LOGINStella
Meus dedos estão enrijecidos. Tremem. Não sei se é por causa da chuva que escorre como agulhas finas pelo meu rosto, ou se é pelo nojo que me percorre o corpo. Ainda sinto aquele cheiro podre grudado em mim, a voz asquerosa ecoando nos meus ouvidos como um pesadelo que insiste em não passar. A forma como ele me tocou, como me segurou… Eu me sinto suja. Violada. Invisível. Como se o mundo inteiro estivesse me assistindo cair sem mover um dedo.
As palavras do meu ex-marido vêm à tona, uma a uma, afiadas como cacos de vidro. “Você não passa de um pedaço de carne.” Ele dizia isso com tanta certeza, com tanto desprezo. E por um momento, aqui sozinha, encharcada, largada na rua como um lixo qualquer, eu me pergunto se ele estava certo. Mas não. Não pode estar. Eu sou mais do que isso. Preciso acreditar que sou.
A chuva aumenta, e meu corpo começa a tremer incontrolavelmente. Meus dentes batem. Minha mala pesa mais a cada passo, e o beco escuro que eu atravessei ainda parece me observar, como se a sombra daquele homem estivesse atrás de mim, esperando um deslize.
Foi então que ouvi. O barulho de um carro se aproximando devagar. Meu coração aperta. Me viro de relance e vejo uma BMW preta deslizando ao meu lado. O vidro começa a abaixar, devagar, e meu corpo inteiro entra em estado de alerta. Eu não ouso olhar, não ainda. Estou pronta para correr, para gritar, para fazer qualquer coisa. Até que ouço a voz.
— Assim você ficará doente, sabe disso, não é?
Aquela voz… Ela me atravessa como um raio silencioso. Familiar. Profunda. Calmaria. Não sei explicar. Mas algo dentro de mim afrouxa. Uma parte adormecida de mim, que já conheceu aquela voz antes, desperta com um sobressalto. Me viro lentamente, tentando enxergar quem está por trás do vidro escuro.
— Você é muda ou algo do tipo? — ele pergunta de novo, e eu finalmente consigo responder.
— Não, eu só…
Só não quero explicar por que estou sozinha, arrasada, à beira de uma crise de ansiedade, sendo vigiada por um desconhecido. Não quero confessar que minha alma está em pedaços.
— Entra no carro — ele diz.
— Estou molhada, não quero molhar o banco e nem sujá-lo. No momento não tenho dinheiro para te pagar uma lavagem — respondo, com uma sinceridade patética que me faz sentir ainda mais vulnerável.
Ele ri. Um riso seco, sarcástico. E me responde com uma leveza que parece debochada:
— Lavagem não é o problema para mim, e muito menos o banco molhado. Se te fizer bem, tenho outros carros no qual posso usar.
Hesito. Olho para a rua vazia, para os meus pés molhados, para as minhas mãos geladas. Nenhum outro carro passa. Ninguém se aproxima. E aquela voz, aquela maldita voz, ainda me embala com a falsa sensação de segurança. Então eu abro a porta de trás e entro. Acomodo minha mala ao meu lado, sentindo o calor do carro me envolver como um abraço distante. Ele também está molhado, percebo. As gotas ainda escorrem por seu pescoço, pelo colarinho de sua camisa escura. Ele é forte. Não sei dizer por que reparo nisso, mas reparo.
— Seus pais não te ensinaram a não entrar em um carro de um estranho? — ele pergunta, com um tom de ironia.
— É que… — paro, tentando encontrar palavras — Se eu não aceitasse, o risco de doença ia aumentar, e que… — suspiro. — Sua voz me passou tranquilidade, senti que não me machucaria.
Ele fica em silêncio por um segundo. E então:
— É, você tem razão.
Sinto meu corpo relaxar, só um pouco. Ele pergunta:
— Para onde você vai?
— Para a casa de Cibelle Warren, ela mora a três quarteirões daqui.
— Sei bem onde fica a casa dela.
— Você a conhece?
— Claro. E toda a sua família também. Seu esposo, marido, filho e irmão.
— Compreendo.
— Me diz, por que está indo para casa dela a essa hora da noite?
— Razões pessoais — respondo, mas a verdade é que não tenho forças para dizer mais nada. Ele já deve saber. Talvez ele saiba tudo.
Durante o trajeto, o silêncio se instala entre nós como uma sombra confortável. Mas não consigo ignorar a sensação dele me observando pelo retrovisor. Ele não disfarça. Me olha com intensidade, com uma curiosidade silenciosa. Mas há algo mais… algo que me faz estremecer. É como se ele me enxergasse de verdade. Como se visse além da maquiagem borrada, do cabelo grudado, da roupa encharcada. Mas, por algum motivo, eu não consigo vê-lo direito, porém, ele é familiar.
