MasukLembranças de Camila…
Camila lembrava-se, vívidamente, da noite anterior. Quando Ravi chegou com Malú desacordada nos braços, seus olhos estavam carregados de preocupação. Ele a deitou com delicadeza no sofá e, sem perder tempo, pediu que ela ligasse para o doutor Fonseca.Também ficou preocupado com a sua filha, que não parava de chorar, pedindo o colo da mãe. May chorava sem parar, ficando com seu rostinho manchado de lágrimas, chamando pela mãe. — Shhh, pequena… já vai passar… — murmurou Camila, embalando-a nos braços. Ela preparou uma mamadeira, na esperança de acalmá-la, e por alguns instantes conseguiu. Mas logo May começou a se remexer, inquieta, buscando o calor materno. Foi então que Ravi pegou a garotinha nos braços. Para surpresa de todos, o choro cessou imediatamente. Não só isso, mas um sorriso tímido iluminou o rostinho da pequena, como se, de alguma forma, ela já confiasse nele. — Que coisa incrível! Parece que a garota adorou o patrãozinho! — comentou Camila para Fernanda e Gabriela, que observavam a cena. — Sinal de que já tem bom gosto desde pequena! — brincou Gabriela, piscando para Camila. Por favor, Cami, não me leve a mal, não tá? Mas eu, no lugar dela, também ia preferir o colo dele que o seu! — falou brincando Gabriela, que não perdia uma. — Menina, pelo amor de Deus! — repreendeu Fernanda, lançando um olhar severo para a filha. — Que foi, mãe? Eu tenho culpa se tenho um patrão que é um colírio? Cafajeste, sim, mas um gato! Dá até gosto trabalhar pra ele! — falou ela rindo e piscando para Camila. Falava isso só para deixar a sua mãe aborrecida com suas observações atrevidas. Camila riu, enquanto Fernanda suspirava, resignada com as observações atrevidas da filha. Mas Gabriela não parou por aí. — Agora, falando sério… vocês viram como aquela moça é linda? Mesmo desmaiada, parecia uma princesa de conto de fadas! E ele estava tão preocupado… será que é namorada do patrão? Fernanda cruzou os braços. — Não nos metemos na vida dos nossos patrões, Gabriela. Já te ensinei isso! — Ah, mãe, só estou comentando! E, sinceramente, qual seria o problema de querer que o patrão seja feliz? Seria lindo ver esta casa cheia de vida, cheia de crianças! Camila apenas balançou a cabeça, sorrindo. Conhecia bem Gabriela e sua mente alcoviteira. Já devia estar imaginando casamento, filhos e um final feliz para Ravi e a moça misteriosa. Voltando ao presente... Quando sentiu o olhar afiado de Ravi, Malú ficou totalmente tensa e isso era visível para ele. Ela engoliu em seco ao ouvir as palavras dele, sentindo seu coração acelerar. O olhar firme dele a atravessava como se pudesse ver além das suas palavras hesitantes, Ravi a encarou e respondeu com franqueza: — É visível que está fugindo de alguém, porém, tenho toda a certeza de que não é da polícia. Malú sentiu um frio na espinha. Apertou instintivamente os dedos contra a barra do lençol que ainda a cobria. — Por que diz isso? — Sua voz soou mais fraca do que ela gostaria. Ravi inclinou-se levemente para frente, apoiando os cotovelos sobre os joelhos, sem desviar o olhar. — Porque esse alguém a machucou. Muito. E, pelo jeito, ainda quer machucá-la. Ela arregalou os olhos e, sem perceber, segurou a respiração. A mente dela disparava, tentando encontrar uma resposta convincente. — Não, senhor Castellani, acredite está enganado, não é bem assim eu... eu estava fugindo sim, mas não… — começou a dizer Malú. Porém, de repente parou, antes que pudesse falar em algo, sentiu uma onda de pânico, ao lembrar de uma coisa importante, então encarando-o perguntou assustada: — A minha mochila… onde está?