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Capítulo 3

Autor: Nuvemzinha
No dia seguinte, ao meio-dia, minha amiga Letícia Gomes me ligou. Percebi uma leve hesitação em sua voz.

— Cristina, o Francisco acabou de falar comigo. Disse que você esqueceu algumas coisas no clube ontem à noite. Como você não está atendendo às ligações dele, pediu que eu te avisasse.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Letícia logo acrescentou:

— Eu vou com você. Pegamos suas coisas e vamos embora.

Mas, quando chegamos ao clube, encontrei a sala reservada cheia de gente. Letícia também fechou a cara.

Ela soltou um palavrão por entre os dentes:

— Ele me disse que só havia um presente para você aqui. Não falou nada sobre toda essa gente.

Francisco estava sentado à cabeceira da mesa, com Amanda ao seu lado. Ela estava com os olhos vermelhos, como se tivesse passado a noite inteira chorando.

Sobre a mesa havia um pequeno bolo, com as velas já acesas. Assim que me viu, Amanda se levantou.

— Cristina, me desculpe. — Ela se aproximou com uma taça na mão, a voz trêmula. — Eu errei ontem à noite. Não devia ter feito aquela brincadeira com os ingressos de cinema. Você não vai terminar com o Francisco por minha causa, vai?

Francisco ergueu os olhos para mim e disse:

— A Amanda já pediu desculpas. Você também não precisa ficar bancando a difícil. Todo mundo aqui só quer resolver essa história de uma vez por todas.

Mal ele terminou de falar, o telão se acendeu, e alguém ergueu o celular, rindo.

— Então, que tal fazermos como sempre?

Uma pergunta apareceu na tela.

[Cristina deve brindar com Amanda para fazer as pazes de uma vez por todas?]

A contagem regressiva nem tinha terminado, mas o resultado já estava praticamente decidido.

[Sim: 18 votos]

[Não: 0 votos]

Era como se tudo já estivesse decidido desde o início. Amanda mordeu o lábio.

— Não façam isso. A Cristina vai ficar constrangida.

Francisco empurrou uma taça na minha direção e disse:

— Pegue a taça e vamos virar essa página.

Baixei os olhos para a bebida. A superfície do líquido tremia levemente, refletindo meu rosto.

Naqueles três anos, eu já tinha esvaziado taças demais só para agradar aos outros.

Para não estragar o clima, para poupar os outros do constrangimento, para provar que sabia ser compreensiva, para não precisar ver Francisco franzir a testa.

Peguei a taça. A expressão de Francisco se suavizou um pouco, e Amanda soltou um discreto suspiro de alívio.

No instante seguinte, despejei a bebida no balde de gelo ao lado. O tilintar dos cubos de gelo ecoou pela sala, rompendo o silêncio.

Todos ficaram imóveis. Coloquei a taça vazia de volta sobre a mesa.

— Não vou brindar para fazer as pazes. E, se vocês querem virar a página, não precisam me avisar.

A expressão de Francisco se fechou imediatamente.

— Cristina Moura, você precisa mesmo agir assim?

— Assim como? — Encarei-o. — Vocês organizam uma votação, me obrigam a brindar, me obrigam a ser compreensiva, me obrigam a fingir que não tenho motivos para estar magoada. E, depois de tudo isso, ainda querem saber por que não consigo manter a compostura?

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Amanda.

— Eu só queria que a gente se desse bem de verdade. — Ela se virou para sair. — Francisco, é melhor eu ir embora. Não quero que a Cristina me odeie ainda mais.

Francisco se levantou por instinto para ir atrás dela. Reagiu tão depressa que nem ele próprio pareceu perceber o que havia feito.

Mas eu vi tudo com absoluta clareza. Não precisava de votação nenhuma. A reação dele já tinha deixado claro, inúmeras vezes, quem ele realmente escolhia.

Letícia segurou minha mão e perguntou baixinho:

— Vamos?

Assenti. Mas, assim que cheguei à porta, Francisco veio atrás de mim e agarrou meu pulso.

— Hoje você vai ter que resolver isso comigo.

Puxei o braço, consegui me soltar e respondi:

— Já está tudo muito claro. A gente terminou, ela pediu desculpas e vocês podem seguir em frente.

Ele me encarou, tentando conter a raiva que transparecia em seus olhos.

— Eu não concordei com isso.

Soltei uma risada e perguntei:

— Então, até para terminar um namoro precisa ter votação?

Meu celular vibrou naquele instante. Uma nova enquete havia sido enviada ao grupo.

[Adivinhem: Cristina vai voltar atrás hoje à noite?]

[Vai]

[Com certeza vai]

Eram apenas duas opções. Não havia uma terceira. Estendi o celular para Francisco.

— Está vendo? Eles já decidiram até que eu vou voltar atrás.

A expressão de Francisco mudou. Atrás dele, Amanda o chamou baixinho.

— Francisco, não brigue com a Cristina por minha causa.

Ele não veio atrás de mim. Pelo menos, não naquele momento. Quando saí do clube, o céu estava encoberto.

Uma mensagem de confirmação da empresa de mudanças apareceu na tela do meu celular.

[Srta. Cristina, estaremos em sua residência amanhã, às três da tarde em ponto.]

Respondi com uma única palavra.

[Certo.]

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