LOGINCrash! Outra pedrada! A violência do som me faz estremecer, a urgência do chamado me tira do torpor. Instintivamente, me levanto e corro até a varanda do meu quarto, o coração pulsando forte no peito.
A porta está trancada, como sempre, mas, através do vidro, vejo Fernanda lá embaixo, acenando freneticamente. —Isa, sai aí rapidão! Tenho um negócio aqui pra você! — ela grita, com a voz carregada de excitação e um toque de impaciência. E, para enfatizar o seu pedido, atira outra pedra. Crash! Mais uma pedrada no vidro, desse jeito ela vai acabar quebrando. —Fernanda, o vidro! Você vai quebrar tudo! — grito de volta, sentindo uma pontada de preocupação. — Espera aí, vou pegar a chave, tá? Sei exatamente onde Davi esconde a chave da varanda. Caminho até o closet, subo na mesinha, estico o braço e a retiro de cima de uma caixa empoeirada. Com a chave em mãos, corro de volta para a porta e a abro, ansiosa para encontrar a minha amiga. Mas, assim que coloco os pés para fora, sou surpreendida por uma pedrada certeira que atinge a minha cabeça. —Aí! Minha cabeça, Fernanda! — exclamo, levando a mão ao local atingido, sentindo uma dor latejante. —Te acertei? Hahahahah! — ela gargalha lá embaixo, sem demonstrar o menor remorso. —Vai ficar um galo! — resmungo, massageando a área dolorida. Aproximo-me da beira da sacada e vejo Fernanda se acabar de rir, com as bochechas coradas e os olhos brilhando de travessura. Mas, ao observá-la com mais atenção, noto algo que me causa um aperto no coração. Percebo uma roxura discreta em seu rosto, uma sombra de tristeza em seu olhar. É como se estivéssemos fadadas ao mesmo destino, presas em um ciclo vicioso de dor e sofrimento. Ela sorri, mas seus olhos não têm aquele brilho intenso de outrora. É evidente que a vida também não tem sido fácil para ela. —Ficar aí sorrindo e deixar Davi chegar e te ver aqui! — digo, tentando soar ameaçadora, mas a verdade é que o seu bom humor é contagiante, e um sorriso escapa dos meus lábios. —Tá, parei... — ela responde, ainda rindo, mas logo se recompõe. — Olha, te trouxe duas coisas! — exclama, mostrando os objetos em suas mãos. — O livro que você tanto queria, lembra? Achei! E um celular pra gente conversar, mas esconde bem, não deixa Davi nem sonhar que ele mata nós duas! —Isso é loucura, Fernanda! Mas pode deixar comigo — digo, sentindo um misto de excitação e apreensão. — Onde você achou esse livro? — pergunto, curiosa. —Depois eu te explico! Agora, vou jogar! Segura! — avisa, preparando-se para arremessar o celular. Respiro fundo e estico os braços, tentando me concentrar para não deixar o aparelho cair. Mas, no instante em que o celular chega às minhas mãos, escorrega e cai no chão, trincando a tela. —Ai, meu Deus! — exclamo, examinando o dano. — Ufa, tudo bem, só trincou — digo, aliviada, tentando esconder a frustração. —Quebrou? — pergunta, com a voz carregada de preocupação. —Só trincou, mas tá bem! Pode mandar o livro — respondo, tentando disfarçar o nervosismo. —Lá vai! — grita, arremessando o livro com toda a sua força. O objeto voa pelo ar, descrevendo uma trajetória incerta, e eu estico os braços, prendendo a respiração, torcendo para que ele não caia no chão. Por um instante, sinto o peso do livro em minhas mãos, a textura macia da capa, o cheiro inconfundível de papel velho. Sorrio, aliviada, e abraço o meu novo tesouro, sentindo um fio de esperança renascer em meu peito. —Obrigada, meu amor! — digo, com os olhos marejados de emoção. Aquele simples gesto da Fernanda significa muito para mim. É um sopro de vida em meio à escuridão, uma lembrança de que ainda sou capaz de amar e ser amada. —Pra você ficar lendo, pra não ficar entediada — responde, com um sorriso doce, que logo se desfaz em um semblante triste. — E o celular é pra gente conversar, matar a saudade, fofocar... Isa, eu... eu estou tão infeliz — confessa, com a voz embargada, revelando a dor que carrega em seu coração. —Eu também, Fernanda. Nada saiu como a gente queria, né? — respondo, sentindo um nó na garganta. A amargura da nossa realidade nos une, nos conecta em um laço de sofrimento e esperança. —Não... E o pior de tudo é que não temos um lugar seguro pra voltar, um porto seguro onde possamos nos refugiar. Sempre somos as erradas, as culpadas... A minha mãe sempre diz que a culpa de tudo é minha, que eu dei motivos para isso acontecer — diz, com a voz embargada, apontando para a roxura em seu rosto. — Olha essa marca... Fui eu que provoquei, com a minha teimosia, com a minha rebeldia.— Medo? Aquele verme nunca sentiu medo! — vocifero, apertando seus ombros com força. — Ele usou a gente para ter um motivo! Para justificar seus atos! A sua filhinha nunca mais vai voltar, porque ele precisava de uma desculpa! A fortuna que vou fazer deseja pegar, esquecer ele já levou... Ele quer o poder, Lara! Sempre foi sobre o poder para aquele monstro!— Não... Você está equivocado. Está louco! — ela murmura, mas vejo o medo dançar em seus olhos.— Louco? Eu que fui cego! — berro, sacudindo-a com violência. — O Davi foi o estrategista desde o início! Ele nos deixou fazer o trabalho sujo, enquanto ele se escondia nas sombras! Aquele verme nos enganou como ninguém! Ele sempre soube onde estávamos, o que planejávamos... Cada passo, cada movimento, ele controlava tudo!As peças se encaixam em minha mente, revelando o plano diabólico do Davi. A praia... A casa... Tudo fazia parte de sua macabra orquestração.— Na praia, ele se expôs! A casa, ele nos entregou de bandeja! Aquele maldito
