FAZER LOGINLaura
Quando Elijah chegou com o tio Caine, trazendo um café quentinho e um muffin só para mim, eu precisei de uns segundos para processar. Sério. Porque, veja bem, aquele homem tem cara de que não sabe sorrir nem sob ameaça de tortura medieval. Aquele tipo de sujeito que dá “bom dia” já cobrando juros. E, ainda assim, ali estava ele, entregando um muffin como se fosse uma oferenda divina, e um café que, convenhamos, é praticamente uma declaração de amor no universo das professoras. Sim, eu me senti tocada. Não no corpo (infelizmente), mas na alma. Porque, se até Caine Westbrook tem um coração, então talvez o mundo não esteja tão perdido assim. Mas logo percebi a urgência nos gestos dele, como quem faz questão de deixar claro: “cumpri minha obrigação, agora preciso correr porque minha vida importante me chama”. E é lógico, né, Laura? Ele é um tubarão dos negócios. Um homem que parece ter uma reunião marcada até pra ir no banheiro. Não sobra espaço na agenda para coisas de criança, glitter e coreografia com girassóis. Só que… Elijah ama o tio. Isso é inegável. Ama de um jeito que dói de ver. Inclui Caine em tudo, até quando o homem não aparece. “Meu tio ia gostar desse desenho”, “meu tio sabe consertar”, “meu tio uma vez me mostrou tal coisa”… Nathan já tinha me falado sobre o irmão mais velho, mas ouvir de Elijah é outra coisa. É quase como se o menino enxergasse nele um super-herói de capa invisível. Eu só não imaginava que esse super-herói seria… tão gostoso. Sim, eu disse. E vou repetir mentalmente até o fim do dia. Gostoso. Aquele tipo de homem que entra em qualquer sala e automaticamente faz você pensar em duas coisas: Ele vai dominar qualquer conversa. E provavelmente domina uma mulher na cama com a mesma intensidade. Eu sei, eu sei. Consciência escandalizada, gritando dentro de mim: — O que é isso, sua doida? Cobiçando os familiares dos alunos agora? Mas, sinceramente? É impossível não notar Caine Westbrook. Até a senhorinha da limpeza comentou, depois que ele saiu, abanando o rosto com o espanador: — Esse homem trouxe calores que eu não sentia há muito tempo, menina. E olha… não houve uma única funcionária que discordasse. Eu não sei se o assustei com minha “alegria exagerada” ou se ele só me achou maluca mesmo. Quer dizer, vamos recapitular: O homem chega com aquela cara fechada de CEO que engole concorrente no café da manhã, usando um terno que custa mais do que o meu carro inteiro, entrega um muffin com a delicadeza de quem assina um contrato e, depois de aguentar a apresentação das crianças, minutos depois já está desaparecendo pelo portão da escola como se o chão estivesse pegando fogo. E eu fiquei lá, segurando o café, o muffin e um leve sentimento de: “o que acabou de acontecer aqui?”. — Está tudo bem, Miss Laura? — perguntou Ana, minha colega de sala, reparando que eu estava meio… aérea. — Está sim… só… admirando o poder de um café quente vindo de um homem bonito. — Como é? — Nada, Ana. Absolutamente nada. Dei um gole no café e me afundei na tarefa de reorganizar as mochilinhas das crianças, tentando ignorar a lembrança da voz dele dizendo meu nome. Laura. Só isso. Mas dito com aquele tom grave, firme, que poderia significar duas coisas: ou ele estava prestes a me demitir de uma empresa que eu nem trabalho, ou prestes a me convidar para um jantar íntimo. E, honestamente, não sei qual opção seria mais perigosa. Ok, chega. Definitivamente, estou carente. É isso. Só pode ser isso. Três meses sem beijo decente, sem transa satisfatória — só meia dúzia de encontros frustrantes, onde a parte mais emocionante era decidir qual pizza pedir. Aí, de repente, aparece um homem daqueles na minha sala, e meu cérebro resolve escrever sozinho um roteiro de comédia romântica adulta em plena quarta-feira. Mas o que realmente me pegou não foi nem o muffin, nem os olhos intensos (que, convenhamos, dariam fácil propaganda de perfume masculino proibido para menores de 21 anos). Foi a forma como Elijah