LOGINPOV: CLARA MENEZES
Meu coração batia tão forte contra as costelas que eu tinha certeza de que um dos botões daquela camisa ia finalmente ceder, voar pelo jardim e furar o olho de algum passante. Eu estava em um nível de tensão que fazia a viagem de três dias no ônibus feder a flores do campo. É agora ou a rua, Clara. Respira fundo, mas não muito, senão a costura explode.
Toquei o interfone com a ponta do dedo trêmula.
— Pois não? — Uma voz masculina e metálica respondeu, com a simpatia de um iceberg.
— Clara Menezes. Eu... a Dona Bete da faculdade me indicou... — gaguejei, tentando não parecer uma fugitiva do hospício — ...tenho uma reunião com a Adelaide para a vaga de babá.
O portão fez um estalo alto, como se estivesse destravando a entrada para Nárnia, e começou a abrir lentamente. O caminho de pedras brancas levava a uma mansão que não era apenas uma casa; era um monumento à ostentação, com vidros espelhados que refletiam o quanto eu parecia uma impostora.
Caminhei devagar, puxando a saia para baixo a cada dois passos, me sentindo a própria Lady Gaga da periferia tentando se infiltrar em um evento da realeza. A cada puxada, a saia subia de novo, teimosa.
A porta principal foi aberta por uma mulher que parecia ter sido esculpida em granito puro. Ela usava um uniforme preto sem um único amassado, o cabelo grisalho preso num coque tão apertado que eu desconfiava que era por isso que ela não piscava. Sua expressão dizia claramente que ela não sorria desde que o rádio foi inventado.
— Atrasada três minutos — ela disse, consultando o relógio de pulso como se estivesse cronometrando um lançamento de foguete. — Sou Adelaide, a governanta. Entre. E limpe bem os pés. Não quero o barro do mundo lá fora no meu mármore.
Engoli em seco e obedeci, tentando não fazer barulho. O hall de entrada era tão grande que eu acho que caberia o meu bairro inteiro ali dentro. O ar-condicionado estava no nível "Era do Gelo", e meus braços por baixo do blazer da Isa se arrepiaram na hora.
— A Sra. Bete recomendou você — Adelaide começou, me escanenado de cima a baixo com um olhar que parou por dez segundos na minha saia, que estava gritando por misericórdia nos meus quadris. — Disse que você precisa do emprego. Espero que precise mesmo, porque as últimas três babás não duraram uma semana. O Sr. Cavallieri não tolera incompetência, atrasos ou roupas que... bem, que pareçam pequenas demais. E as meninas? As meninas são um projeto de terrorismo infantil.
— Eu aprendo rápido, Dona Adelaide. Eu sou do Pará, lá a gente sobrevive a tudo. Eu preciso muito disso.
— Veremos. Me acompanhe e tente não esbarrar em nada. Essas estátuas valem mais que a sua vida. As crianças estão na ala leste.
Começamos a atravessar o saguão que parecia um museu. De repente, o som de passos pesados e rápidos ecoou no andar de cima, descendo a escadaria de mármore como se o próprio trovão estivesse vindo ao nosso encontro. Adelaide parou bruscamente e baixou a cabeça em um respeito quase religioso.
— Silêncio. É o Sr. Cavallieri.
Olhei para a escada e senti o ar fugir dos meus pulmões. O oxigênio simplesmente se recusou a entrar. Descendo os degraus, ajustando as abotoaduras de um terno preto sob medida que exalava cheiro de conta bancária com muitos zeros, estava ele.
A Isadora tinha me avisado. Ela disse que ele era o diabo. Mas o que ela esqueceu de mencionar é que o diabo era o homem mais bonito, imponente e assustador que eu já tinha visto na vida.
Ele era alto. Ridiculamente alto. O tecido caro do terno abraçava os ombros largos com uma perfeição irritante. O cabelo escuro estava impecável, e a barba por fazer dava um ar de perigo que combinava perfeitamente com o maxilar quadrado. Ele estava no telefone e a voz dele... meu Deus. Era um barítono grave e rouco que parecia vibrar dentro do meu peito.
— Não me interessa a desculpa, Marco. Eu quero os números na minha mesa até o meio-dia ou você está fora da empresa e da cidade — ele sentenciou, com uma frieza que faria o ar-condicionado parecer uma lareira.
Ele chegou ao térreo e passou por nós como se fôssemos poeira cósmica. Ele nem virou o pescoço. Seus olhos eram de um azul tão profundo e gélido que eu senti um calafrio na espinha. Era um olhar de predador, de quem esmaga oponentes antes do café da manhã.
