Compartilhar

CAPÍTULO 5

Autor: BZ02
Lívia desligou o telefone com o Sr. Luz. Ao se virar, deu de cara com Heitor saindo do quarto do bebê.

Ao vê-la, pareceu só então lembrar que ela existia. Um leve desconforto passou por seu rosto, e ele falou de maneira casual:

— Lívia, vê pra mim um designer de interiores de alto nível.

Ela não se mexeu. Apenas o encarou, em silêncio.

O olhar dele passou rápido por ela e logo se perdeu no vazio, enquanto continuava a falar sozinho:

— Acabei de perceber que muita coisa no quarto do bebê não serve. É melhor chamar um profissional pra refazer tudo.

Lívia apenas o observava, o rosto neutro, sem dizer uma palavra.

Não serve… Ou é a Bárbara que não gosta?

Heitor, você nem finge mais?

Ela voltou para o quarto de hóspedes. Um a um, pegou os presentes que ele lhe dera, coisas que ela antes guardava como tesouros, e jogou tudo na lareira da sala.

Já que tinha decidido ir embora, não havia motivo para manter nada daquilo.

E deixar para Bárbara? Só de pensar, sentia nojo.

As chamas alcançaram a caixinha de música do Dia dos Namorados. Em poucos segundos, a delicada bailarina de porcelana foi engolida pelo fogo.

— Não!

Lívia foi empurrada de repente. Bárbara, vestindo apenas uma camisola fina, correu até ali. Sem se importar com o fogo, estendeu a mão para a lareira.

— Lívia, por que você está queimando as minhas coisas?

O movimento de Lívia travou.

As coisas dela?

— Lívia, como você pode ser tão cruel? — Bárbara chorava, as lágrimas caindo uma após a outra. — Só me restou isso… por que você não pode deixar nem essas lembranças comigo? Você já tem o Heitor… no futuro ainda vai ser… a mãe do meu filho…

Antes que terminasse de falar, a silhueta alta de Heitor surgiu na porta.

Ao ver o caos no chão e Bárbara chorando, o rosto dele escureceu na hora.

— Lívia, o que você fez?

Ela apenas o encarou, em silêncio.

Para Heitor, aquele silêncio era uma confissão.

A confirmação de que ela tinha intimidado Bárbara.

O calor em seus olhos se transformou, centímetro por centímetro, em gelo. Restou apenas frustração e decepção.

De repente, Lívia riu.

O riso era leve, quase suave, mas cortante como uma agulha.

Ela se virou e subiu as escadas. Pouco depois, voltou com uma caixa de joias idêntica. Jogou a caixa no chão, diante de Bárbara, junto com todos os "presentes" que ainda não tinham sido queimados.

— São todos seus?

— Gosta?

— Então fica com tudo.

O coração de Heitor deu um solavanco.

Ele olhou nos olhos de Lívia. Havia um sorriso ali, mas era um sorriso vazio. Uma sensação intensa de inquietação o dominou.

O pânico surgiu sem aviso. Instintivamente, ele quis segurar a mão dela, dizer alguma coisa.

— Heitor… — Bárbara o puxou pelo braço naquele instante. Com um olhar frágil e cheio de pena, falou baixo. — Deixa pra lá. Só de poder morar aqui eu já não tenho mais arrependimentos. Mesmo que a Lívia queime tudo… não tem problema…

— Claro que tem. Mas deixa. Queimou, queimou. Eu compro tudo novo pra você.

O pensamento de Heitor foi interrompido. Ao ver o rosto pálido de Bárbara, acabou por apoiá-la com cuidado.

Eles já tinham passado por tanta coisa juntos.

Lívia não iria embora dele.

A porta se fechou. O mundo voltou ao silêncio.

O celular vibrou.

Era uma mensagem de Heitor:

"Lívia, espera eu voltar. Vamos conversar… aguenta mais um pouco, tá? Faz isso por mim. Só mais esse tempo."

Nos dias seguintes, Heitor não voltou para casa.

Naquela tarde, Lívia estava em uma chamada de vídeo com o responsável pela Aliança de Correspondentes de Guerra.