Cerca de dez minutos depois, ele estaciona diante da casa de Cibelle. Respiro fundo. Minhas mãos estão trêmulas de novo.
— Chegamos ao seu destino — ele diz, sem me encarar.
— Obrigada — aperto as mãos no colo, nervosa. — Olha, desculpa ter te incomodado, não tive um dia legal. Obrigada por tudo.
Ele apenas diz:
— Se cuide.
Desço do carro sem saber o que sentir. Ele não me pediu nome, não me ofereceu conselhos, não tentou ser gentil demais. Mas me salvou. À sua maneira.
Antes que eu toque a campainha, Cibelle escancara a porta, como se já soubesse. Ela olha para o carro que arranca cantando os pneus, e depois volta seus olhos para mim.
— O que houve com você? — pergunta, escaneando cada centímetro do meu corpo molhado.
— Veyne pediu o divórcio… e me expulsou de casa — respondo. E não aguento mais.
Meus joelhos fraquejam. Me jogo em seus braços, desabo. O choro sai sem controle, como um rio que rompe uma represa. Cibelle não se importa com minha roupa encharcada, não se importa com o caos que sou. Ela apenas me abraça.
Ela sempre soube da nossa história. Foi uma das poucas a me apoiar quando me envolvi com Veyne. Sabia de tudo… talvez até mais do que eu quis admitir.
Ela me leva para dentro. Me acolhe. Me dá roupas secas, um quarto quente, uma refeição. E, pela primeira vez em dias, eu sinto que posso respirar. Mas ainda não tenho forças para comer. A dor ainda pesa. A humilhação ainda queima. O cansaço é maior. Deito e deixo que meus olhos se fechem.
Talvez amanhã eu reencontre um pedaço de mim.
Mas hoje… hoje eu só quero dormir.
***
Acordei com os olhos ainda pesados, latejando pelas lágrimas que derramei na noite anterior. Mas não havia tempo para fraquezas. Eu precisava me levantar — ainda que fosse com os pedaços quebrados de mim mesma.
Cibelle me esperava na cozinha dos Warren, com um sorriso calmo e os olhos compreensivos. Ela não disse muito, mas também não precisava. Só sua presença me sustentava.
— Eles não te merecem, Stella. Você é melhor que todos eles, em todos os aspectos — disse ela, enquanto me entregava uma xícara de café quente e começava a separar os pincéis de maquiagem.
Não chorei. Não ali. Me deixei cuidar.
Ela me ajudou a me arrumar, escolheu uma roupa elegante, penteou meu cabelo com delicadeza e cobriu minhas olheiras com mais carinho do que base. E quando me olhou nos olhos, foi como se ela me devolvesse a coragem que eu havia perdido.
Depois do café da manhã, fomos juntas para a empresa. O trajeto até lá foi silencioso. O tipo de silêncio que antecede uma guerra. Eu estava pronta.
Mas nada me preparou para os olhares. Assim que entrei pela porta principal, os sussurros começaram como serpentes rastejando pelas paredes. Uns me olhavam com pena. Outros, com desprezo. Ouvi comentários disfarçados, risos abafados, mentiras sem contexto.
"Ela só conseguiu isso porque era casada com o Veyne."
"Mais uma donzela querendo brincar de chefe."
Eu engoli cada palavra como veneno e as enterrei dentro de mim. Respirei fundo, lembrando do que Cibelle me dissera.
“Você é melhor que todos eles.”
Caminhei pelos corredores que eu mesma ajudei a construir, com o peito inflado de memórias que Veyne tentou apagar. A sala de reuniões parecia menor do que antes. Talvez fosse o peso do que estava prestes a acontecer.
Esperei pacientemente enquanto os funcionários e patrocinadores se reuniam. Um a um, chegaram. Como se fossem peças de um jogo que eu conhecia muito bem. O último a entrar foi ele — Veyne. O homem que uma vez jurei amar. Ele me olhou como se eu fosse algo podre no canto da sala. Mas eu sorri, mesmo com a dor na barriga.
— Bom dia a todos e a todas! — anunciou, com aquele tom debochado de sempre. — Reuni todos aqui hoje para informar que Stella Louise, minha ex-esposa, será, a partir de hoje, a Acionista Majoritária da empresa.
Silêncio. E depois, caos.
— Isso é uma piada, certo? — Annah bufou, indignada.
