Mag-log inO sábado amanheceu com aquela luz dourada e nítida que só o verão no litoral consegue proporcionar. Acordei e sentei na soleira da porta para observar os barcos de pesca balançando vagarosamente no porto, realmente não existia pressa em St Ives. Às nove da manhã, o visor do meu celular acendeu.
Nicholas: Linda, o dia está perfeito para as falésias de Land's End. Mas, antes de pegarmos a trilha, você aceitaria fazer uma parada comigo? É um lugar especial para mim. Henrietta: Claro! Onde nos encontramos, Nick? Nicholas: No The Sloop Inn, te espero lá em cinco minutos. Vesti um jeans confortável, uma blusa leve e amarrei o moletom na cintura. Quando cheguei o Nicolas estava me esperando em uma mesa, notei que ele bebia chá e resolvi também beber uma xícara. Ele usava uma calça de sarja escura e uma camisa de linho azul-claro com as mangas dobradas até o antebraço. O cabelo castanho estava penteado, mas o vento já desalinhava os fios. - Ettie - Disse, com um sorriso de canto que fez meu estômago dar voltas. - Você está linda. - An... obrigada - Falei, sem saber muito o que disser.- Você está muito elegante para quem vai fazer uma caminhada, onde vamos? - Hoje haverá um serviço comunitário especial na igrejinha metodista lá no alto da colina — Explicou, apontando para uma construção de pedra cinzenta e arquitetura simples que ficava na baía. - É uma igreja protestante, minha família ajudou a manter aquele lugar por gerações. Eu costumo ir para agradecer... e para colocar os pensamentos no lugar. Quer vir comigo? Eu costumava ir na igreja com minha mãe e gastava muito, pra o convite não era algo ruim e sim algo bom. - Eu adoraria. A caminhada até a capela foi curta, mas íngreme. Conforme subíamos, os arbustos de gorse com suas flores amarelas brilhantes emolduravam o caminho. Ao entrarmos na igrejinha, o contraste foi imediato. O interior era minimalista e acolhedor, bancos de madeira clara polida, janelas altas de vidro transparente que deixavam a luz do sol inundar o altar e nenhum rastro de imagens ou ornamentos exagerados, apenas uma cruz de madeira simples na parede de fundo. O cheiro de cera de abelha e flores frescas impregnaram no ar. Algumas pessoas acenaram discretamente para Nicholas, que retribuiu com um aceno caloroso de cabeça, ele me conduziu a um dos bancos no meio. O serviço começou de forma simples. Não havia formalidades excessivas, um pastor local, vestindo roupas comuns, leu uma passagem curta sobre paz, renovação e o privilégio de encontrar descanso na criação. Mas o momento que tornou tudo verdadeiramente especial foi o canto. Sem um órgão pomposo, a igreja começou a cantar um hino à capela, liderado apenas pelo som de um violão, era impressionante ouvir o canto da igreja. Olhei para o lado e vi Nicholas fechar os olhos, a voz grave e afinada juntando-se ao coro. Havia uma paz tão profunda no rosto dele, a atmosfera parecia ter mudado. De repente, aquilo ganhou sentido para mim, não se tratava de rituais complexos, mas de conexão pura e gratidão. Era uma verdadeira adoração a Deus. Sentada ali, ouvindo o eco das vozes se misturando, senti umas lágrimas escorrerem pelo meu rosto, não de tristeza, mas de um alívio avassalador. Como se sentisse a intensidade do momento, Nicholas abriu os olhos e olhou para mim, sem dizer nada, apenas estendeu a mão sobre o banco de madeira e segurou minha mão, com um aperto suave. Quando o serviço terminou e as pessoas começaram a se dispersar conversando calmamente, eles saíram para o adro da igreja. Aquela tinha sido uma das experiências mais lindas da minha vida. Nicholas parou perto do muro de pedra, com seus olhos em mim. - Obrigado por vir, Ettie. Sei que pode ser um pouco diferente frequentar igreja, mas aqui é o lugar mais especial que conheço. Limpei o rastro das lágrimas com os dedos e sorri, olhando bem no fundo dos olhos dele. - Foi a coisa mais linda e real que eu vivenciei em muito tempo, Nicholas. Obrigada por me trazer