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Capítulo 4

Autor: Maná Alves
last update Fecha de publicación: 2026-08-14 21:44:01

A van parou.

Valentina sentiu o corpo inteiro estremecer.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Então a porta traseira se abriu.

— Desça.

Ela não se moveu.

— Eu disse para descer.

Uma mão segurou seu braço e a puxou para fora.

Valentina tropeçou.

Suas pernas estavam dormentes depois de horas amarradas. As mãos, presas atrás das costas, tremiam sem controle. Um suor frio escorria por sua nuca.

Ela não sabia onde estava.

Não sabia quem a havia levado.

E não sabia o que aconteceria com ela.

A venda continuava cobrindo seus olhos.

— Por favor... — murmurou. — Eu não fiz nada.

Ninguém respondeu.

Foi conduzida por um corredor.

Depois por uma escada.

Uma porta se abriu.

Ela foi empurrada para dentro.

— Sente-se.

Valentina caiu sobre uma cama estreita.

O colchão era duro.

O quarto tinha cheiro de madeira antiga, sabão e mofo.

Não havia luxo.

Não havia decoração.

Era um quarto simples, provavelmente destinado aos empregados daquela enorme propriedade.

Ela ouviu a porta se fechar.

Passos se aproximaram.

Lentos.

Firmes.

Valentina prendeu a respiração.

Então sentiu dedos tocarem a venda.

O tecido foi retirado.

A luz a fez apertar os olhos.

Ela piscou algumas vezes.

E então o viu.

O homem estava parado diante dela.

Alto.

Vestido de preto.

O rosto parcialmente escondido pelas sombras do quarto.

Mas os olhos...

Valentina ficou imóvel.

Verdes.

Intensos.

Reluzentes.

Olhos que pareciam enxergar além dela.

Robert Moretti também ficou em silêncio.

Ele esperava encontrar uma mulher arrogante.

Uma cúmplice.

Alguém semelhante ao homem que havia destruído sua família.

Mas não esperava aquilo.

Cabelos negros e ondulados caíam sobre os ombros.

Pele morena.

Lábios carnudos.

E aqueles olhos acinzentados.

Robert jamais havia visto olhos daquela cor.

Por um segundo, esqueceu o motivo de tê-la trazido até ali.

Então se lembrou.

Matteo.

Seu pai.

O sangue.

A traição.

A raiva voltou.

— Então você é Valentina Contreras.

Ela engoliu em seco.

— Quem é você?

Robert deu um passo à frente.

— Você realmente não sabe?

— Não.

— Seu marido não fala de mim?

Valentina balançou a cabeça.

— Eu não sei do que está falando.

Robert soltou uma risada fria.

— Que conveniente.

— Eu estou com medo. Não sei onde estou. Não sei quem você é.

— Você está na minha casa.

Ela olhou ao redor.

— Por quê?

Robert a encarou.

— Porque seu marido está em dívida comigo.

Valentina franziu a testa.

— Matteo?

— Não finja.

— Eu não estou fingindo!

Robert aproximou-se.

— Seu marido roubou algo que era meu.

Aquela voz rouca e intimidadora fez os pelos de sua nuca arrepiarem.

— Eu não sei de nada.

— Claro que sabe.

— Não!

A voz dela ecoou pelo quarto.

Robert cerrou o maxilar.

— Você acha que pode me enganar?

— Eu não estou tentando enganar você!

— Matteo traiu minha família.

Valentina ficou em silêncio.

— Eu não sabia.

Robert riu novamente.

— Você espera que eu acredite nisso?

— Sim!

— Você é esposa dele.

— E daí?

— Daí que uma mulher como você sabe exatamente o que o marido faz.

Valentina sentiu as lágrimas surgirem.

— Você não me conhece.

— Não preciso conhecer.

— Então está cometendo um erro!

Robert segurou seu queixo.

— Cuidado com o que diz.

Ela tentou afastá-lo. mas incrívelmente aquele seu perfume amaderado a convencia a ficar.

— Me solte!

— Você esteve ao lado dele enquanto ele planejava tudo.

— Eu não estive!

— Seu marido matou homens da minha família.

Valentina arregalou os olhos.

— Eu não sabia!

Robert se afastou.

— Mentira.

— Não é!

Ela começou a se debater, tentando soltar as mãos.

— Eu não tenho nada a ver com os negócios de Matteo!

— Pare de mentir!

— Eu não estou mentindo!

— VOCÊ É UMA CONTRERAS!

A voz de Robert fez o quarto inteiro estremecer.

Valentina chorava.

— Eu sou a esposa dele, não cúmplice dele!

Robert ficou imóvel.

Ela respirou fundo, tentando controlar o medo.

— Eu nunca perguntei o que ele fazia. Nunca quis saber. Minha família me ensinou que mulheres como eu não devem se envolver nesses assuntos.

Robert estreitou os olhos.

— Então você admite que sabia.

— Eu sabia que ele era um homem perigoso. Não sabia que ele havia traído você!

Robert não respondeu.

Valentina continuou:

— Eu nem sabia quem você era até hoje!

Ele caminhou até ela.

— Você espera que eu tenha pena?

— Não.

Ela levantou os olhos.

— Só quero que me deixe ir.

Robert sentiu a raiva crescer novamente.

A imagem de Enrico no chão voltou à sua mente.

O sangue.

Os tiros.

A voz do pai.

Nunca abaixe a cabeça.

Ele olhou para Valentina.

Naquele momento, não enxergou uma mulher assustada.

Enxergou uma Contreras.

A esposa do homem que havia destruído sua família.

— Você é tão cínica quanto ele.

Valentina arregalou os olhos.

— Não sou!

— Cala a boca.

— Eu não vou!

O tapa veio antes que Robert pudesse pensar.

Estalo.

A cabeça de Valentina virou para o lado.

O silêncio tomou o quarto.

Ela ficou imóvel.

Uma lágrima escorreu pelo rosto.

Um pequeno fio de sangue apareceu no canto de seus lábios.

Robert congelou.

Olhou para a própria mão.

Depois para ela.

O que havia feito?

Por um instante, toda a raiva desapareceu.

Ele se aproximou.

— Eu...

Robert quase levou a mão até o rosto dela.

Valentina recuou imediatamente.

O gesto o atingiu de uma maneira que não esperava.

Ele deveria sentir satisfação.

Ela era a esposa de seu inimigo.

Deveria ser apenas uma peça na vingança.

Mas, ao vê-la acuada, com lágrimas nos olhos e o rosto marcado pelo golpe...

Algo dentro dele se apertou.

Robert retirou a mão.

— Fique aqui.

Valentina não respondeu.

Ele caminhou até a porta.

Antes de sair, olhou uma última vez para ela.

Os olhos acinzentados ainda estavam sobre ele.

Havia medo neles.

Mas também havia algo que Robert não esperava.

Desprezo.

Ele abriu a porta.

Bateu com força.

E saiu.

No corredor, Robert parou.

Passou a mão pelo rosto.

Sentia o peito estranho.

Pesado.

Como se tivesse cometido um erro.

Mas afastou aquele pensamento.

Ela era uma Contreras.

Era a esposa de Matteo.

Era parte da vingança.

Pelo menos era isso que Robert precisava acreditar.

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