— murmurou, virando-se bruscamente e imaginando que ele poderia ter visto o conteúdo dela. Ravi, porém apenas ergueu o queixo, apontando para o sofá com um leve movimento de cabeça. Lá estava sua mochila, intacta. O alívio veio rápido, mas não o suficiente para apagar o medo. Ela se levantou apressadamente, e ainda segurando o lençol sobre o corpo, caminhou até o sofá e agarrou a alça com força. Ravi a observou em silêncio. Era nítido que aquele objeto era mais do que apenas uma mochila. Talvez contivesse tudo o que ela tinha de mais valioso. — Então, se não é como eu imagino… — Ele inclinou-se para frente. — O que aconteceu? Malú abaixou o olhar, os dedos brincando nervosamente com o zíper da mochila. — Estava apenas fugindo do meu patrão, queria um trabalho de arrumadeira lá no hotel, seria ótimo para mim, porém queria garantir-me primeiro, para depois lhe dar um pé na bunda dele. — Bem, se estava procurando novo emprego não tinha porque fugir dele, não é mesmo? — falou Ravi sondando-a. — Bem… é que eu ainda não tinha garantia de novo emprego, e como ele é muito mal caráter, se me visse procurando trabalho ali, provavelmente me despediria, sem meus direitos, eu só queria um trabalho novo, algo mais seguro… — Ela engoliu em seco, desviando os olhos. — Quando o vi no hotel, fiquei com medo. Então me escondi no seu carro…— falou ela, mentindo-lhe. As palavras saíram apressadas, e Ravi percebeu imediatamente a mentira. Mas antes que pudesse contestá-la, o som frágil de um choro de bebê cortou o ar. Malú imediatamente esqueceu sua defesa e se apressou para embalar a pequena May. — O que foi, minha florzinha? — sussurrou ela, acariciando os cabelos sedosos da garotinha. Mas o choro não cessou. May remexia-se inquieta nos braços da mãe, e Ravi franziu o cenho então perguntou preocupado: — O que ela tem, está com dor? Malú balançou a cabeça em negativo, ajeitando melhor a menina no colo. — Não… está apenas com fome… — Então por que não a amamenta? Ravi perguntou naturalmente, mas a reação de Malú foi imediata. O rubor tingiu-lhe as bochechas, e seus olhos arregalaram-se como se ele tivesse dito algo absurdo. Ravi cruzou os braços, sentindo um leve incômodo pela reação dela. — Ah, não! Por Deus, garota, acredita mesmo que sou tão pervertido a esse nível? O que preciso fazer para você parar de me olhar assim? — Não… — Malú baixou a cabeça, envergonhada. — — Não, senhor Sampaio, desculpe, entendeu-me mal. Não é isso… é que eu… nunca pude amamentá-la… O silêncio que se seguiu foi denso. Ravi piscou algumas vezes, assimilando a informação. Pela primeira vez, viu algo além do medo nos olhos de Malú: uma dor profunda, algo que a corroía por dentro. Ele pigarreou e coçou a nuca, sentindo-se um completo idiota. — Bom… acho que também fui um pouco grosso… Mas já que estamos falando de comida… — Ele forçou um sorriso. — Acredito que ambas devem estar famintas. Camila já preparou o café, e aposto que vai me matar por não ter lhes chamado antes. Ele havia esquecido de convidá-la para o café. Afinal, a poucas horas atrás, Camila falou que serviria o café, mas como ambas estavam ainda dormindo, esperou elas acordarem. Porém, quando começou a conversa com aquela incógnita em forma de mulher, ele acabou esquecendo. Ravi ergueu-se e ajeitou a gola da camisa, então sorriu para a garotinha que estava nos braços dela. — O que essa fofinha gosta de comer? May, que havia parado de chorar, encarou-o curiosa, fazendo com que um sorriso banguela surgisse em seu rostinho. Então falou: — Então vamos levar a pequena para tomar