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Capítulo 2

Autor: Nuvemzinha
Francisco voltou à uma hora da manhã. Eu estava reunindo as coisas que ele havia deixado na minha casa.

Depois de três anos de namoro, as coisas dele estavam espalhadas por praticamente todos os cantos. Os tênis na entrada, o barbeador no banheiro, o isqueiro perdido entre as almofadas do sofá. Até as almofadas decorativas que eu havia comprado tinham sido trocadas por outras, todas cinzas, como ele gostava.

Quando ouvi a chave girar na fechadura, tinha acabado de colocar o último livro na caixa de papelão.

Francisco parou na entrada, trazendo consigo o frio da madrugada e um leve cheiro de perfume. O mesmo que Amanda costumava usar.

Assim que viu as caixas, sua expressão se fechou.

— Vai começar com isso de novo?

Puxei um pedaço de fita adesiva.

— Amanhã, mande alguém vir buscar suas coisas.

Ele se aproximou e apoiou a mão sobre a tampa da caixa.

— Cristina Moura, eu já te dei uma chance de deixar para trás aquela história do aniversário. Até quando você vai continuar com esse drama?

Ergui os olhos para ele.

— Não estou fazendo drama. Estou tirando suas coisas daqui.

Francisco soltou uma risada indignada.

— Só porque fui ao cinema com a Amanda, você quer terminar comigo? Você mesma viu que todo mundo decidiu isso na votação.

Parei o que estava fazendo.

— Então você acha que não fez nada de errado?

Ele franziu a testa.

— Eu só segui as regras.

As regras. De novo.

Três anos antes, na primeira votação, ele havia dito exatamente a mesma coisa.

Naquele dia, Francisco havia prometido assumir nosso namoro publicamente.

Mas Amanda resolveu criar uma enquete no grupo com a seguinte pergunta: [Se Francisco assumir o namoro agora, isso vai afetar a convivência do grupo?]

[Sim: 15 votos]

[Não: 2 votos]

Ao ver o resultado, Francisco afagou minha cabeça.

— Não faz diferença se a gente assumir o namoro mais tarde. Todo mundo acha que agora não é o momento certo.

Esperei três meses. Então chegou o aniversário de Amanda, e ele publicou nove fotos de uma só vez.

A primeira mostrava os dois juntos. Depois vieram fotos do Ano-Novo, de Amanda sentada no banco do passageiro do carro dele, das datas comemorativas e do primeiro pedaço de bolo.

Vez após vez, meu nome aparecia entre as opções das votações, mas eu acabava sendo deixada de lado.

Peguei meu celular antigo, que guardava como reserva, e abri uma pasta.

Ali estavam 276 capturas de tela que eu havia guardado ao longo de três anos.

Francisco ficou desconcertado por um instante.

— Por que você guardou tudo isso?

Virei o celular para que ele visse a tela.

— Porque tenho medo de acabar cedendo um dia. E de esquecer por que preciso ir embora.

Sua expressão endureceu.

— Cristina, você está ficando cada vez mais cruel com suas palavras.

— Cruel? — Soltei uma risada baixa. — Depois de tudo o que vocês me fizeram passar, me obrigando a ver o número de votos subir diante dos meus olhos, acho que estou sendo até educada.

Francisco desviou o olhar. Depois de alguns instantes, murmurou:

— Antes você não implicava tanto com essas coisas.

— Antes, eu achava que, pelo menos uma vez, você acabaria me escolhendo.

Ele ficou em silêncio. Empurrei a caixa de papelão até seus pés.

— Aquele voto de hoje à noite não foi meu.

Francisco ergueu os olhos, como se eu tivesse acabado de dizer o maior absurdo do mundo.

— Se não foi você, quem mais poderia ter sido?

Não respondi, porque também não sabia. Só sabia que, durante toda a contagem regressiva, nem sequer toquei na tela do celular.

Talvez fosse o último resquício de amor-próprio que me impedia de votar em mim mesma diante de uma sala cheia de gente.

Francisco me encarou por um longo tempo. De repente, chutou a caixa para longe.

— Está bem. Se quer tirar minhas coisas daqui, então tire tudo de uma vez.

Foi nesse momento que a tela do celular dele acendeu. Era uma mensagem de Amanda.

[Francisco, a Cristina já se acalmou? Quer que eu a convide para almoçar amanhã e peça desculpas pessoalmente?]

Francisco nem tentou esconder a conversa de mim. Respondeu quase imediatamente.

[Ela ainda está fazendo drama. Amanhã a gente vê.]

Fiquei olhando para aquelas palavras, tomada por uma vontade amarga de rir. Para ele, eu não estava magoada. Não estava decepcionada. Estava apenas fazendo drama.

Me abaixei, coloquei a caixa de volta no lugar e passei mais um pedaço de fita adesiva para fechá-la.

— Francisco, nosso namoro acabou.

Ele continuou de costas para mim. Depois de um longo silêncio, soltou uma risada fria.

— Quantas vezes você já disse isso? E quantas vezes foi embora de verdade?

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Último capítulo

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