— Lívia, recebemos seu pedido de adiamento da entrada. — Disse o homem na tela, com um tom gentil. — Entendemos perfeitamente. Concordamos que você retorne após o parto. Uma criança é um presente de Deus.

— Obrigada. — Pela primeira vez em muito tempo, um pouco de calor apareceu em seu rosto.

De repente, a porta do quarto foi arrombada com um chute.

Heitor entrou, trazendo um frio no ar. Bárbara vinha logo atrás. Ele arremessou um celular com força sobre a mesa diante de Lívia.

— Lívia! — Os olhos dele estavam vermelhos, como os de um animal enfurecido. — Você odeia tanto ela assim? Por que fez mandarem humilhar ela?!

Lívia baixou os olhos e pegou o celular.

Na tela, uma enxurrada de vídeos e fotos.

Bárbara após ter sido "sequestrada", com as roupas em desalinho.

A internet tomada por xingamentos, chamando-a de amante descarada.

E, por fim, fotos dela deitada em uma cama de hospital, os pulsos enrolados em grossas faixas de gaze.
Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Não Te Ver, Não Te Querer, Não Te Ter   CAPÍTULO 23

    Um ano depois.Em outro país, um campo de refugiados na fronteira.Lívia limpava a câmera. Os movimentos eram precisos, quase automáticos.— Li… Lívia.A lona da tenda foi aberta. Cecília entrou com um copo de água nas mãos, visivelmente hesitante.— O que foi? — Lívia ergueu os olhos e sorriu de leve.— Eu queria te agradecer. — Cecília estendeu o copo, com gratidão no olhar. — Se você não tivesse me puxado hoje, eu teria sido atingida por aquele caminhão armado.— Não foi nada. — Lívia pegou a água. — Aqui a gente cuida um do outro. Nunca esquece, segurança vem primeiro. Notícia nenhuma vale mais do que a vida.Cecília ficou olhando para ela, os dedos se enroscando nervosos.— Lívia… você parece não ter medo de nada. Por que você veio pra cá?A mão de Lívia parou por um instante.Ela levantou o olhar e observou a jovem à sua frente. Aquele rosto ainda imaturo a fez lembrar de si mesma, anos atrás, a mesma dor de amor, a mesma tentativa de anestesiar um coração quebrado se jogando no

  • Não Te Ver, Não Te Querer, Não Te Ter   CAPÍTULO 22

    Cidade A. Último andar do Grupo Lopes, escritório do CEO.Do lado de fora das enormes janelas de vidro, a cidade brilhava. Por dentro, o escritório estava frio e vazio. Heitor permanecia de costas, parado diante da vista.No telão à sua frente, a cerimônia de Genebra passava ao vivo, sem som. Ele tinha desligado o áudio, como se quisesse apenas confirmar algo com os próprios olhos.Ele observava aquela mulher tão familiar e, ao mesmo tempo, tão distante. Via os passos seguros dela, lia cada palavra que saía de seus lábios, e sentia o coração ser apertado por uma mão invisível, lenta e cruel, até quase ficar dormente.Cinco anos.Ele não voltou a procurá-la, como se estivesse cumprindo a promessa de deixá-la ir.Ainda assim, usou todos os canais que tinha para acompanhar cada notícia dela. Sabia em quantas zonas de conflito mais perigosas ela tinha entrado. Sabia da foto premiada internacionalmente, que expôs o uso de crianças-soldado e quase lhe custou a vida. Sabia como ela tinha d

  • Não Te Ver, Não Te Querer, Não Te Ter   CAPÍTULO 21

    — Lídia, o que você está viajando aí? Vem logo ver, o Enzo trouxe coisa boa. — Um colega gritou da porta.Lívia voltou a si, enfiou o celular na bolsa e saiu sorrindo.No pátio, Enzo descarregava de um jipe várias caixas de pão fresco.Num lugar onde tudo era escasso, pão recém-assado valia mais que ouro.— Uau, melancia. Enzo, de onde você tirou isso?— Meu Deus, acho que faz quase um ano que eu não vejo uma melancia!Todo mundo começou a comemorar.Enzo sorriu, pegou a faca e abriu uma das melancias, revelando a polpa vermelha.— Um amigo local me deu. Tem pra todo mundo, venham pegar.Lívia também recebeu um pedaço.Deu uma mordida, e o suco gelado e doce explodiu na boca, adoçando até o peito.Ela olhou para os rostos ao redor, todos sorrindo por causa de um simples pedaço de melancia. Olhou também para Enzo, mais ao longe, brincando com as crianças locais. E, de repente, sentiu que a vida talvez não fosse tão ruim assim.É.Ela tinha perdido muita coisa.Mas também tinha ganhado m