aqui. - Eu que agradeço, pra mim também foi bom. - Ele estendeu o braço para eu o enlaçar. - Agora que alimentamos a alma, acho que estamos prontos para as falésias de Land's End. - Lidere o caminho, salva-vidas - Pedi, segurando firmemente o braço dele, pronta para mais um momento com ele. Entramos no jipe dele, até Land's End. Começamos pela trilha de terra batida que costeava o penhasco, ele ia um pouco à frente, mas sempre para pra me esperar e fazia pausas quando eu cansava. Ele era um guia perfeito, me explicava tudo. Eu estava apaixonada por tudo que via, queria ter material de pintura aqui comigo pra fazer um tela, a cada curva, o mar mudava de tom, variando entre um azul-marinho profundo e um verde-esmeralda brilhante onde as ondas batiam com força nas rochas, gerando nuvens de espuma branca, seria uma obra de arte e tanto uma tela desse lugar. - É a sensação de estar na borda do mundo - Disse alto, para vencer o som do vento, enquanto ajeitava o cabelo atrás da orelha. - Tecnicamente, você está - Falou, parando e apontando para a imensidão à frente. - Depois daquela linha do horizonte, a próxima parada é a América. - Incrível! - murmurei. A caminhada durou cerca de uma hora,e como era fácil conversar com Nicholas. Ele desviou por um atalho quase invisível entre a vegetação rasteira. A trilha descia para uma pequena enseada natural, que protegida do vento forte pelas próprias paredes de rocha. No centro, havia um platô de grama verde com uma vista panorâmica e isolada do oceano. - Hora de ganhar mais energia - Anunciou, tirando a mochila das costas. Para minha surpresa, ele abriu uma autêntica manta xadrez de lã e começou a tirar o piquenique que havia preparado, cornish pasties - pastéis assados e recheados de carne e batata - Ainda mornos, envoltos em papel pardo, uma caixinha de morangos frescos e duas garrafas de suco de cranberry. - Você pensou em tudo, não foi? - Comentei, sentando de pernas cruzadas na manta, saboreando o pastel crocante. - Um bom salva-vidas nunca sai sem provisões - Ele piscou, sentando ao meu lado. - Isso é simplesmente divino — disse, após a primeira mordida na massa folhada e crocante. — O recheio de carne e batatas é tão bem temperado. Acho que nunca comi algo parecido em Londres. - O segredo é que a receita não mudou em séculos - Explicou, mastigando o dele com os olhos fixos na imensidão azul. - Os mineradores da Cornualha levavam esses pastéis para as minas. A borda grossa de massa servia para eles segurarem com as mãos sujas de carvão e, depois, eles jogavam a borda fora para os duendes das minas, segundo a lenda. - Você realmente ama cada parte daqui, não é? - É difícil não amar quando se cresce com tudo isso — Ele respondeu, virando o rosto para mim. — Minha família vive nesta costa desde os tempos em que St Ives era só um punhado de cabanas de pescadores. Meu avô me ensinou a ler olhando para as tábuas de marés. Para mim, a aqui nunca foi só um cartão-postal. É a minha vida toda. Dei um gole no suco de cranberry, sentindo uma pontada de admiração. - Isso é lindo, Nicholas... Acho que é mais ou menos assim que o pai queria que eu fosse com Londres, mas eu nunca me acostumei, eu adoro Londres, mas não do jeito que meu pai espera. Acho que se eu finalmente for pra uma faculdade que eu goste, talvez eu goste mais de lá, acho que vou esperar as coisas acontecerem. - Vai valer a pena? - Perguntou com curiosidade. Peguei um morango fresco da caixinha e fiquei girando ele entre os dedos, olhando para o horizonte onde as ondas quebravam contra as pedras escuras. - Não sei, espero que sim. Ele estendeu a mão e pegou delicadamente o morango dos meus dedos, levando-o à minha boca. Seus olhos não desviavam dos meus. - O oceano tem uma regra simples, Ettie - Ele disse, com a voz baixa e reconfortante. - Se você tentar lutar contra a correnteza usando toda a sua força, você se cansa e afunda. Para sobreviver, você precisa boiar, relaxar os músculos e deixar que