café. Afinal, após alimentá-la, você me dará a honra de tomar café comigo. Malú hesitou. — Eu… não precisa se preocupar comigo… ravi a interrompeu. — Não aceitarei um "não" como resposta. Você precisa se alimentar bem. Ordens médicas. Além disso, precisa conhecer minha equipe. Quem sabe isso a ajude a perceber que não sou nenhum monstro abusador? Os únicos homens que existem nesta casa são os meus três seguranças e o seu Alfredo, o motorista — disse Ravi. — Mas eu… — Já disse! Está debaixo do meu teto, e querendo ou não, terá que me obedecer. — falou ele de forma séria, depois suavizou o rosto e falou olhando novamente para a menina: — Agora vamos, antes que essa coisinha linda e coradinha volte a abrir a boquinha chorando! — falou ele rindo para a menina e recebendo um lindo sorriso de volta. Malú suspirou derrotada, mas não contestou. Quando viu Julian segurar May com tanta naturalidade, algo dentro dela suavizou. A garotinha o observava como se já o conhecesse há muito tempo, e isso a surpreendeu. May normalmente não gostava de estranhos. Mas ali, no colo daquele homem que até ontem era um desconhecido, parecia incrivelmente à vontade. — Vamos? — Ravi estendeu a mão para Malú, mas ela apenas assentiu, caminhando atrás dele.Sorrindo e sentindo-se bem melhor, Luna acariciou o rosto de Cristiano, beijou-o com carinho e disse: — Prometo que, se sentir algo estranho, aviso. Mas, para provar que estou bem, te convido a dançar. — Luna… minha princesa, tem certeza? — perguntou ele, ainda preocupado. Sua mãe Diana também preocupada perguntou:— Você tem certeza minha filha que realmente está melhor?Ela sorriu e puxando seu marido disse:— Não se preocupe, mãe realmente me sinto melhor. — Depois olhando para o seu esposo disse: — Vem logo, seu bobo! Você sabe como adoro dançar com você. Além disso, como a Natália disse, esse é só o começo. Nosso pequeno ainda vai nos dar muitos sustos!Cristiano olhou para Miriã e Diana, que sorriram e acenaram em aprovação. Ele então seguiu Luna para a pista, encantado ao vê-la tão radiante, afinal amava ver o quanto ela evoluiu após o tratamento e quanto ela adorava sentir e espalhar sua felicidade a todos como nunca antes. Sim pois agora Luna não temia a felicidade — vi
Muito tempo depois que todos os convidados foram para a pista de dança, Malú conversava animadamente com as mulheres, incluindo Diana, Luna, Miriã e Natália, agradecendo a todas pela decoração maravilhosa que a ajudaram a escolher. À distância, porém, ela sentiu o olhar intenso do marido fixo nela. Seu vestido de noiva, suave e com as costas nuas, parecia hipnotizá-lo, e Ravi a observava com um desejo tão evidente que Malú corou. Ela tentou disfarçar, mas ele, bebendo champanhe, sorriu de modo malicioso ao notar seu constrangimento. Heitor aproximou-se dele e disse, em tom brincalhão: — Irmão, em vez de gravata, devias ter comprado um babador. Se continuar assim, vai manchar esse terno Armani impecável! Ravi riu, tentando manter a compostura: — Está tão óbvio assim, Heitor? — Que és louco pela tua esposa? Quase tão óbvio quanto eu por Natália! Os dois trocaram um sorriso cúmplice, observando as respectivas esposas com admiração. Gabriela, Fernanda e Camila se juntaram
