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CAPÍTULO 4

Autor: BZ02
— Doutor, o senhor… o senhor não está enganado?

A voz de Lívia tremia de forma incontrolável. Ela encarava fixamente o homem de jaleco branco à sua frente, a visão escurecendo aos poucos.

— Como isso é possível… eu…

Na vida passada, não existia esse bebê.

O médico parecia já ter visto reações assim inúmeras vezes. Ele empurrou o exame de ultrassom na direção dela.

— Srta. Lívia, gravidez de seis semanas. Não há engano. Está tudo muito claro no exame.

Ele fez uma breve pausa, levantou os olhos para o rosto pálido dela e, embora o tom tenha suavizado um pouco, as palavras continuaram duras:

— Você apresenta sinais graves de ameaça de aborto. Vou receitar medicamentos para manutenção da gravidez, e é indispensável repouso absoluto. Se esse bebê não for mantido, considerando sua condição física, no futuro será difícil engravidar novamente.

O olhar de Lívia desceu devagar até o próprio abdômen, ainda plano. Sua mão pousou ali sem perceber. Havia uma nova vida crescendo naquele lugar. Essa mudança repentina fez o coração dela, que desde o renascimento permanecera imóvel como água parada, se agitar pela primeira vez como uma onda gigante.

Ao sair do hospital, o sol intenso do verão fez seus olhos arderem.

Instintivamente, ela pegou o celular e abriu a conversa com Heitor. Nada. Durante os dias em que esteve internada, assim como na vida passada, ele não havia feito uma única ligação, nem enviado uma única mensagem.

Contar a ele?

Dizer que eles tinham um filho?

A ideia mal surgiu e foi esmagada por ela mesma. Um peso familiar atravessou o peito, uma dor surda, repetidamente esmagada.

E contar mudaria o quê?

Ele já tinha um filho agora.

Talvez ainda pensasse que ela estivesse mentindo para disputar atenção.

Ela não ousava apostar. Nem queria.

Assim que Lívia entrou em casa, gemidos fragmentados de uma mulher misturados à respiração pesada de um homem desceram do segundo andar. Obscenos, cortantes.

O movimento de trocar os sapatos parou. No rosto dela, não havia surpresa alguma.

Ela subiu os degraus, um a um. Os sons ficavam cada vez mais claros, até que ela parou diante da porta do quarto do bebê.

Pela fresta, o vestido de Bárbara estava amassado, preso às pernas. O corpo mole, sem força, apoiado nos braços de Heitor. O rubor no rosto ainda não tinha desaparecido, e havia umidade no canto dos olhos.

Debaixo deles, estava o berço que Lívia havia escolhido pessoalmente para o filho que imaginara ter no futuro.

O estômago dela se revirou com violência. Quase vomitou.

— Heitor, eu gosto tanto desse quarto. Depois a gente usa para o nosso bebê, tá? — A voz de Bárbara ainda estava rouca do momento anterior. — Mas essa luminária de lua tem umas pontas muito afiadas. A gente troca, pode ser?

— Tá. — A voz de Heitor soava um pouco cansada, mas indulgente. — Isso foi tudo montado meio sem pensar. Se você não gosta, amanhã mesmo mando trocar tudo.

Montado sem pensar…

Na mente de Lívia surgiu, num instante, a imagem de Heitor chegando em casa animado, abraçando aquela luminária de lua.

Como uma criança ansiosa para mostrar um tesouro.

— Amor, olha isso. Assim, no futuro, nosso bebê não vai ter medo do escuro.

Enquanto ela se perdia nisso, o olhar de Heitor caiu sobre a barriga de Bárbara. Havia ali um carinho que Lívia nunca tinha visto antes.

— Bárbara, fica tranquila. Vou dar ao nosso bebê tudo de melhor que existe no mundo.

Assim que ele terminou de falar, Bárbara levantou a cabeça de repente. O olhar passou com precisão por cima do ombro de Heitor e encontrou o rosto gelado de Lívia atrás da porta.

Um sorriso de triunfo surgiu em seus lábios. Em seguida, ela se enfiou de novo nos braços de Heitor, a voz tomada por choro, frágil e desamparada.

— Heitor, você vai ser sempre tão bom comigo, não vai? Eu tenho tanto medo… ouvi dizer que a saúde da Lívia nunca foi boa, que os médicos falaram que seria difícil ela ter filhos… e se… eu digo, se por acaso… se ela engravidar no futuro, você ainda vai amar nosso bebê do mesmo jeito?

Heitor deu leves tapinhas nas costas de Bárbara. Não percebeu ninguém do lado de fora da porta. Apenas achou que era sensibilidade da gravidez.

— Bobinha, para de pensar besteira. — Ele a tranquilizou. — Esse é o meu primeiro filho. Tudo o que eu tiver no futuro será dele.

A voz dele era extremamente suave, mas cada palavra era como uma lâmina cravada no coração de Lívia.

— Mesmo que a Lívia realmente tenha um filho meu um dia, eu vou amar do mesmo jeito. Fica tranquila.

— É mesmo? — Bárbara se aninhou mais em seus braços, a voz carregada de satisfação. — Heitor, você é tão bom.

Do lado de fora, Lívia riu em silêncio.

Do mesmo jeito?

Que generosidade.

Ela baixou os olhos para o exame de ultrassom em sua mão. Os dedos ficaram brancos de tanto apertar o papel.

Ela nunca permitiria que seu bebê fosse contaminado por qualquer coisa daquele lugar. Muito menos que crescesse em um ambiente tão falso e repulsivo.

Lívia pegou o celular, sem expressão alguma, abriu as câmeras de vigilância do quarto do bebê e, olhando para a cena indecente na tela, salvou o vídeo.

— Sr. Luz? Sou eu, Lívia.

— Preciso que o senhor redija um pedido de divórcio.
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Último capítulo

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