a água te leve para onde você precisa estar. Talvez sua vinda para a Cornualha seja pra você aprender a boiar. Senti um nó formar na garganta. - E para onde a água está me levando? - Sussurrei, com um meio sorriso tímido, me aproximando um pouco mais dele na manta. Ele inclinou o corpo na minha direção, reduzindo o espaço entre nós dois de um jeito que fez o meu coração disparar. - Não sei o destino final - Respondeu, a voz quase sumindo diante do som do mar lá embaixo, enquanto o polegar dele limpava uma sementinha de morango do canto dos meus lábios. - Mas, por enquanto, ela te trouxe até aqui. E eu sou muito grato por isso. O sol começou a baixar no horizonte, pintando o céu do Atlântico com pinceladas de laranja, rosa e dourado. O vento esfriou rapidamente, encolhi os ombros, soltando um suspiro curto devido ao frio. Ele se aproximou e envolveu os meus ombros com seu braço, me puxando para perto do seu peito quente. Acomodei a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro do perfume cítrico dele. O meu coração ainda batia acelerado, mas minha mente estava tranquila. - Obrigado por vir ao meu mundo, Ettie - Sussurrou perto do meu ouvido, a voz vibrando de uma forma que me fez arrepiar. Virei o rosto para cima, encontrando os olhos dele. A distância entre nós sumiu. Eu tinha certeza do que viria a seguir. Ele levou a mão suavemente até o meu rosto, o polegar acariciando a minha bochecha. Ele se inclinou devagar, dando a mim todo o tempo do mundo para recuar, mas eu não recuei. Nossos lábios se tocaram, em um toque calmo, doce e profundo, que começou com o ritmo das ondas e terminou com a urgência de quem sabia que aquele encontro já estava escrito muito antes de a maré subir. Quando paramos o beijo, ele encostou a testa na minha, ele sorria com os olhos fechados. E eu não estava menos sorridente, aquele beijo foi esplêndido, não sei como seria os próximos dias mas sentia, que o quer que fosse que estivesse acontecendo com nós dois, estava apenas começando.O som dos aparelhos hospitalares foi substituído pelo silêncio do apartamento. Não sabia exatamente como havia chegado em casa, me lembro apenas de flashes, o corredor branco do Hospital St Mary, o cheiro de antisséptico, os olhos penalizados do Dr. Thomas dizendo a frase que vai ficar na minha mente pelo resto da minha vida, “Sinto muito, Srta. Dunford. Nós fizemos tudo o que podíamos”. Agora, eram três horas da madrugada. O apartamento que antes transbordava aroma de chá, parecia gelado e vazio. Me sentei no chão do corredor, com as costas apoiadas na parede, os joelhos colados ao peito. Deixei todas as lágrimas virem, sabendo da terrível realidade que teria muito tempo pra prantear a morte do meu pai. A dor não era apenas uma tristeza profunda, era física. Parecia que alguém havia enterrado as mãos em meu peito e arrancado meus pulmões, deixando apenas um vácuo que ardia a cada tentativa de respirar. Olhei para minhas próprias mãos, que tremiam sem parar. O tremor vinha de dentr
O outono tinha chegado, trazendo uma névoa fria que insistia em abraçar as ruas de South Kensington. Nesses últimos dias, eu passei muito tempo na empresa, foi intenso, mas segundo todos na empresa, e meu pai, eu estava indo muito bem. Fechei meu primeiro grande contrato, fiquei orgulhosa, a Tech Brant era uma excelente empresa do ramo tecnológico, seria uma parceria muito interessante. Percebi que não pensava tanto em moda, eu não tinha desistido, mas comecei a entender que talvez não fosse ruim ter tido essa mudança de rumo. A única coisa que parecia diferente era o meu pai, desde que passou a presidência pra mim ele não era mais o mesmo. Não foram mudanças drásticas, comecei a notar os detalhes nos momentos mais comuns. Primeiro foi o cansaço, ele que sempre acordava antes do despertador e lia o Financial Times na mesa do café, agora arrastava os pés pela cozinha. Nessa manhã, eu o vi olhando para a xícara de café com um olhar distante, a mão direita massageando o peito de forma s