O Diabo está na minha frente, pensei, enquanto o rastro do perfume dele me atingia: sândalo, uísque caro, tabaco e puro poder. Meu coração não apenas falhou uma batida, ele entrou em colapso.
— Sr. Cavallieri — Adelaide murmurou, com uma submissão que eu nunca achei que aquela mulher de pedra teria.
Ele não respondeu. Apenas continuou sua marcha imperial em direção à porta, exalando uma fúria contida que parecia eletrificar o corredor. Ele saiu batendo a madeira pesada da porta principal e o som ecoou como um tiro.
Soltei a respiração, sentindo minhas pernas mais moles que gelatina.
— Ele... ele nem notou que a gente existe.
— O Sr. Cavallieri é um homem que decide o destino de milhares de pessoas — Adelaide disse, voltando a caminhar como se um furacão não tivesse acabado de passar. — Ele paga para que eu resolva detalhes domésticos. E isso inclui você. Sua função é manter as crianças vivas, alimentadas e, principalmente, em silêncio e longe do escritório dele. Se ele tiver que notar a sua presença para reclamar de algo, significa que você falhou miseravelmente. Entendido?
— Entendido — respondi, tentando alinhar o meu blazer que estava torto de tanto eu tremer. — Onde estão as pequenas feras?
Adelaide apontou para um corredor que parecia o caminho para o cadafalso.
— Na sala de brinquedos. Boa sorte, Srta. Menezes. Você vai precisar de toda a sorte do mundo e de um milagre.
O corredor era interminável. Meus saltos emprestados da Isa eram um número menor do que os meus pés, e cada passo no piso de madeira soava como uma contagem regressiva para eu cair de cara no chão. O sapato apertava, a saia subia, a blusa sufocava. Eu era um desastre pronto para acontecer.
Adelaide parou diante de uma porta dupla branca, decorada com adesivos de borboletas que pareciam estar ali apenas para enganar o inimigo.
— Escute bem — ela disse, com a mão firme na maçaneta. — A última babá saiu daqui chorando e precisou de terapia porque a Ângela cortou o cabelo dela enquanto ela tirava um cochilo de cinco minutos. A penúltima foi demitida porque a Geovana a convenceu de que o médico tinha receitado uma dieta estrita de sorvete de chocolate por três dias. Obviamente, as duas passaram mal e o Sr. Cavallieri quase demitiu a mim também.
Engoli em seco, puxando a barra da saia para baixo pela milésima vez.
— Elas... elas são bem criativas, não é? — tentei sorrir. Adelaide não sorriu de volta.
— Elas são carentes, altamente inteligentes e têm o temperamento do pai. Uma combinação explosiva. — Adelaide abriu a porta. — Você tem até as dezessete horas. Se a casa ainda estiver de pé, as meninas não estiverem carecas e ninguém estiver sangrando quando eu voltar, conversamos sobre o contrato. Caso contrário, a rodoviária é logo ali.
Sem esperar minha resposta, ela me deu um leve empurrão para dentro e fechou a porta. O clique da fechadura soou como o fechamento de uma cela de segurança máxima.
Ótimo. Eu, uma saia a vácuo e duas mini-versões do Diabo. O que poderia dar errado?
POV / CLARAO som da porta da frente batendo indicou que a Isadora finalmente havia levado Adrianzinho,Helena e a Isadora para o passeio. O silêncio que se seguiu na mansão era raro, denso e precioso.Sorri ao pensar na Isadora e no Mathew lidando com a energia caótica dos meus pré-adolescentes na casa deles, enquanto nós, finalmente, tínhamos o nosso momento de respiro após uma semana cheia.Subi para a suíte principal, precisando de um banho demorado para lavar o cansaço acumulado das sessões no consultório de psicologia e das demandas infinitas que uma casa com cinco filhos exige de mim. Enquanto a água morna caía pelas minhas costas, ouvi os passos pesados e decididos que eu reconheceria até no meio de uma multidão barulhenta. Adrian parou no batente da porta de vidro. Mesmo após tantos anos de casamento, aquele olhar predatório continuava intacto, capaz de me despir por inteira sem que ele precisasse mover um único dedo.— Saia daqui, Adrian — brinquei, jogando um pouco de água na