olha pra ele. Como se o tio fosse o personagem principal da vida dele. Como se não importasse que apareça pouco — quando aparece, basta. E talvez baste mesmo. Porque, para uma criança, esses pequenos gestos — trazer um café, assistir a uma dança de girassóis, ficar presente por meia hora — já dizem tudo. E isso, sinceramente, é mais do que muita gente faz. Nathan já tinha me falado do irmão. Disse que Caine era reservado, sério, focado até a alma nos negócios da família. Que raramente se permitia lazer, mas que sempre esteve presente quando necessário. Foi ele quem segurou tudo quando Naomi… quando as coisas ficaram insuportavelmente difíceis. Não gosto de pensar nisso. Mas sabe o que Nathan nunca mencionou? Que o irmão mais velho tem aqueles olhos. Escuros, intensos, que parecem atravessar sua alma. E que, apesar de toda a pose de executivo inabalável, a expressão dele suaviza quando o sobrinho sorri. Isso ele não contou. E agora eu estou aqui, em plena tarde de atividades com massinha colorida, pensando em um homem que provavelmente já esqueceu meu nome e que deve estar, neste exato momento, assinando contratos milionários enquanto toma um segundo café — sem muffin — em uma sala com vista panorâmica para o mar. Mas tudo bem. Eu sou Miss Laura. A otimista. A que canta “Baby Shark” sem medo de ser feliz, que usa tiara de florzinhas na cabeça e acredita que o mundo precisa de mais abraços inesperados e menos formalidades. Eu sou do tipo que entrega sorrisos de brinde. Eu só não estava preparada para receber um muffin em troca. A campainha toca, anunciando o fim do recreio. Coloco o copo de café na mesa, ajeito a tiara, sacudo a saia (que já tem purpurina grudada de ontem), respiro fundo e volto para a sala. E sigo com o passo leve de quem, mesmo coberta de glitter e com massinha até na sola do sapato, ainda acredita que coisas boas podem surgir dos lugares mais improváveis. Até mesmo de um terno bem cortado e de uma carranca matinal que, por um segundo, quase me pareceu sorrir.LauraO espelho devolve uma versão minha que eu quase não reconheço — e, ao mesmo tempo, reconheço completamente.Sou eu ali. Inteira. Em paz. Com os olhos brilhando não de nervosismo, mas de certeza.O vestido é simples do jeito que eu sou, fluido, leve, nada engessado. Não parece uma fantasia. Do meu jeito. Meus cabelos estão presos de forma suave, alguns fios rebeldes escapando, porque eu jamais conseguiria ser totalmente contida — e Caine aprendeu a amar isso em mim.Respiro fundo.Penso em tudo o que me trouxe até aqui.A sala colorida da escola.O muffin inesperado.O homem sério demais para o próprio bem.O tio que virou porto.O amante que virou casa.Nunca sonhei com um casamento. Sonhei com amor, e mesmo isso, às vezes, parecia grande demais para caber na minha vida. Mas agora estou aqui, com o coração tranquilo, sabendo que não estou entrando em algo perfeito.Estou entrando em algo verdadeiro.A música começa baixa, suave, e o burburinho do lado de fora se aquieta. Seguro
LauraPor um segundo, eu esqueço como se respira.Caine ajoelhado diante de mim não faz sentido nenhum. Não com aquele terno impecável, aquela postura de homem que controla o mundo, aquele olhar que costuma intimidar salas inteiras. E, ainda assim, ali está ele.Vulnerável. Tenso. Com a mão levemente trêmula segurando uma caixinha pequena demais para carregar algo tão grande.Eu sempre achei que reconheceria o momento.Que haveria trombetas, ou fogos, ou algum tipo de aviso divino.Mas não.O momento chega silencioso, vestido de cotidiano, amor e escolhas reais.As palavras dele ainda ecoam dentro de mim.Você bagunçou minha vida.Um sorriso nasce antes mesmo das lágrimas. Porque é verdade. Eu baguncei. Entrei sem pedir licença, com meus vestidos coloridos, minhas crenças improváveis, meu jeito de sentir tudo demais. E ele… ele deixou.Olho para aquele homem que aprendeu a amar do jeito mais difícil: ficando.— Caine… — minha voz sai fraca, emocionada demais para esconder qualquer coi
