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Capítulo 3

Author: Senhora Bêbada
Minha gravidez nunca foi um acidente.

Passei a noite em claro. Pouco antes do amanhecer, vi uma mensagem no grupo da família.

Ontem, Breno havia consultado a mãe dele, Erica Dias, sobre a canja de galinha.

Agora, Erica dizia no grupo:

— Fiz uma panela de sopa, levo aí daqui a pouco.

Levantei-me e fui para a sala. O apartamento estava vazio e silencioso. Ele ainda não tinha voltado.

Meu coração afundou.

Lavei o rosto com água fria, chamei um carro e fui direto para o hospital.

Peguei uma senha e fiz os exames.

Enquanto esperava pela cirurgia, adicionei minha família ao grupo também.

Meu irmão, a caminho do trabalho, mandou um ponto de interrogação no grupo, confuso.

A enfermeira chamou meu nome.

Antes de entrar na sala de cirurgia, enviei o histórico de conversas que havia organizado para o grupo.

Quando me deitei, a luz era um pouco forte demais.

Fechei os olhos, sentindo uma calma profunda no coração.

Minha mão instintivamente acariciou meu ventre, ainda plano.

Tão cedo, será que a pequena vida lá dentro podia sentir que esta era a minha despedida?

Uma lágrima escorreu pelo canto do meu olho e pingou no travesseiro.

Breno disse que era um presente dos céus. Ele estava tentando enganar a si mesmo.

Tínhamos combinado que passaríamos esta vida apenas nós dois, apoiando um ao outro.

Uma vez, vimos um velhinho empurrando uma cadeira de rodas na esquina e dissemos, com inveja, que queríamos ser assim no futuro.

Mesmo que um de nós não pudesse mais andar, o outro o levaria para onde quer que fosse.

Eu hesitei sobre ter filhos, mas ao vê-lo tão feliz, comecei a esperar ansiosamente pela chegada do bebê também.

As roupinhas adoráveis que meu irmão comprava amoleciam meu coração.

Ele estava ainda mais animado que Breno:

— Eu serei o tio mais babão do mundo.

Antes de fechar os olhos, senti uma profunda tristeza por meu irmão.

Não conseguia imaginar sua fúria ao ver aquelas conversas nojentas no metrô em pleno horário de pico.

A cirurgia terminou. Quando abri os olhos, estava um pouco atordoada.

Ao sair, vi a luz do sol caindo sobre o corredor manchado, e um vazio tomou conta de mim.

Peguei o celular da bolsa. Inúmeras chamadas perdidas. Breno não parava de ligar. Atendi.

— Onde você está? — Sua voz tremia um pouco.

— Grace, onde diabos você está?!

Sem obter resposta, ele gritou, furioso.

— No hospital. Avise sua mãe que o bebê se foi.

Desliguei na cara dele, sem querer ouvir sua voz por mais um segundo.

Continuei andando para fora, olhando para o celular. Havia mais de mil mensagens no grupo da família.

Meu irmão deve ter sido o primeiro a ler tudo.

Sua primeira mensagem marcou Breno:

— Seu desgraçado, onde você está agora?

Ninguém o repreendeu. Erica demorou a aparecer:

— Grace, você está em casa? Estou indo para aí. Não faça nada por impulso com o bebê.

Ela marcou Breno repetidamente, mas ele não respondeu.

Minha mãe, como uma espectadora confusa, só entendeu a situação naquele momento:

— Quem é essa mulher?

Meu irmão perdeu o controle e começou a enviar áudios de 60 segundos no grupo:

— Breno, seu canalha sem-vergonha! Você me apresenta uma vadia como namorada? Como ousa fazer isso com a minha irmã, comigo...?

Breno não apareceu em momento algum, deixando sua mãe tentar explicar e acalmar as coisas.

Deslizei o dedo até o final, como se assistisse a uma farsa que não tinha nada a ver comigo.

Minha lista de contatos estava cheia de notificações. Todos estavam me procurando.

Ao chegar à entrada do hospital, vi Breno correndo para dentro, tropeçando.
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