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Capítulo 4

Author: Yolk Chips
Talvez fosse fome demais.

Meu estômago estava vazio a ponto de doer, revirando em pontadas fracas e incômodas.

Com as mãos trêmulas, tirei do bolso o pedaço de chocolate que tinha guardado. Sem pensar mais em economizar, enfiei o resto na boca de uma vez.

O gosto doce e enjoativo mal conseguiu aliviar aquela aflição no peito, mas a sensação de tontura ficou ainda mais forte.

Ondas de frio começaram a atravessar meu corpo, piores do que antes, quando eu ainda esperava do lado de fora. Não era só o vento. Era um frio que parecia nascer de dentro, escorrendo pelas frestas dos ossos.

Apertei a mantinha com mais força em volta de mim, mas aquele pouco de calor parecia escapar por entre os dedos. Nada conseguia me aquecer.

Quando eu já estava quase perdendo o equilíbrio, um carro preto surgiu ao longe e parou devagar na entrada do posto.

Como se estivesse agarrando minha última chance, juntei o resto das forças e fui me arrastando até lá.

O motorista abaixou o vidro. Era um homem que eu nunca tinha visto.

— Senhor... será que o senhor pode me emprestar seu celular? Eu... eu estou passando mal...

Minha voz saiu tão fraca que mal parecia minha.

O homem se assustou por um instante, mas logo tirou o celular do bolso e me entregou.

— O que houve com você, menina? Você está pálida desse jeito por quê?

Nem consegui responder. Com os dedos duros, disquei o número do meu pai.

Dessa vez, atenderam rápido.

— Pai...

Minha voz saiu embargada, tremendo tanto que quase se desfez.

— Meu tio... quando ele vem? Eu estou me sentindo muito mal... minha cabeça está girando, meu coração está batendo tão rápido... será que eu fiquei doente?

Do outro lado da linha, a voz do meu pai veio carregada de impaciência:

— O que foi agora? Eu já não falei pra você esperar? Seu tio saiu faz tempo. A estrada está meio engarrafada, mas ele já está chegando.

— Não consegue esperar nem mais um pouco? Quem mandou você ficar enrolando e não entrar no carro? Agora aguenta.

— Não é isso, pai... eu estou passando mal mesmo...

Minha tentativa de explicar soou fraca até para mim.

— Pronto, chega. Para de arrumar confusão e fica esperando quieta! Em pleno Ano-Novo, você só sabe dar trabalho!

A ligação caiu de novo, e o tom da ligação encerrada soou no meu ouvido como um espinho de gelo.

Abri a boca, querendo dizer de novo que eu realmente não aguentava mais, mas, antes que qualquer som saísse, a ligação já tinha sido cortada.

Fiquei parada, segurando o celular, atordoada, e por um instante até esqueci de devolvê-lo ao homem.

Quando ele pegou o celular de volta, me consolou com gentileza:

— Calma. Sua família deve estar chegando. Quer esperar um pouco dentro do meu carro, pra se aquecer?

Balancei a cabeça.

Tive medo de sair dali e meu tio acabar não me encontrando. Então só consegui forçar um "obrigada" e fui me arrastando de volta para o mesmo lugar.

Não sei quanto tempo passou.

A tremedeira no meu corpo foi cedendo aos poucos, e meu coração também desacelerou.

Mas eu não me senti melhor.

Meus braços e minhas pernas pareciam não me obedecer mais, rígidos, pesados, como se já nem fossem meus.

Tentei bater os pés no chão para me aquecer, mas até erguer a perna exigia esforço. Me movia devagar demais, como numa cena em câmera lenta.

A noite já tinha caído de vez.

Olhei para a entrada do posto, perdida, e minha visão ficava cada vez mais turva, enquanto minha consciência começava a se desfazer.

Cerrei os dentes e, reunindo o resto de força que ainda tinha, comecei a me arrastar pela lateral do prédio do posto, um passinho de cada vez.

Respirar...

estava ficando cada vez mais difícil.

Era como se alguém apertasse minha garganta, ou como se uma pedra enorme esmagasse meu peito.

Mantive a boca aberta, tentando puxar mais ar, desesperada, mas cada respiração saía curta, apressada, insuficiente.

Minha visão começou a falhar de vez. A luz dos postes se espalhava diante dos meus olhos, virando manchas trêmulas e difusas.

Minhas pernas cederam.

Sem força nenhuma, me abaixei até o chão e fiquei encolhida sobre o piso gelado.

A mantinha escorregou dos meus ombros e caiu pela metade, mas eu já não tinha forças nem para puxá-la de volta.

Que cansaço...

Minhas pálpebras pesavam tanto que eu mal conseguia mantê-las abertas, e minha consciência afundava cada vez mais.

No meio daquele torpor, tive a impressão de ver meus pais correndo na minha direção, aflitos, não muito longe dali.

E, antes de fechar os olhos por completo, pensei: Que bom, vocês finalmente vieram me buscar...
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