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last update publish date: 2026-06-28 07:02:22

Ele me quer como mulher, como objeto de prazer, como troféu para exibir aos seus amigos. Mas depois, volta a ser o monstro.

E as suas paranoias parecem crescer a cada dia. Toda vez que ele chega em casa, já vem à minha procura, me caçando como um predador à espreita de sua presa. Ele sai vasculhando pela casa toda, revirando gavetas, mexendo em meus pertences, procurando por algo que o incrimine, por alguma prova de traição. E, ao me encontrar, me interroga, me questiona, me acusa. Pergunta o que eu estava fazendo, com quem eu estava falando, onde eu estava indo. Parece um interrogatório policial, uma investigação criminal.

É engraçado como, em meio às suas paranoias, Davi se esquece de que me mantém trancada em casa, de que me proíbe de falar com qualquer pessoa, de que me isola do mundo. Então, onde mais eu poderia estar, a não ser ali, presa em sua teia, sob o seu domínio?

Sempre que me olha nos olhos, com aquele olhar frio e possessivo, ele sussurra: "Você é minha. Somente minha. Ninguém nunca vai te tirar de mim. Eu sou o seu homem, o seu dono, o seu tudo." E, em seu olhar gélido, vejo o prenúncio de uma loucura, a certeza de que ele está planejando algo terrível, algo irreversível.

Também percebo que ele não está mais suportando Otávio, que a presença do pai o irrita, o sufoca, o envenena. E, para a minha surpresa, quando Otávio ousa proferir alguma ofensa contra mim, Davi me defende, me protege, me ampara. É como se, em meio à sua loucura, ele ainda sentisse algum tipo de afeto por mim, algum resquício de humanidade.

De qualquer forma, sou proibida de falar com Otávio, de dirigir-lhe sequer uma palavra. E isso não me afeta em nada, pelo contrário, acho até bom. Prefiro o silêncio ao veneno, a distância à proximidade.

Quando Otávio está em casa, me tranco no quarto, me escondo, me torno invisível. Evito ao máximo o contato com ele, com medo de suas palavras, de suas provocações, de suas manipulações.

Mas, em meio a essa escuridão, vislumbro uma brecha, uma oportunidade, uma chance de escapar. Talvez seja a minha salvação, a minha libertação. Ou talvez seja a minha perdição total, a minha ruína.

Quando surge a oportunidade, quando Davi está de bom humor, mais calmo, mais carinhoso, ele me deseja, me quer na cama. E eu, aproveitando a ocasião, me entrego a ele, me submeto aos seus desejos, mas também planto a semente da discórdia, da vingança.

Sussurro em seu ouvido, enquanto o acaricio, enquanto o beijo, palavras venenosas, instigando a sua vaidade, o seu orgulho, a sua sede de poder.

—Meu amor, o seu pai quer mandar em você, te controlar, te manipular. Ele não te respeita, não te valoriza. Ele te trata como um garotinho, como um fantoche. Mas você não é mais um garoto, Davi. Você é um homem, não aquele menino que ele fazia sofrer. Você é muito maior do que ele, muito mais forte, muito mais poderoso. Ele tem medo de você, sabia? Ele que precisa da sua aprovação, não você da dele. É ele que te inveja, que te admira, que te venera. É ele que quer me tirar de você, que quer me mandar embora. Mas eu sou sua, meu amor. Somente sua.

Vou falando, vou insinuando, vou provocando. E vejo em seus olhos negros e frios o brilho da maldade, a chama da loucura. Um sorriso maquiavélico se desenha em seus lábios, revelando a sua verdadeira natureza, a sua alma corrompida, a sua essência sombria. Estou alimentando os seus demônios, a sua obsessão por mim. Sei que, ao fazer isso, estou incentivando o seu lado sombrio, a sua sede de vingança. Sei que estou correndo um grande risco, brincando com fogo. Mas preciso me libertar da maldade de Otávio, do seu veneno, da sua influência. Preciso reconquistar a minha liberdade, a minha dignidade, a minha vida.

Preciso ver se consigo, ao menos por um instante, me sentir livre, feliz, amada. Anseio por um respiro em meio à opressão, um vislumbre de esperança em meio à escuridão. Mas, como uma cruel ironia do destino, meus devaneios são interrompidos por um som alarmante.

Crash, crash, crash...

Um estrondo corta o silêncio do meu quarto, me dando um susto, me obrigando a despertar dos meus sonhos e a encarar a dura realidade. Um som seco e violento me faz pular da cama, com o coração disparado. São 18h50, ainda tenho algumas horas de "paz" antes da chegada de Davi, mas a tranquilidade do entardecer é abruptamente quebrada pelo ruído que ecoa no ar.

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