POV / CLARASentei-me na poltrona da varanda, deixando o sol suave da tarde de Porto Alegre aquecer meu rosto. Aos 37 anos, olhei para as minhas mãos e vi muito mais do que a aliança de diamante que Adrian me deu há mais de uma década; vi a história de uma mulher que sobreviveu à tempestade para encontrar o seu porto seguro.Lá embaixo, no jardim, a cena era um bálsamo para a alma. O pequeno Adrian Júnior, o nosso milagre de 9 anos, corria descalço pelo gramado chutando uma bola de futebol. Logo atrás dele, tentando inutilmente manter uma postura rígida de Diretor Geral, o Mathew corria segurando a Clarinha nos braços, enquanto a Isadora gritava da mesa do jardim para eles não estragarem as plantas. E bem no centro do Caos, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos e o sorriso que ele só mostrava para nós, estava o Adrian — o Imperador completamente rendido pelo herdeiro e por suas filhas.Ver o meu marido correndo atrás do nosso menino e das gêmeas, Helena e Isadora, q
POV / CLARA CAVALLIERIOs últimos meses passaram num sopro tão rápido que, se eu fechar os olhos, consigo ver minha vida passando diante dos meus olhos.Tivemos problemas e crises que pareciam que ia arrebentar o meu casamento com o Adrian serviu para nos reconstruir do zero. A minha gravidez do nosso terceiro filho — o nosso primeiro menino — foi a calmaria depois de tanta tempestade. Diferente da gestação das gêmeas, Isadora e Helena, que quase me destruiu fisicamente, esta foi completamente tranquila. Minha barriga cresceu bem menos, mantendo um formato redondo e discreto que não me pesava a coluna, e não houve nenhum sinal de risco.Consegui trabalhar no meu consultório de psicologia durante os primeiros meses da gestação sem sentir aquela exaustão doentia de antes.O Adrian simplesmente mudou da água para o vinho. Ele não aguentou ficar totalmente longe dos negócios, porque o sangue de CEO corre forte nas veias dele, mas montou uma estrutura de home office impecável na nossa mans
POV / MATHEWAbri o zíper da minha calça com pressa, libertando o meu pau que já estava completamente duro, uma barra de ferro rígida que latejava de tanto sangue acumulado. Segurei a Isadora pelo quadril, suspendendo o corpo magro dela de leve, alinhei a ponta do membro na entrada dela e cavei de uma vez só, descendo o peso dela contra o meu colo.O impacto do encaixe perfeito fez a Isadora soltar um gemido agudo e rasgado que ecoou alto dentro do teto baixo do carro. As paredes internas dela me esmagaram com um aperto violento, sofrendo espasmos involuntários que quase me fizeram gozar no primeiro movimento. Ela jogou a cabeça para trás, os cachos loiros grudando no suor da testa, enquanto começava a cavalgar de forma rápida, subindo e descendo com o quadril num ritmo feroz.O sexo ali dentro era abafado, cru e barulhento. O som molhado dos nossos corpos se chocando preenchia a cabine escura da SUV. Eu mantinha as minhas mãos grandes cravadas na cintura dela, ajudando a ditar aquele
POV/ MATHEW POV / MATHEWO Adrian tinha marcado um almoço de negócios para inaugurar a revitalização da praça central de Porto Alegre, um evento cheio de políticos e empresários da alta sociedade gaúcha. A Isadora chegou ao restaurante executivo de elite parecendo uma miragem. Loira, alta, magra, com traços marcantes que lembravam a própria Gisele Bündchen, ela usava um vestido justo que abraçava cada curva do seu quadril e chamava a atenção de cada homem naquele salão. Eu tentava manter a minha postura de apenas amigo e colega de trabalho, vigiando cada passo dela por trás dos meus óculos de descanso, mas a minha paz durou pouco.O Rocco surgiu logo em seguida, estragando o meu dia. Aquele engenheiro de cabelos pretos impecáveis e olhos verdes afiados caminhava com o charme sádico de quem conhece todos os segredos do ambiente. Ele foi direto cumprimentar a Isadora, pegando a mão dela com uma lentidão calculada e depositando um beijo demorado, mantendo as navalhas dos olhos fixas nos
POV / MATHEWEu sempre fui o tipo de homem que pautava a vida pela precisão métrica de uma planilha do Excel. Controle, rotina, horários britânicos e metas corporativas calculadas a frio. Minha existência na TechGlobal era uma linha reta, previsível e lucrativa, onde cada risco era pesado antes de se transformar em prejuízo. Se alguém me dissesse, há pouco mais de três anos, que a minha estrutura milenar seria implodida, mastigada e cuspida por uma garota de gênio indomável, eu mandaria o sujeito direto para o inferno sem pestanejar.Mas a verdade crua é que a Isadora virou o meu mundo de cabeça para baixo. Ela entrou na minha vida quebrando todas as minhas defesas e deixando um rastro de destruição por onde passava.Nesses quase três anos de relacionamento, nós desenhamos a definição exata de um caos compartilhado. Se a matemática não me falha — e ela nunca falha —, nós terminamos exatamente doze vezes. Uma média ridícula de quatro rompimentos por ano. Brigávamos por motivos completa







