INICIAR SESIÓNHector
Observo tudo à distância, com as mãos nos bolsos do sobretudo escuro, a gola erguida me protegendo da chuva fina que começa a cair como um presságio. O beco úmido fede a mijo, mofo e derrota. E mesmo assim, é nela que meus olhos se fixam — na mulher que, por ironia, eu perdi há muito tempo atrás. A mulher na qual eu mais amei em toda a minha vida. Stella.
Ela está diferente. Tem um jeito cansado nos ombros, um peso no olhar, mas ainda assim, é ela. A mesma garota orgulhosa que cuspia fogo e cuspia verdades. A mesma que me odiou com todas as forças depois do que aconteceu entre nós. Mas ali, agora, quando vejo aquele homem a agarrando, meu instinto se contrai como um estalo no peito. Só que não me mexo. Porque ela não precisa que eu a salve.
Ela se defende. E bem. Tão bem que quase sorrio.
O bêbado está no chão, gemendo, e eu me aproximo só quando a vejo longe o suficiente. Ela não me viu. Melhor assim. Melhor que continue achando que está sozinha, que ninguém se importa. Porque se soubesse da verdade… talvez me perdoasse. E eu não estou pronto para isso. Não ainda.
— O que achou que faria com aquela moça, hein? — Minha voz soa baixa, firme, quase entediada. Mas dentro de mim, estou fervendo. Porque encostar nela… encostar nela é o mesmo que assinar a própria sentença.
O homem se arrasta, os olhos arregalados ao me reconhecer. Sempre reagem assim. Não por mim, mas pelo que sabem que acontece depois.
— Me-m-mil desculpas, senhor! Eu não sabia quem era… — ele gagueja, tremendo. Um verme.
Me agacho lentamente, apenas para ver o medo escorrer dos olhos dele.
— Não me peça desculpas. Você nem sabe o que fez — murmuro. Me levanto sem pressa, ajeito a manga do casaco e olho por cima do ombro. — Vocês já sabem o que fazer com ele.
Dois dos meus homens se aproximam sem dizer palavra. Profissionais. Discretos. Não deixam rastros, não cometem erros.
Dou meia-volta em direção ao carro quando algo me chama atenção. Uma pedra verde. Brilhando mesmo sob a luz fraca do poste. Me abaixo e pego os brincos. Esmeralda. Luxo puro. E o design… único. Como ela. Esses brincos, eu conheço. Dei para ela, anos atrás. Quando ainda achava que podia mantê-la ao meu lado. Um presente caro demais para alguém como eu. E mesmo assim, ela os usava. Até hoje.
Meu maxilar se trava, e fecho a mão em torno da joia.
— Sejam rápidos — digo, sem tirar os olhos da direção que ela seguiu. — E não sejam vistos.
— Sim, senhor — respondem em uníssono.
Os meus homens começaram a chutar o homem bêbado, ele implorava por perdão e socorro, mas nem mesmo Deus seria capaz de salvá-lo agora. Entro no carro e bato a porta com força contida. Assim que meus homens acabam, eles levam o corpo morto para o outro carro e não falam nada. Eles sabem que hoje não é um dia bom. Ligo o aquecedor, mas o frio está dentro de mim. Puxo o brinco do bolso outra vez, girando entre os dedos. Stella não faz ideia de que não está mais sozinha. Desde que ela saiu daquela casa, eu estava aqui. Sempre estive.
E vou continuar.
Mesmo que ela nunca me veja. Mesmo que nunca me perdoe. Mesmo que eu tenha que matar qualquer desgraçado que ouse encostar nela.Ela é minha ruína.
E a única coisa que ainda me mantém vivo.StellaNove meses depoisO céu ainda está escuro quando acordo com a dor. Um latejar fundo, que começa na base da coluna e se espalha pela barriga como uma onda quente, contínua, e eu sei. Não preciso que ninguém me diga. Hoje é o dia. Ela vem aí.Tento respirar fundo, mas o ar entra entrecortado, meus dedos apertam os lençóis e um gemido escapa involuntariamente. Me viro devagar, procurando por Hector ao meu lado, e encontro o espaço vazio da cama. Antes que o pânico me domine, escuto os passos correndo pelo corredor, e logo ele aparece na porta com Daniel nos braços, os dois em pijamas amassados e olhos arregalados.— Está na hora? — ele pergunta, ofegante.— Está — consigo dizer, com um meio sorriso, mesmo entre contrações.Hector entrega Daniel para minha mãe, que já se aproxima apressada, e em menos de quinze minutos estamos no carro. Ele dirige como se cada semáforo fosse questão de vida ou morte. As mãos dele tremem no volante, mas o olhar continua firme em mim pelo retrovisor.