Enquanto isso, dentro do carro, Malú estava tão nervosa quanto Ravi. Seu coração batia acelerado, as mãos suavam, e a ansiedade ameaçava dominá-la. Quando chegou à porta da catedral e ouviu os primeiros acordes da marcha nupcial, sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos — não de medo, mas de gratidão por aquele momento tão sonhado. Antes que pudesse ceder à emoção, Olga sussurrou ao seu lado, segurando-lhe o véu com carinho: — Agora não, querida! Olha a maquiagem! Malú riu entre lágrimas, respirando fundo. O ar carregava o perfume das flores do bouquet, e o sol dourado da tarde banhava a entrada da capela como um sinal de benção. Ela então segurou firmemente as mãos de Eduardo e Breno Ramírez, decidida a entrar com os dois. Eduardo, o homem que ajudara a moldar Ravi no marido amoroso que ele era hoje, e Breno, seu pai biológico, que, mesmo tardio, encontrara redenção. Juntos, simbolizavam o passado e o futuro se unindo em harmonia. Quando finalmente começou a caminhar pelo
Algum tempo depois, com ambos conversando mais tranquilamente, Breno Ramírez, já mais aliviado, mostrou a Malú tudo o que guardara de Sofia: fotos, cartas, lembranças que mantinha com carinho, como se ainda tentasse honrar o amor perdido. Naquele momento, Gabriel entrou no escritório com May no colo. A pequena parecia curiosa com o ambiente novo e, ao ver Malú, estendeu os bracinhos. Breno olhou para a menina e perguntou, sorrindo: — Não me diga que essa é a outra filha de Sofia? Malú sorriu, a expressão refletindo a paz de um coração que finalmente cicatrizava: — Sim, pai. Ela é nossa irmãzinha. Esta é Maila. Breno sorriu com ternura, aproximando-se para fazer afagos em May, que o encarava com olhos brilhantes de curiosidade. Gabriel, intrigado com Malú chamá-lo de "pai", arqueou uma sobrancelha: — Pai? — Sim, Gabriel. Pai… nosso pai. O sorriso de Gabriel alargou-se. Movido pela felicidade do momento, abraçou Malú e Breno ao mesmo tempo. — Nossa, Malú… Não i
Malú não conseguia desviar o olhar de Breno. Mesmo em poucos dias desde que o vira pela última vez, sua aparência parecia ter mudado. Ele estava ainda mais pálido, mais frágil, como se o peso dos anos e da doença tivesse avançado rapidamente sobre ele. Era estranho ver aquele homem, que, segundo Gabriel, fora um dia tão imponente. Mas ela não se deixou comover tão facilmente.Virou-se para Gabriel, séria, a voz carregada de ressentimento.— Ravi jamais teria deixado você me trazer aqui se soubesse para onde estava me levando — afirmou. — Você sabe muito bem que a presença desse homem não me faz bem.Gabriel sustentou o olhar da irmã, mantendo-se firme.— Ouça, Malú… Apenas dê uma oportunidade para ele. Escute-o com atenção. Depois, se quiser julgá-lo, julgue-o como quiser, e se quiser me odiar por isso, tudo bem, terei que aceitar. Mas eu precisava fazer isso, minha irmã, e só entenderá por quê quando o ouvir.Ela permaneceu em silêncio, cerrando os punhos ao lado do corpo, enquanto
Gabriel ainda estava de pé, os olhos estreitados diante das palavras de Breno Ramírez. Sabia que o pai escondia algo importante, mas a resposta demorava, e sua paciência se esgotava. — Por quê? — exigiu, cortante. Ele ecarando o filho tentou falar algo:— Gabriel, preciso primeiro… — Perguntei por quê, senhor Breno Ramírez? — repetiu, a voz carregada de desconfiança. — E não tente me enrolar, não sou um investigador atoa. Conheço mentiras a quilômetros de distância. Se inventar algo, vou saber! Breno suspirou, passando a mão pelo rosto enrugado. Ergueu os olhos para o filho, e um tom melancólico e rouco tomou sua voz: — Você conhece mentiras, Gabriel… mas saberia reconhecer uma verdade se estivesse diante de uma? Gabriel franziu a testa, a raiva dando lugar a uma hesitação fugaz. — Do que está falando, Breno? O homem recostou-se na cadeira de rodas, um suspiro pesado escapando-lhe: — A verdade, filho… Quer mesmo saber? Estou morrendo. Os médicos me deram apenas mais







