MasukPOV de MarianaNove anos atrásA água quente caía sobre o meu corpo, relaxando os músculos doloridos. Eu tava de olhos fechados, sentindo o vapor encher o banheiro, o cheiro de sabonete. Por um instante, eu quase esqueci. Quase esqueci o câncer, o Júlio, o medo.Então abri os olhos.Mechas de cabelo. Espalhadas pelo ralo. Presas nos meus dedos. Caindo pelos ombros, pelas costas, pelas pernas.Fechei os olhos de novo. Respirei fundo. O coração apertou."Calma, Mariana. Você sabia que isso ia acontecer."Mas saber não tornava mais fácil. Cada mecha que caía era um pedaço de mim que ia embora. Um pedaço da mulher que eu era. Da mãe que eu queria ser. Da pessoa que eu lutava pra continuar sendo.Saí do banho. Me sequei devagar. Olhei no espelho. O cabelo tava ralo, falhado. Já não era o mesmo. Nunca mais seria.Peguei a tesoura na gaveta.E cortei.Não foi bonito. Não foi profissional. Foi rápido, brutal, necessário. Mechas caindo no chão, no lavatório, nos meus pés. Até não sobrar quase
POV de MarianaNove anos atrásA janela do quarto do hospital dava para um jardim pequeno, com árvores sem folhas e bancos vazios. Eu olhava pra fora, o corpo dolorido, a cabeça pesada. A quimio tinha sido forte dessa vez. As dores nas costas não paravam. A náusea vinha em ondas.Eu tava de roupa de hospital, aquela bata azul clara que não esquentava nada. Os pés descalços no chão frio. O cabelo já tinha começado a cair. Pedaços espalhados no travesseiro, na fronha, no chão.Preciso ser forte. Preciso ser forte.Mas era difícil. Cada dia era uma luta. Cada sessão de quimio me deixava mais fraca. Cada exame trazia resultados que eu não queria ouvir. O Mark dizia que eu tava respondendo bem. Mas eu não sentia isso. Eu sentia que tava morrendo aos poucos.Peguei o celular. Abri a galeria. A Lisa. O rostinho dela sorrindo, os dentinhos aparecendo, os olhos verdes brilhando. A foto tinha sido tirada na semana passada, na casa da Gabriela. Ela tava com a Him, as duas brincando no chão da sa
POV de MarianaNove anos atrásA mansão da Gabriela era enorme, iluminada, segura. O tipo de lugar onde nada de ruim acontecia. Mas eu tava ali, na porta, com a Lisa no colo, sentindo o peso do mundo nos ombros.A Gabriela abriu a porta. O sorriso dela morreu quando me viu."Mariana? O que aconteceu? Você tá pálida.""Preciso falar com você."Ela me fez entrar. O Adrian tava na sala, brincando com a Him no chão. A menina tava rindo, batendo palminhas. Quando me viu, o Adrian levantou."Vou levar a Him pro quarto.""Obrigada." Sussurrei.Ele pegou a Him no colo. Antes de sair, olhou pra Gabriela. Ela assentiu, e ele entendeu. Saiu sem perguntar nada.Sentei no sofá. A Lisa no colo, dormindo. O cheirinho de bebê, o calor do corpinho."Fala." A Gabriela sentou na frente."Eu tenho câncer de pulmão."O rosto dela empalideceu."O quê?""Câncer de pulmão. Tumor no pulmão direito. Pode ser removido. Mas pode voltar.""Mariana...""Eu tô me tratando. O Mark tá cuidando de mim. Mas eu preciso
POV de MarianaNove anos atrásO câncer tava me consumindo por dentro. Eu sentia o corpo mais fraco a cada dia, a dor nas costas que não passava, o cansaço que não era normal. O Mark tinha dito que eu precisava começar o tratamento logo. Mas eu não podia. Não ainda. Primeiro, eu precisava resolver o Júlio.Ele tava no escritório, como sempre. A mesa de mogno, o uísque, o cheiro de cigarro. Quando entrei, ele sorriu."Marianita. Sentiu minha falta?""Vim saber qual é o teu problema.""Problema?" Ele riu. "Eu não tenho problema.""Tem sim. Eu tô aqui há semanas, resolvendo as tuas merdas. Mas tu não me contou tudo. Qual é o real problema, Júlio?"Ele parou de rir. Olhou pra mim com aqueles olhos frios."Os cozinheiros de metanfetamina tão indo pra outros cartéis. Eu matei vários. Mas eles não ficam. Tão com medo de mim? Não. Tão indo porque alguém tá pagando mais. Alguém tá oferecendo proteção.""Quem?""Não sei. Ainda." Ele tomou um gole de uísque. "Mas eles te respeitam, Marianita. Se
Pov de MichaelNove anos atrásO barraco estava frio. A chuva batia no telhado de zinco, o som enchendo o silêncio. Eu estava sentado na cama, o caderno no colo, o lápis na mão. Mas não consegui desenhar. Minhas mãos tremiam. A imagem do Túlio caindo não saiu da minha cabeça. Ó sangue. Os olhos abertos. O corpo no chão de mármore.Toda vez que eu fechava os olhos, eu via.A porta.A Chloé entrou, o cabelo molhado, o sorriso nos lábios. Ela tava com uma sacola na mão."Trouxe comida. E um livro que eu acho que você vai gostar. É sobre um pintor""Vai embora."Ela pariu."O quê?""Vai embora, Chloé. Não quero você aqui.""Michael, o que aconteceu?""Nada. Só vai embora."Ela fechou a porta. Colocou a sacola no chão. Veio até mim."Michael, olha pra mim."Não."Você está me assustando. O que aconteceu?""Eu disse pra você ir embora!" Gritei, me levantando. O caderno caiu no chão. O lápis rolou pra debaixo da cama. "Você não entende? Eu não quero você aqui. Eu não quero você. Eu não te am
POV de GabrielaO sol de Miami se despedia no horizonte, pintando o céu de laranja e rosa. A gente tava no carro, a caminho do aeroporto, o silêncio confortável entre nós. Eu olhava pela janela, vendo a cidade passar, as palmeiras, as praias, os prédios. Uma semana. Só uma semana, mas parecia que a gente tinha vivido um ano."Eu te amo, sabia?" Adrian disse, sem tirar os olhos da estrada."Sei." Sorri. "Você me disse umas cinquenta vezes essa semana.""É pouco. Deveria ser umas cem.""Você é bobo.""Sou. Mas você me ama.""Infelizmente."Ele riu, pegando minha mão."Queria ficar mais tempo com você.""Eu também." Apertei os dedos dele. "Mas a gente tem responsabilidades. As meninas. A empresa. A vida.""A vida é chata às vezes.""Às vezes." Concordei. "Mas a gente escolheu essa vida. E eu não trocaria por nada."Ele olhou pra mim, os olhos brilhando."Eu também não."O carro parou no aeroporto particular. O jato da família já tava na pista, o piloto esperando. Entramos, o cheiro de co