  • Não Te Ver, Não Te Querer, Não Te Ter   CAPÍTULO 20

    Naquela noite, Heitor teve um sonho estranho.Sonhou que Lívia morria num acidente de carro.Sonhou que ela estava coberta de sangue, o corpo gelado, e ainda assim, com o último fôlego, dizia para ele:— Heitor, nós… vamos nos divorciar. Na próxima vida, eu não quero mais te encontrar.Ele acordou em sobressalto, o corpo inteiro encharcado de suor frio.Do lado de fora, a lua do País L estava grande e cheia, mas trazia um tom frio, melancólico.Heitor foi até a janela, pegou o binóculo e olhou para aquele pequeno ponto de luz, a base dos jornalistas ao longe.Ele sabia. Ela estava ali.Naquele mundo ao qual ele já não tinha mais acesso, vivendo com esforço, com liberdade.Solta.Solta isso. Uma voz sussurrou dentro dele.Você já destruiu metade da vida dela. Vai mesmo querer destruir também o futuro?Você não pode lhe dar a liberdade que ela quer, nem o respeito que ela merece.A única coisa que ainda pode fazer por ela é desaparecer da vida dela.Heitor baixou o binóculo devagar.Olha

  • Não Te Ver, Não Te Querer, Não Te Ter   CAPÍTULO 19

    Do outro lado, Heitor não deixou o País L depois de esbarrar na recusa dela.Ele alugou, a peso de ouro, uma casa numa cidadezinha perto da base dos jornalistas e mandou Artur de volta ao país.— Vá investigar aquele homem chamado Enzo Torres. Quero tudo, o máximo de detalhes possível.Vendo o semblante sombrio de Heitor, Artur não ousou perguntar nada. Pegou um voo naquela mesma noite.Pouco depois, o dossiê de Enzo chegou, junto com a foto da noiva.Heitor encarou o casal sorrindo na imagem e, em vez de se irritar, soltou uma risada.— Então ele tem um noivado no país… — Murmurou, com um brilho doentio nos olhos.Na cabeça dele, tudo fez sentido.Lívia estava encenando. Aproximava-se de Enzo de propósito. Tratava-o com frieza de propósito. Era só para provocá-lo. Para se vingar dele.Essa ideia estranha trouxe a Heitor uma espécie de alívio torto.Ela ainda se importava. Enquanto isso fosse verdade, ele ainda tinha chance.Então ele mudou de tática.Parou de tentar forçá-la a voltar

  • Não Te Ver, Não Te Querer, Não Te Ter   CAPÍTULO 18

    Lívia ficou um pouco atônita, sem entender por que ele tinha trazido aquilo do nada.Enzo não esperou que ela respondesse. Continuou por conta própria:— Quando alguém atravessa uma ponte suspensa, morrendo de medo, o coração começa a disparar. E se, nesse momento, essa pessoa encontra alguém, pode acabar confundindo esse coração acelerado com estar se apaixonando por quem está ali.A voz dele era calma, como se estivesse apenas explicando um conceito de psicologia. Mas Lívia entendeu na hora.O rosto dela esquentou sem que conseguisse evitar.Então ele sabia.Sabia que ela tinha sentido algo que não devia. Sabia daqueles pequenos sinais, daquelas mudanças quase invisíveis. E, mesmo assim, não a expôs, não deixou nada virar algo ambíguo. Escolheu, em vez disso, esse jeito respeitoso e gentil de fazê-la enxergar.Ele estava dizendo a ela que aqueles sentimentos confusos talvez fossem só o efeito de viverem sob risco o tempo todo.Dependência. Admiração. Laço de quem enfrenta a morte jun

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status