O desgraçado estava falando a verdade! Imagens comprometedoras, documentos sigilosos, tudo ali, pronto para ser divulgado.— Desgraçado... — Com a voz carregada de raiva.Respiro fundo, tentando controlar a fúria que me consome. Preciso manter a calma, pelo menos por enquanto.— Lara, abra o cofre e dê a metade para ele. — Com a voz fria e calculista.— O quê? Você está louco? — Com a voz indignada.— Agora, Lara! Não discuta! — Com a voz firme e autoritária.Lara me encara com raiva, mas acaba cedendo. Ela caminha até o cofre embutido na parede, gira a combinação e abre a porta. Seus olhos brilham de cobiça ao contemplar a pilha de dinheiro. Com relutância, ela pega maços de notas e os coloca em um saco de lixo preto. Entrega o saco a Joel, com um olhar de puro ódio.— Foi bom fazer negócios com vocês, hahaha! Mas antes de ir, deixa eu dar um conselho de amigo... — Ele se aproxima da porta, mas se vira antes de sair. — Achei uma coisinha interessante lá fora e trouxe para vocês. Est
Pego uma garrafa de whisky, a textura fria do vidro aliviando um pouco a tensão. Despejo uma generosa dose em um copo de cristal e engulo o líquido de uma vez, sentindo o álcool queimar minha garganta.— Nervosinho porque não teve nenhuma notícia? Isso que dá confiar em vagabundo. — Com sarcasmo.Uma risada sinistra ecoa na sala, me dando um susto. Sinto um arrepio percorrer minha espinha, e percebo que estou vulnerável, desarmado. As luzes se acendem de repente, revelando Joel sentado em uma das poltronas, com um sorriso debochado estampado no rosto.— Hahahahah! "Pole pocket do camelô, não para de se achar a tal"... ei Vagabundo, não! Malandro é diferente... Então, Leandro, vim buscar o meu pagamento. Afinal, um trabalho bem feito merece ser recompensado, não é mesmo? — Com um tom zombeteiro.Fico paralisado por um momento, a confusão tomando conta de mim.— Como assim? Cadê o resultado? — Com a voz hesitante.— Verifique seu celular, chefe. As notícias estão lá. — Com um sorriso e
. Ela se aproxima, servindo-nos com um sorriso enigmático que não alcança seus olhos. Cada movimento seu exala poder e controle, como uma rainha venenosa em seu trono. Pego a taça, sentindo o aroma intenso do vinho. O cheiro embriagante quase me faz esquecer a frieza da situação, mas o olhar de Lara me traz de volta à realidade. Há algo diferente no ar, uma tensão palpável que antecede a tempestade. Ela levanta sua taça, o brilho das joias em seus dedos refletindo a luz fraca do candelabro.— À conclusão bem-sucedida dos nossos planos... E aos tolos que ousaram nos desafiar. — Com a voz melodiosa e um sorriso predador.Dou um sorriso de volta, um reflexo sombrio do sorriso dela.— À nossa vitória inevitável... E ao sabor doce da vingança. — Erguendo a taça.Nossos olhares se cruzam, e sei que ambos estamos pensando na mesma coisa: o jogo está apenas começando.(...)Horas depois...23:00 da noite...Suspiro pesadamente, sentindo o peso do dia esmagá-lo. Ele observa o relógio na parede
— Não seja ridículo, Joel. Faça o que estamos mandando, e a sua vida mudará para sempre. Se fizer isso, pagaremos o dobro do que costuma cobrar. Pense bem. Você terá mais dinheiro do que jamais sonhou. — Com a voz gélida, os olhos fixos em Joel.— O dobro não me interessa. Quero a metade da carga. — Com um sorriso ganancioso, mas com um brilho de maldade nos olhos.— Não. — Com a voz carregada de desprezo.— Então, boa sorte com os colombianos. Vou nessa. — Se levantando, com um olhar frio e ameaçador.Joel se move em direção à porta, mas Lara, com a agilidade de uma felina, surge em seu caminho, a arma em punho, implacável. A atmosfera se carregar como uma tempestade prestes a explodir. Joel, com sua audácia que desafiava o bom senso, encarava Lara como se ela fosse um mero incômodo.— Acho melhor você obedecer. — diz ela, rosnado com um tom autoritário.— Escuta aqui, bonequinha de luxo... antes de apontar essa peixeira fajuta pra mim, olha no espelho. Acha que essa pose de justicei
— Ah, Leandro... Você está com medo? Que fofo! Não se preocupe. Eu já tenho um plano B, um plano C e um plano D. Sou uma mulher de recursos, meu querido. E não tenho medo de sujar as mãos. — Com um tom de voz irônico, como se estivesse falando com uma criança.Lara pega uma taça de vinho e bebe um gole lento e elegante, saboreando o momento. Ela me observa por cima da taça, com um olhar de puro desprezo e... desejo? Não importa. O que importa é que ela está ao meu lado. E juntos, somos imbatíveis.De repente, ouvimos passos pesados vindos do interior da casa. Saco a arma em um movimento rápido e instintivo, mirando na direção dos passos. A adrenalina explode em minhas veias, me preparando para o pior. Então, Joel surge na sala, com um sorriso cínico no rosto e as mãos erguidas em sinal de paz.— Ou, ou, relaxa, parceiro! Calma, coração! Cheguei pro trabalho. Não precisa me receber com essa grosseria toda. — Com a voz rouca e debochada.Rosno de raiva e abaixo a arma, controlando a von







