LOGINO papel permaneceu entre os dedos de Darian por tempo suficiente para que a comida esfriasse dentro da sacola.Perto da janela, o buquê ocupava quase todo o parapeito.— Veio com as flores? — perguntou.Recostada nos travesseiros, Íris assentiu. A garganta ainda doía quando falava demais.Ele releu a última frase.— Sinto muito.— Não foi você que escreveu.— Mas foi o meu nome que ela usou.Darian deixou o cartão sobre a mesa, ao alcance dela.Íris observou aquele cuidado. Ele não o amassou, não tentou fazê-la acreditar que tinha entendido errado.— Eu pedi que você fosse comer — disse ela. — Não que abandonasse alguma coisa por minha causa.— Eu sei.— Então resolva isso com ela. Não preciso ficar no meio dessa conversa.Ele concordou.Antes de sair para telefonar, abriu a sacola e colocou a refeição na mesa.— Vou comer quando voltar.Uma sobrancelha se ergueu.— Isso foi uma ameaça?O sorriso dele apareceu pela primeira vez desde que lera o bilhete.— Uma promessa.Valéria atendeu
A caneta riscou o papel antes que Íris conseguisse formar a primeira palavra.Darian segurou a prancheta para que não escorregasse.Ela escreveu devagar:O homem da casa.Ele leu e tornou a olhar para ela.— O que estava discutindo com vocês?Íris confirmou com um movimento pequeno da cabeça.A enfermeira acompanhava a conversa junto à cama.Darian manteve a voz baixa.— Ele foi detido. Não está aqui.Os dedos dela continuaram apertados em torno da caneta.Darian indicou a enfermeira.— Podemos avisar à equipe que você não quer receber essa pessoa.A mulher assentiu.— Vamos registrar. Ninguém vai trazê-lo até você.Íris olhou para a porta.Só depois de alguns segundos soltou a caneta.Não havia outro homem escondido no corredor, nem uma ameaça que os demais tivessem deixado passar.Ainda havia uma casa queimando dentro da lembrança dela.A equipe encerrou a visita pouco depois.Íris começava a perder a atenção, vencida pelo cansaço. Darian afastou a cadeira e prometeu voltar no horár
A médica não ofereceu outra resposta. Darian assentiu, embora tivesse a sensação de que seu corpo continuava fazendo a pergunta. Quando recebeu autorização para entrar, deixou a bolsa com Amélia. Íris parecia menor naquela cama. Havia fuligem junto à linha do cabelo, mesmo depois da limpeza. A perna estava imobilizada. Um tubo e os equipamentos ao redor faziam parte do trabalho necessário para mantê-la respirando. Darian parou antes de alcançar a cadeira. Precisou olhar para o movimento do peito dela. Uma vez. Outra. Só então conseguiu se sentar. A enfermeira explicou onde poderia tocar sem atrapalhar os cuidados. Darian apoiou os dedos sobre a mão de Íris. Não houve uma resposta escondida, uma lembrança atravessando o contato ou a voz de Soren alcançando-a. Ela permanecia sedada. Ele sabia disso. Mesmo assim, demorou a aceitar que estar perto não lhe dava uma maneira de trazê-la de volta. — Caio tirou você da casa — disse, baixo. — Os três moradores saíram também. Pe
— Caio! Darian apertou o telefone contra o ouvido. Do outro lado, alguma coisa caiu. Houve um grito, passos e o ruído de pessoas tentando falar ao mesmo tempo. — Caio, responde! A chamada terminou. Darian tentou ligar de volta. Uma vez. Duas. Na terceira, o telefone chamou até cair. Dentro da casa, Caio se abaixou sobre Íris. O segundo desabamento atingira a parte dos fundos. A poeira se misturava à fumaça, tornando quase impossível distinguir a passagem por onde tinham entrado. Outro guarda alcançou a travessa caída. Levantaram juntos. O espaço foi suficiente para libertar a perna, mas Íris não se moveu. Caio chamou seu nome. Os olhos dela se abriram por um instante. — Vamos tirar você daqui. Ela tentou responder. A tosse tomou o lugar das palavras. Os dois a retiraram dos escombros e seguiram pelo corredor, orientados pela luz que vinha da entrada. Na rua, pessoas já abriam espaço para a equipe de socorro. Caio só percebeu que tinha ferido a mão quando tentou afas
Valéria afastou a pasta. — Entendi o que você disse. Darian permaneceu diante da mesa. — Preciso que isso apareça na maneira como você a trata. Ela ergueu o rosto, ferida demais no orgulho para esconder completamente. — E você precisa entender que eu não vou esperar enquanto decide o que quer com outra pessoa. — Eu não pedi que esperasse. A resposta encerrou a conversa. Darian saiu sem marcar outro jantar. Íris chegou à oficina depois de escurecer. Avisou Amélia e respondeu à mensagem de Darian, que perguntara pela viagem. Cheguei bem. Ele respondeu quase imediatamente. Que bom. Descanse. Ela leu duas vezes. Ainda sentia no rosto o calor do pelo de Soren. No corpo, a memória do abraço. E, por baixo de tudo, a frase de Valéria sobre estar apenas de visita. Guardou o telefone. Na manhã seguinte, tinha trabalho esperando por ela. Três dias depois, a mulher que costurava apareceu na oficina com uma pequena encomenda. Precisava que Íris avaliasse uma gaveta que emperrava
— Visitas terminam — respondeu Íris. — A maneira como você trata as pessoas fica. Valéria apertou a chave entre os dedos. Íris passou por ela sem esperar outra resposta. Só quando chegou à escada percebeu que tremia de raiva. Não por Valéria desejar Darian. Era difícil admitir, mas não podia exigir que outra mulher ignorasse um homem solteiro. A crueldade estava em transformar sua partida numa vantagem a ser anunciada. Darian a esperava perto da saída. — Podemos ir? — perguntou. Íris assentiu. Ele acompanhou seus passos até perceber que ela seguia depressa demais. — Aconteceu outra coisa? Ela parou. Queria almoçar com ele sem dedicar a Valéria cada minuto restante da visita. Mas esconder o que acontecera também lhe parecia uma forma de permitir que a outra mulher escolhesse o tom daquele encontro. — Ela disse que pode fazer parte da sua vida todos os dias. E que eu só venho de visita. A expressão de Darian mudou. — Também afirmou que recomendou sua permanência no trabal







