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Capítulo 3: Novas Regras

last update Fecha de publicación: 2025-12-22 03:47:22

Na manhã seguinte, o prédio que durante cinco anos carregara o nome Beaumont Tech acordou diferente. Não era apenas uma mudança visual, era um deslocamento de poder quase físico, perceptível no ar.

A recepção agora exibia, de forma discreta e elegante, o novo logo: D’Avila Health AI. Letras metálicas, frias, impecáveis. Durante a madrugada, uma equipe da D’Avila Capital havia passado pelo prédio como um exército silencioso, trocando placas, atualizando sistemas, reorganizando acessos. Para quem chegava naquela manhã, parecia que o território fora conquistado sem resistência.

Funcionários caminhavam mais devagar, cochichavam pelos corredores, observavam as mudanças como quem pisa em solo instável. Alguns evitavam contato visual. Outros tentavam parecer animados demais. Todos sentiam o mesmo: nada mais era como antes.

Elisa chegou às oito e meia em ponto.

Vestia um tailleur cinza-escuro de corte impecável, sóbrio, sem qualquer concessão à vaidade. Não precisava provar nada com roupas, mas sabia que, naquele dia, cada detalhe seria interpretado como sinal de força ou fraqueza. Carregava uma caixa pequena com objetos pessoais: um porta-retratos, dois livros técnicos anotados à mão, uma caneca branca com o logo antigo da empresa.

Fragmentos de uma vida que deixara de existir oficialmente às 23h47 da noite anterior.

Clara a aguardava na recepção. O sorriso profissional não escondia os olhos vermelhos nem o cansaço acumulado.

— Elisa… — começou, mas corrigiu-se rapidamente. — Senhora Beaumont.

— Elisa — interrompeu ela, com suavidade. — Isso não mudou, Clara.

A assistente assentiu, aliviada.

— Seu novo espaço fica na executive floor, ala oeste. Sala 812. É menor… mas tem vista.

— E você? — perguntou Elisa enquanto caminhavam em direção aos elevadores. — Continua comigo?

Clara hesitou por um segundo.

— Por enquanto, sim. O senhor D’Avila pediu que eu fosse realocada como assistente dele… mas dividindo agenda com você nos primeiros meses.

Elisa ergueu levemente a sobrancelha.

— Dividindo?

— Ele disse que você precisaria de um suporte “familiar” durante a transição.

As duas trocaram um olhar silencioso, cúmplice. Nenhuma acreditava em casualidades quando se tratava de Gael D’Avila.

No oitavo andar, Elisa encontrou sua nova sala. Envidraçada, funcional, elegante, mas infinitamente menor do que a suíte que ocupava até o dia anterior. A porta ao lado, ampla e imponente, estava aberta. A nova sala de Gael.

Ele já estava lá.

De pé diante da janela panorâmica, falava em inglês com alguém de Nova York, a postura relaxada de quem domina a situação. A cidade se refletia no vidro atrás dele como um trono urbano.

— We’ll close it by Friday — disse, seco, encerrando a ligação ao vê-la.

Virou-se com um meio sorriso.

— Bom dia, Elisa. Pontual como sempre.

Ela entrou sem pedir permissão e colocou a caixa sobre a mesa vazia.

— Bom dia, senhor D’Avila. — O tom foi neutro. — Ou devo chamá-lo de chefe agora?

Gael se aproximou lentamente, o olhar atento.

— Gael está ótimo. Aqui dentro, pelo menos. — Indicou a sala dela com um gesto casual. — Espero que esteja confortável. Se precisar de algo maior, é só pedir.

— Esta serve — respondeu ela, sem suavizar. — Quando começamos a transição técnica? Quero integrar sua equipe de engenharia à nossa o quanto antes.

Ele inclinou levemente a cabeça, divertido.

— Ansiosa para trabalhar comigo?

Elisa cruzou os braços, firme.

— Ansiosa para garantir que minha tecnologia não seja desmantelada ou revendida em pedaços.

Gael deu um passo à frente. A distância entre eles diminuiu de forma calculada.

— Eu não compro empresas para desmontá-las, Elisa. Compro para fazê-las crescer. — Os olhos dele brilharam com convicção. — Sua IA tem potencial global. Com meus recursos, dominamos o mercado de saúde na América Latina em dois anos.

— Com você no comando — corrigiu ela.

— Exatamente. — Ele a observou por um instante a mais do que o necessário. — E por isso preciso de você. Não apenas como consultora. Quero você liderando o produto. Reportando diretamente a mim.

O calor subiu pelo pescoço de Elisa. A proposta era grande demais para ser apenas estratégica.

— E as condições? — perguntou, cautelosa.

— Lealdade à nova visão. — Ele respondeu sem hesitar. — E disponibilidade. Viagens, reuniões fora do horário, jantares com investidores. O pacote completo.

O silêncio entre eles se estendeu por segundos densos.

— Eu aceito — disse Elisa, finalmente. — Com uma condição minha: nenhuma decisão técnica sem minha aprovação final nos primeiros seis meses.

Gael estendeu a mão.

— Feito.

O aperto foi firme. Familiar. Perigosamente elétrico.

— Então vamos começar — disse ela, afastando-se. — Primeira reunião em trinta minutos. Traga Pedro e o time de IA.

Às nove e meia, a antiga sala de Elisa estava cheia novamente. Pedro, Sofia e três engenheiros sêniores sentavam rígidos, atentos. Gael ocupava a cabeceira. Elisa, à direita dele.

— Vamos ser diretos — começou Gael. — A D’Avila Capital investirá cinquenta milhões nos próximos dezoito meses. Prioridade um: lançamento comercial completo na rede privada de São Paulo e Rio. Prioridade dois: parceria piloto com o SUS.

Pedro arregalou os olhos.

— Isso é… enorme. Mas o cronograma…

— Agressivo — completou Gael. — Por isso Elisa assume como Chief Product Officer interina.

Todos olharam para ela, surpresos.

— Precisaremos de contratações — disse Elisa, assumindo o papel com naturalidade. — Pelo menos quarenta engenheiros nos próximos três meses.

— Aprovado — respondeu Gael, sem piscar. — E você lidera as entrevistas.

A reunião avançou com decisões rápidas, cortes precisos e metas ousadas. Gael era implacável, mas ouvia Elisa sempre que ela falava. Aos poucos, a tensão no ambiente diminuía.

Quando os demais saíram, Gael segurou Elisa pelo braço, suave, mas firme.

— Você foi brilhante. Eles confiam em você.

— Eles confiam que eu não vou deixar você destruir o que construímos — respondeu ela.

Ele sorriu.

— Talvez eu goste desse seu instinto protetor. — A voz baixou. — Jantar hoje, às vinte. Investidor japonês. Quero você comigo.

— Isso é ordem ou convite?

— Os dois.

Elisa respirou fundo.

— Eu vou. Mas é trabalho.

— Claro — respondeu Gael, com um sorriso lento. — Apenas trabalho.

Quando saiu da sala, Elisa sentiu o coração bater mais rápido do que deveria. Perdera a empresa. Mas algo novo surgia naquele jogo perigoso.

Desafio.

Curiosidade.

E uma tensão que não cabia em planilhas.

O novo chefe já mudava as regras.

E ela sabia que, dali em diante, cada passo teria consequências que iam muito além dos negócios.

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