LOGINIris escolheu o lugar com cuidado.Não queria terminar no corredor da escola, cercada de alunos curiosos, nem dentro do carro de Rafael, onde a proximidade poderia transformar uma decisão em outra coisa. Também não o chamou para sua casa. Aquele espaço pertencia à família dela, e Iris não queria que a lembrança do término permanecesse presa às paredes do quarto onde haviam dividido uma intimidade que Rafael ainda confundia com promessa.Escolheu o quintal dos Vale, numa tarde em que a casa estaria cheia. A mãe dele organizava um café para duas amigas da alcateia, o pai ainda não havia voltado do trabalho e uma funcionária circulava entre a cozinha e a sala. Haveria gente por perto, mas não perto o bastante para ouvir cada palavra. Rafael poderia sofrer, discutir e exigir explicações. Só não poderia prolongar a conversa indefinidamente.Kayle chamara aquilo de terreno neutro.Iris sabia que não era. A casa dos Vale nunca seria neutra. Cada tijolo, cada móvel e cada xícara cuidadosament
Kayle mudou o treinamento na semana seguinte à chegada da carta.Já não bastavam os pesos, as corridas curtas e a alimentação controlada. O corpo de Iris estava mais forte, mas força física não seria suficiente para protegê-la na universidade. Ela precisava trabalhar a voz, a postura e a maneira de ocupar um espaço sem parecer que havia entrado ali por engano. Precisava aprender a atravessar uma sala sem pedir licença com os olhos, sustentar uma conversa sem contar toda a própria história e sair sem sentir que devia explicações a alguém.O terreno atrás da escola, antes usado apenas para exercícios físicos, transformou-se em uma sala de ensaio. Naquela tarde, Kayle afastou algumas pedras, desenhou um círculo na terra com a ponta do tênis e apontou para o centro.— Entre.Iris obedeceu.— Agora saia.Ela deu dois passos para trás.— De novo — ordenou Kayle.— Eu só entrei no círculo.— E conseguiu pedir desculpas por isso sem abrir a boca.Iris franziu a testa.— Como?— Você olhou par
A carta chegou numa terça-feira de manhã, dentro de um envelope grosso com o brasão da família Vale gravado no canto superior. O relevo das linhas douradas roçou os dedos de Iris antes mesmo que ela encontrasse coragem para abrir.Ela ainda estava de pijama, com o cabelo preso de qualquer jeito e os pés descalços sobre o piso frio da cozinha. A mãe acabara de colocar o café na mesa quando o carteiro bateu à porta. Não costumavam receber correspondências que exigiam assinatura, muito menos envelopes pesados demais para conter apenas uma cobrança.— Iris! — chamou a mãe. — É para você.Ela apareceu no corredor ainda prendendo os cabelos. Ao ver o brasão, parou.A mãe virou o envelope para conferir o remetente.— É da família Vale.As duas se entreolharam.Durante semanas, o Sr. Vale não voltara a mencionar a recomendação. Rafael dizia que o pai estava cuidando de tudo, mas Iris aprendera a não considerar promessa como conquista. Pessoas influentes prometiam com facilidade porque raramen
Rafael apareceu na quarta-feira com uma caixa pequena na mão e um sorriso que já não cabia apenas nos encontros escondidos durante o intervalo.Ele esperava por Iris do lado de fora da sala de História, encostado na parede com uma naturalidade ensaiada. A caixa era feita de papel grosso, sem marca aparente, discreta o suficiente para não chamar atenção de longe, mas sofisticada demais para passar despercebida de perto.Iris parou diante dele. Rafael tinha aquele cheiro limpo e familiar que ela já reconhecia antes mesmo de vê-lo. Nada parecido com o calor sufocante da Bruma ou com a presença de Luke invadindo seus sentidos sem permissão. Perto de Rafael, respirar era fácil.— O que é isso? — perguntou, olhando para a caixa.— Não é nada demais — respondeu ele depressa, estendendo o presente. — Eu vi e lembrei de você.— Isso geralmente significa que é alguma coisa demais.Rafael sorriu, um pouco nervoso.— Abre primeiro. Depois você decide se vai reclamar.Iris ergueu a tampa com cuida
Na manhã seguinte, o mundo não parecia maior.Parecia mais obediente.Iris acordou com a coxa marcada, um latejo baixo entre as pernas e o gosto de batom ainda na boca. A casa cheirava a café. A mãe perguntou se ela tinha dormido. Iris mentiu com a mesma facilidade de sempre e comeu o pão inteiro. O corpo estava cansado. A cabeça, não. A cabeça repetia a voz de Rafael na cama, pedindo, repetindo que tinha sido dela, saindo pela porta quando ela mandou.Isso não era só sexo.Era prova.Na escola, ele já estava no portão. Não com flores demais. Com uma postura nova, quase orgulhosa, como se tivesse ganhado alguma coisa que os outros meninos ainda não entendiam. Quando Iris se aproximou, Rafael encostou a mão na cintura dela na frente de todo mundo e tirou no segundo em que ela olhou para os dedos.— Desculpa.— Pode ficar — disse ela, baixa. — Hoje pode.O “hoje” era uma coleira curta. Ele sorriu, aliviado, e beijou a boca dela com um cuidado que já não era o de porcelana. Era o cuidado
A luz do banheiro era amarela demais para o que ela estava prestes a fazer.Iris ficou parada na frente do espelho rachado, os dedos no colarinho da camisa branca. Por baixo, a renda preta quase não existia: uma tira estreita nas coxas, o sutiã transparente marcando o mamilo a cada respiração. O treino tinha deixado curva, peso, uma maciez nova nos seios. A menina magra da Academia Lobo Prateado não cabia mais naquele reflexo. O que restava pedia para ser olhado e, pela primeira vez, ela ia usar isso de propósito.Passou o batom escuro com a mão um pouco trêmula. Soltou o cabelo. O cheiro de sabonete barato misturou com o calor da pele. No peito, o vínculo latejou, ofendido, antigo.— Você me largou — sussurrou para o vidro. — Isso não é seu. Não guarda mais nada meu.O celular vibrou na cama.Estou na porta.Iris leu duas vezes. Lembrou Kayle. Lembrou a ata. Lembrou o jeito como Rafael a olhava, já disposto a abrir nome, mesa, futuro. Papel prendia. Pele prendia mais. Se ela desse aq