CaineNunca negociei tão mal quanto estou negociando comigo mesmo agora.O espelho do quarto me devolve a imagem de um homem que já encarou conselhos administrativos hostis, audiências jurídicas intermináveis e salas cheias de investidores prontos para arrancar sangue — e que, ainda assim, nunca sentiu esse tipo específico de pânico.Minha gravata está torta.Não porque eu não saiba dar um nó.Mas porque minhas mãos simplesmente se recusam a colaborar.— Calma — murmuro para mim mesmo, ajustando o paletó pela terceira vez. — É só um pedido de casamento.Só.Como se pedir Laura em casamento fosse algo simples. Como se não fosse a coisa mais importante que já decidi fazer em toda a minha vida.Respiro fundo, apoiando as mãos na cômoda. O quarto está silencioso, mas a casa não. Ouço passos leves no corredor, uma risada abafada de Elijah, a voz de Nathan mais forte do que deveria — ainda aprendendo a respeitar os limites do próprio corpo depois da recuperação.Três meses.Três meses desde
Laura O mundo não acaba quando ele diz. Ele para. Como se tudo ao redor tivesse entendido que aquele instante precisava de silêncio. — Eu te amo, Laura Hart. As palavras não vêm acompanhadas de urgência ou posse. Não são um pedido nem uma cobrança. Saem da boca dele como uma verdade que finalmente encontrou caminho para fora. Cruas. Imperfeitas. Reais. Meu corpo ainda treme. Não do que fizemos, mas do que ele acabou de fazer comigo agora. Eu fico alguns segundos sem reagir. Não porque não sei o que dizer, mas porque sinto demais. É como se algo tivesse se encaixado dentro do meu peito com um clique suave, definitivo. Um lugar que sempre existiu e que, só agora, foi ocupado. Abro os olhos devagar e encontro o olhar dele. Caine não parece o homem inabalável que conheci. Não agora. Há algo exposto ali, vulnerável, quase assustado. Como se ele tivesse acabado de atravessar um precipício e ainda estivesse esperando o impacto. Meu coração aperta. Eu sorrio. Não o sorriso leve qu
CaineO silêncio do quarto é preenchido apenas pelo som das nossas respirações descompassadas, um eco do caos que acabamos de desencadear. Mas o silêncio é uma ilusão. Por dentro, meus sentidos estão em chamas. O corpo dela ainda pulsa, estremecendo de prazer, mas não consigo parar. O ápice que ela acabou de atingir parece ter servido apenas como combustível para o meu próprio incêndio. Sinto cada fibra do meu ser tensionada, cada músculo travado em uma expectativa agoniante. Estou duro, latejando, à beira da loucura.Não é apenas desejo; é uma necessidade primitiva que me consome de dentro para fora. Olho para baixo e vejo o rastro do que fiz com ela, o brilho da luxúria que nos conecta. Meu queixo melado, minha boca faminta, minhas mãos segurando suas coxas abertas… tudo em mim grita que eu preciso estar dentro dela. O cheiro dela — uma mistura inebriante de perfume caro, suor e sexo — invade meus pulmões, roubando meu oxigênio.— Você me deixa doente de desejo, Laura — sussurro, mi
LauraHá casas que são só paredes.E há casas que respiram.A de Caine respira diferente hoje. Não é só o reencontro de pai e filho, nem o alívio que ainda paira no ar como um perfume suave depois de uma tempestade. É algo novo. Em construção. Vivo.Eu sinto isso assim que entro de verdade, depois das apresentações, depois do abraço de Elijah, depois do olhar silencioso de Nathan que disse mais do que qualquer palavra poderia dizer.Namorada.A palavra ainda ecoa dentro de mim como se tivesse sido dita em voz alta mais de uma vez.Não porque eu não queira — porque quero. Intensamente.Mas porque não esperava. Não assim. Não daquele jeito firme, sem pedir permissão ao medo.Caine não é homem de meio-termo. Eu já sabia. Mesmo assim, ouvir aquilo diante da família dele fez meu coração tropeçar dentro do peito.— Miss Laura, você pode ver meu quarto novo depois? — Elijah pergunta, segurando minha mão como se fosse a coisa mais natural do mundo.— Claro que posso — respondo, sorrindo. — Qu