— Ela não é qualificada! — Meyer se exaltou, afrouxando a gravata como se estivesse prestes a sufocar.
E então Veyne, como o covarde que sempre foi, completou:
— Sei que essa mulher só serve para ser dona de casa, mas… devemos aceitá-la.
Doeu. Como se ele cuspisse em tudo que construí com minhas próprias mãos. Mas eu não recuei.
— Devo lembrá-los que essa empresa também é minha? Eu fui uma das responsáveis por criá-la. Vocês terão que me aceitar aqui, querendo ou não. A decisão foi tomada. E eu não voltarei atrás.
Silêncio.
Eles não disseram mais nada. Mas seus olhares diziam tudo. Ninguém ali queria me ver naquele cargo. Não por falta de mérito — mas por puro preconceito.
Peguei minha bolsa e fui em direção à porta. Estava prestes a sair da sala quando olhei para Veyne, direto nos olhos. Ele empalideceu. Sorri, vitoriosa.
— Passarei na mansão para buscar o resto das minhas coisas.
Não esperei resposta. Caminhei até minha nova sala com passos firmes. Mas ao chegar à porta, a voz dela me cortou como navalha.
— Aproveite enquanto pode, Stella. Isso não vai durar — disse Rosalyn, ao lado da mãe.
Meu estômago revirou.
— O mesmo digo a você, querida — respondi, erguendo o queixo. — Se ele me traiu com você, também vai trair você assim que se cansar.
— Não me compare! — ela se aproximou e cravou as unhas no meu pulso. — Em todos os aspectos, sou melhor do que você!
Sem pensar, empurrei-a para longe. Ela caiu como uma atriz barata de novela das oito.
— Amor! Ela me agrediu! — gritou, e sua mãe fingia choro, encenando junto.
E então aconteceu. Veyne atravessou o espaço entre nós e me acertou com a palma aberta no rosto. Senti o estalo. Vi as estrelas. Minha cabeça virou com força e bateu na parede. O corte abriu de imediato. A dor explodiu. E ninguém, ninguém fez nada.
Fiquei imóvel por um segundo. Um segundo que durou anos.
Coloquei a mão no rosto, sentindo o sangue quente escorrer. Ele me olhava como se não tivesse feito nada. Como se eu fosse culpada.
As lágrimas vieram. Não consegui contê-las. Não por dor física — mas por vergonha. Por raiva. Por desamparo.
— Quem você se tornou, Veyne? — perguntei, com a voz quebrada.
Ele tentou se aproximar. Fingir que ainda tinha algum direito sobre mim.
— Stella…
Mas não. Não mais.
Dei um passo para trás. Um passo para longe de tudo que ele representava. Ele não era só o homem que me traiu. Ele era o homem que tentou apagar minha identidade. E falhou.
Saí dali cambaleando, a testa latejando e o rosto ardendo. Mas cada passo era um grito. Um protesto silencioso. Eu ainda estava de pé. Ainda respirando. E agora, finalmente, despertando.
Cheguei à minha sala, tranquei a porta e deslizei até o chão. Olhei para Cibelle que estava com os olhos arregalados, e com os dedos trêmulos, ela veio em minha direção e pegou o meu rosto.
— Ele me bateu — sussurrei. — De novo.
— O quê?! Isso não vai ficar assim, ele será preso agora!
— Não precisa — respirei fundo. — Só me leva embora daqui, se possível agora, amiga. Eu não aguento mais tanta humilhação.
Silêncio.
— Estarei com você até o fim. Ele vai pagar por tudo, Stella.
Me levantei do chão com a ajuda de Cibelle, que era uma das minhas maiores alicerce, limpei o sangue da minha cabeça e pressionando com um pano, suspirei. O rosto estava machucado. Mas os olhos… estavam vivos. Determinados. Hoje foi o dia em que Veyne me bateu pela última vez.
E o primeiro em que eu finalmente me levantei.
Abro a sala e o encontro parado com a mão na cabeça, como se estivesse se perguntando o que havia feito. Ignoro completamente Veyne. Não olho para trás, não dou a ele nem sequer a sombra da minha atenção. Saio da empresa o mais rápido que posso, com as pernas bambas e o coração socando meu peito como se quisesse escapar. O sangue seco ainda gruda na minha pele, o rosto lateja com a dor do tapa e com a dor mais antiga, a de ter acreditado nele. De novo.
Não é a primeira vez. Deus, não é. Ele jurou que seria a última, como todos os agressores juram, como todos os monstros se escondem atrás de promessas doces. Eu acreditei. Porque eu queria acreditar. Porque era mais fácil assim. Mas agora… agora chega.