Três semanas haviam se passado num borrão de reuniões com os novos investidores, passei o tempo todo sendo instruída pelo meu pai. Ainda era difícil acreditar que serei presidente da empresa, meu pai estava se esforçando pra me ensinar tudo o que sabe, mas ainda era complicado, eu não sentia que estava pronta. Nicholas ficou surpreso e me apoiou quando falei que teria que desistir da faculdade por um tempo, o melhor mesmo foi quando ele me contou que poderia passar uma semana aqui no natal. Chloe me ligou, ela tinha muito trabalho, mas no aniversário dela ela e o Sam viriam me ver. Estava feliz e tensa com tudo isso, mas sentia que estava indo bem, era um privilégio ser cercada de tantas pessoas que se importam comigo. Tomei um café super forte e vesti um sobretudo cinza-escuro. Meu pai passou a manhã envolvido em reuniões com a diretoria - Eu sabia que o foco da reunião era a sucessão da empresa - Como não era obrigatória minha presença, fiquei responsável por auditar uma série de
Meu despertador tocou às seis e meia da manhã, demorei alguns segundos para pular da cama, foi a primeira vez que senti que voltei pra minha rotina de sempre. Eu até que curtia meu trabalho como analista de risco júnior na Dunford Holdings, Só não era algo que me vejo fazendo pelo resto da minha vida, e o meu pai espera que eu assuma o seu lugar na presidência, mesmo que de forma cautelosa ele ainda fazia uma pressão que me incomodava, mas essa parte de continuar o legado dele era algo que eu preferia adiar. Generalmente lido bem com tudo isso, mas queria que ele me apoiasse a viver o meu sonho de ser modista, sempre quis ter um ateliê, mas ele preferiu que eu passasse quatro anos estudando modelagem estatística e teoria dos jogos na London School of Economics, LSE, é um alívio saber que em setembro vou finalmente começar estudar moda. Cruzei as portas giratórias de vidro do arranha-céu no Bishopsgate. O edifício da Dunford Holdings era elegante, mas tinha um ar frio e triste, os vár
A viagem de volta da Cornualha para Londres seguia perfeitamente bem. Apoiei a cabeça contra o vidro da janela, observando as paisagens, aos poucos apareciam os subúrbios da capital. No meu colo, eu segurava com cuidado uma bolsa com as coisas que ganhei nessas duas semanas, um livro de fotografias antigas da costa britânica que Sam havia garimpado em um sebo - Com dedicatórias hilárias escritas nas margens de quase todas as páginas - Também tinha o par de brincos de cerâmica pintados à mão de Chloe, o vestido que foi feito por mim e um colar que tinha uma concha como pingente dado por Nicholas, que sempre guardarei com carinho. Eu sabia que as coisas que eu vivi aqui eram de fato o maior presente, nunca cansaria de olhar pro anel no meu dedo e me lembrar dele. Me despedir deles foi difícil, mas eu sabia que era só um “até logo”. Ao abrir a porta de madeira do apartamento, o aroma familiar de café fresco e livros antigos
A minha última semana na Cornualha passou voando, foram dias tão especiais. Depois do festival, passamos bastante tempo na praia, inclusive eu estava cada vez melhor no surfe - Tinha conseguido surfar por quase dois minutos seguidos - Eu estava gostando do mar pra valer, Nicholas tinha razão, eu só precisava conhecer o mar e as ondas gigantes não me impediriam de curtir a praia. Teve um dia que nós fizemos trilha pela costa até uma vilazinha de pescadores, Mousehole. Foram quilômetros de caminhada com o vento batendo no rosto e muitas conversas. Teve um momento que minhas pernas simplesmente travaram, eu não tinha costume com trilhas, o Nicholas me segurou em suas costas e continuou o caminho como se não fosse nada, ele era um cavalheiro. Quando chegamos lá, devoramos uns sanduíches de presunto no píer de pedra. Aconteceu alguns beijos, e em todos meu corpo respondia com intensidade, Chloe e Sam viram um desses beijos, fiquei grata por não comentarem nada. Numa noite, o Nicholas m







