, a Alicia saiu daqui dizendo que ia ao banco com a senhora. Mais uma vez ela se calou. Então ficou muito bem claro que a Alicia estava mentindo e que a mãe dela não fazia a menor ideia disso, porém nenhum de nós conseguia entender o porquê. Assim que desligamos a ligação, tentei falar com a Alicia, sem sucesso. Ela não atendia e tampouco respondia às minhas mensagens. Por fim, quando já havia desistido, bastante chateado, recebi uma mensagem de Samanta.[Samanta: Jack, não sei se eu deveria estar te contando isso, mas o Robert pegou o David na escola de novo e pediu pra Alicia ir
Robert me olhava de forma diabólica, então me dei conta que não estava para brincadeira.— Se acalme, por favor. Do que você está falando? Vamos conversar! — Supliquei, já apavorada, temendo que ele me fizesse algum mal. — Não se faça de desentendida, sua vagabunda! — Ele berrou, batendo a mão no criado-mudo. — Quer que eu refresque a sua memória? Vamos lá… No dia em que nós brigamos, você meteu a pata na merda do meu celular, que sumiu logo em seguida! — Eu já disse que não vi, eu não peguei esse celular! — Olha na minha cara e diz que você não viu, Alicia! — Ele me puxou pelos cabelos, colando a face na minha. — Me solta, você está me machucando! Me solta! Robert me arremessou novamente, dessa vez no chão. Caí, levando a mão à barriga, preocupada com o meu bebê. — Se não foi você, foi aquele desgraçado! Vocês armaram para mim, me denunciaram! Acabaram com a minha vida! Robert estava transtornado. Logo percebi que David não estava e nunca esteve ali. Ele o usou de isca para me
Tudo ia incrivelmente bem, até que certa manhã, uma ligação inesperada de Maciel me surpreendeu. — Alicia, a audiência foi cancelada. — Cancelada? Por quê? — Longa história. Vocês podem vir aqui em casa para a gente conversar? — Claro! Sendo assim, mais tarde Jack e eu seguimos para a casa de Maciel, sendo recepcionados pela Emilly. — Oi, Alicia… Só com intimação para o Jack trazer você aqui, não é? — É verdade…— Posso saber o que você quer com a minha noiva? — Jack murmurou. — Falar mal de você! O que mais seria? Entrem, o Maciel está esperando… Assim que entramos, os filhos de Maciel e Emilly se aproximaram empolgados por verem Jack, o que não me surpreendeu. — Tio Jack! — Ambos gritaram simultaneamente. — As crianças são loucas nele, acho que se identificam com este crianção… — Emilly provocou. — Concordo! — Falei, dando uma risadinha. — Não tenho culpa se a sua alma é de 80 anos! — Jack retrucou, virando-se para mim na sequência. — A sua não, meu amor, só a dela. En