Depois de vinte minutos, havíamos chegado. Cibelle ficou no carro me esperando, resolvendo a burocrácia da empresa com o advogado da minha família. Entro na delegacia com passos firmes, mesmo que meu corpo inteiro esteja gritando para fugir. Respiro fundo, pronta para falar, pronta para denunciar, pronta para enfrentar. Mas então... bato em algo. Alguém.
Uma parede. É o que parece. Uma parede quente, viva. Uma parede com cheiro de sangue.
Meus olhos se erguem por instinto — e lá está ele.
Hector.
O mundo para por um segundo. Um segundo longo, sufocante. Meu peito afunda, e eu sou transportada de volta à noite anterior como se meu corpo ainda estivesse preso lá. Eu o reconheço, era a ele o homem que havia me ajudado, o mesmo homem que outrora foi a minha ruina. O mesmo homem pelo qual eu me jogaria do precipício se fosse necessario.
Ele me encara em silêncio, com aqueles olhos intensos que me desmontam, como se me vissem por inteira, como se vissem o que nem eu quero ver. Ele examina meu rosto, e eu sei — eu sinto — que ele percebe o corte. Seus dedos afastam meu cabelo com uma delicadeza que me desarma por completo. Não diz nada. Só observa, e o ar entre nós se torna pesado demais. Eu quero falar, mas não sei o quê. Ele me olha como se eu fosse dele, como se qualquer um que me ferisse tivesse assinado sua própria sentença de morte. Então ele vira as costas e vai embora, tão silencioso quanto chegou. Mas o cheiro metálico de sangue ainda paira no ar.
Sigo cambaleando até a recepção, tentando recompor meu rosto, minha voz, meu corpo. Explico tudo ao delegado e ao escrivão, cada palavra mais dolorosa que a anterior. Eles ouvem, tomam nota, me entregam um papel. Uma intimação será enviada. Veyne terá que comparecer e dar sua versão. Como se houvesse versão para a covardia.
Não demora e vejo uma movimentação discreta ao fundo. Hector. De novo. Ele está ali, com os punhos cerrados e o maxilar travado. Um homem está em pé ao seu lado, e quando me vê, caminha até mim com passos apressados.
— É para a senhorita — diz, me estendendo um comprimido e uma garrafa de água.
— Quem mandou? — pergunto desconfiada, com a voz rouca, mesmo sabendo a resposta.
Ele se curva levemente, como se eu fosse alguém importante.
— O meu senhor.
"Meu senhor". Meus olhos se voltam automaticamente para fora, e o vejo. Hector. As costas largas, o terno escuro, a postura rígida enquanto entra em seu carro. Mesmo depois de tudo... ele ainda me protege.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não me sinto completamente sozinha.
StellaNove meses depoisO céu ainda está escuro quando acordo com a dor. Um latejar fundo, que começa na base da coluna e se espalha pela barriga como uma onda quente, contínua, e eu sei. Não preciso que ninguém me diga. Hoje é o dia. Ela vem aí.Tento respirar fundo, mas o ar entra entrecortado, meus dedos apertam os lençóis e um gemido escapa involuntariamente. Me viro devagar, procurando por Hector ao meu lado, e encontro o espaço vazio da cama. Antes que o pânico me domine, escuto os passos correndo pelo corredor, e logo ele aparece na porta com Daniel nos braços, os dois em pijamas amassados e olhos arregalados.— Está na hora? — ele pergunta, ofegante.— Está — consigo dizer, com um meio sorriso, mesmo entre contrações.Hector entrega Daniel para minha mãe, que já se aproxima apressada, e em menos de quinze minutos estamos no carro. Ele dirige como se cada semáforo fosse questão de vida ou morte. As mãos dele tremem no volante, mas o olhar continua firme em mim pelo retrovisor.
StellaAs luzes se acendem devagar no salão, filtrando-se pelas enormes janelas de vidro como raios dourados, enquanto eu tento controlar a respiração. O som da orquestra começa suave, violinos deslizando por notas conhecidas. Estou parada atrás das portas de madeira esculpida, segurando o buquê com tanta força que meus dedos doem, mas não solto. Não agora. Agora é o momento.Minha mãe me lança um olhar emocionado, enxugando uma lágrima que escapa pelo canto dos olhos. Ao lado dela, Cibelle me ajeita o véu com mãos firmes e olhos brilhando. Daniel, com seu terno minúsculo e gravata torta, me dá um sorriso largo e me diz:— Você tá linda, mamãe. Igual princesa de filme.Meu coração quase para. Ajoelho-me na altura dele, arrumo sua gravatinha e beijo sua bochecha.— E você é meu príncipe favorito. Preparado para entrar comigo?Ele acena com força. Dou a mão a ele, e, assim que as portas se abrem, o som cresce, os convidados se viram, e o mundo inteiro parece parar.Lá está Hector.No al
StellaUm mês se passou desde que Hector me contou toda a verdade. Desde que ele largou tudo, olhou nos meus olhos e disse que queria recomeçar. Por nós. Por Daniel. E agora, aqui estou eu, com os pés descalços sobre a grama do jardim da nossa nova casa — a mansão que um dia foi um símbolo de tudo que me tiraram e que agora, pelas mãos de Hector, virou um presente. Um recomeço literal.O sol brilha forte, o céu está limpo, e o quintal inteiro parece ter saído de um daqueles filmes infantis: balões vermelhos e azuis flutuam por todos os cantos, há bandeirinhas com teias de aranha, mesas com cupcakes decorados com a máscara do Homem-Aranha, um painel gigante com o rosto do herói favorito do meu filho... e, no centro de tudo isso, está ele: Daniel.Vestido com uma fantasia completa do Spider-Man, ele corre de um lado para o outro, com a máscara no topo da cabeça e o rosto coberto de suor e chocolate. Grita como se estivesse em uma missão, pulando nas camas elásticas, se pendurando nos br
HectorLevo Daniel de volta para casa com o coração em pedaços. O carro desliza pelas ruas escuras, e tudo o que consigo ouvir é o som do motor e a respiração leve do menino no banco de trás. Ele tá quieto, esgotado, com o rosto marcado pelo medo que viveu. Queria poder apagar tudo isso dele, mas sei que não posso. Só posso tentar compensar. Fazer o certo daqui para frente.Quando chego, vejo a luz acesa na sala. Stella está à porta antes mesmo de eu desligar o carro. O rosto dela está molhado de lágrimas, mas os olhos queimam com raiva e desespero. Ela corre até nós.— Daniel! — grita, puxando ele para perto, agarrando o filho como se tivesse medo de que ele desaparecesse de novo.Ele se agarra nela, tremendo. Fico ali parado por um momento, vendo aquela cena, e sinto a culpa me esmagar por dentro. Eu devia ter evitado isso. Devia ter contado antes. Mas não contei. E agora chegou a hora.— Ele tá bem — digo, minha voz rouca. — Eu consegui chegar a tempo.Ela se vira para mim com os o
HectorO motor do carro ruge sob meus pés enquanto atravessamos as ruas escuras da cidade. Hector dirige com firmeza, o maxilar travado, os olhos focados no GPS do celular que ele equilibra no painel. Veyne está ao meu lado, calado, tenso, as mãos espremendo os joelhos com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. O silêncio entre nós é denso, cortado apenas pelo som do vento contra os vidros.O endereço que recebi pela mensagem criptografada me queima a mente. Um galpão nos arredores do cais. Um lugar velho, esquecido pelo tempo — perfeito para um sequestro. Meus punhos fecham sozinhos. A raiva e o medo formam um nó na minha garganta. Daniel está lá. Meu sobrinho. O menino que cresceu me chamando de tio com um sorriso banguela. E agora está nas mãos de criminosos.— Vamos entrar pelos fundos. — murmuro, sem tirar os olhos da rua. — Hector, dá a volta. Não podemos correr o risco de uma emboscada.Hector obedece, desviando para uma viela escura e estreita. Paramos o carro em silê
HectorA noite se arrasta pesada quando decido ir até a empresa de Veyne. O céu escuro parece refletir o turbilhão dentro de mim. Stella está em casa, ainda se recuperando, frágil, emocionalmente devastada, e o que Rosalyn fez com ela não me sai da cabeça. É por ela que estou aqui. Por ela... e por Daniel.Estaciono o carro em frente ao prédio envidraçado e silencioso, com suas luzes artificiais brilhando como um palco falso para negócios que já não têm a mesma força. O nome de Veyne ainda está na fachada, mas a verdade é que o império está desmoronando. Entro sem avisar, minhas passadas ecoando no mármore lustroso da recepção vazia. A secretária já foi embora, e a empresa está operando em modo de sobrevivência.Subo direto para o escritório dele. Veyne está lá, afundado em uma cadeira de couro preto, perdido em uma pilha de papéis e planilhas. Ele levanta os olhos quando me vê e arregala as sobrancelhas, visivelmente surpreso.— Hector! Que surpresa vê-lo aqui.Fecho a porta atrás de