StellaAs luzes se acendem devagar no salão, filtrando-se pelas enormes janelas de vidro como raios dourados, enquanto eu tento controlar a respiração. O som da orquestra começa suave, violinos deslizando por notas conhecidas. Estou parada atrás das portas de madeira esculpida, segurando o buquê com tanta força que meus dedos doem, mas não solto. Não agora. Agora é o momento.Minha mãe me lança um olhar emocionado, enxugando uma lágrima que escapa pelo canto dos olhos. Ao lado dela, Cibelle me ajeita o véu com mãos firmes e olhos brilhando. Daniel, com seu terno minúsculo e gravata torta, me dá um sorriso largo e me diz:— Você tá linda, mamãe. Igual princesa de filme.Meu coração quase para. Ajoelho-me na altura dele, arrumo sua gravatinha e beijo sua bochecha.— E você é meu príncipe favorito. Preparado para entrar comigo?Ele acena com força. Dou a mão a ele, e, assim que as portas se abrem, o som cresce, os convidados se viram, e o mundo inteiro parece parar.Lá está Hector.No al
StellaUm mês se passou desde que Hector me contou toda a verdade. Desde que ele largou tudo, olhou nos meus olhos e disse que queria recomeçar. Por nós. Por Daniel. E agora, aqui estou eu, com os pés descalços sobre a grama do jardim da nossa nova casa — a mansão que um dia foi um símbolo de tudo que me tiraram e que agora, pelas mãos de Hector, virou um presente. Um recomeço literal.O sol brilha forte, o céu está limpo, e o quintal inteiro parece ter saído de um daqueles filmes infantis: balões vermelhos e azuis flutuam por todos os cantos, há bandeirinhas com teias de aranha, mesas com cupcakes decorados com a máscara do Homem-Aranha, um painel gigante com o rosto do herói favorito do meu filho... e, no centro de tudo isso, está ele: Daniel.Vestido com uma fantasia completa do Spider-Man, ele corre de um lado para o outro, com a máscara no topo da cabeça e o rosto coberto de suor e chocolate. Grita como se estivesse em uma missão, pulando nas camas elásticas, se pendurando nos br
HectorLevo Daniel de volta para casa com o coração em pedaços. O carro desliza pelas ruas escuras, e tudo o que consigo ouvir é o som do motor e a respiração leve do menino no banco de trás. Ele tá quieto, esgotado, com o rosto marcado pelo medo que viveu. Queria poder apagar tudo isso dele, mas sei que não posso. Só posso tentar compensar. Fazer o certo daqui para frente.Quando chego, vejo a luz acesa na sala. Stella está à porta antes mesmo de eu desligar o carro. O rosto dela está molhado de lágrimas, mas os olhos queimam com raiva e desespero. Ela corre até nós.— Daniel! — grita, puxando ele para perto, agarrando o filho como se tivesse medo de que ele desaparecesse de novo.Ele se agarra nela, tremendo. Fico ali parado por um momento, vendo aquela cena, e sinto a culpa me esmagar por dentro. Eu devia ter evitado isso. Devia ter contado antes. Mas não contei. E agora chegou a hora.— Ele tá bem — digo, minha voz rouca. — Eu consegui chegar a tempo.Ela se vira para mim com os o
HectorO motor do carro ruge sob meus pés enquanto atravessamos as ruas escuras da cidade. Hector dirige com firmeza, o maxilar travado, os olhos focados no GPS do celular que ele equilibra no painel. Veyne está ao meu lado, calado, tenso, as mãos espremendo os joelhos com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. O silêncio entre nós é denso, cortado apenas pelo som do vento contra os vidros.O endereço que recebi pela mensagem criptografada me queima a mente. Um galpão nos arredores do cais. Um lugar velho, esquecido pelo tempo — perfeito para um sequestro. Meus punhos fecham sozinhos. A raiva e o medo formam um nó na minha garganta. Daniel está lá. Meu sobrinho. O menino que cresceu me chamando de tio com um sorriso banguela. E agora está nas mãos de criminosos.— Vamos entrar pelos fundos. — murmuro, sem tirar os olhos da rua. — Hector, dá a volta. Não podemos correr o risco de uma emboscada.Hector obedece, desviando para uma viela escura e estreita. Paramos o carro em silê
HectorA noite se arrasta pesada quando decido ir até a empresa de Veyne. O céu escuro parece refletir o turbilhão dentro de mim. Stella está em casa, ainda se recuperando, frágil, emocionalmente devastada, e o que Rosalyn fez com ela não me sai da cabeça. É por ela que estou aqui. Por ela... e por Daniel.Estaciono o carro em frente ao prédio envidraçado e silencioso, com suas luzes artificiais brilhando como um palco falso para negócios que já não têm a mesma força. O nome de Veyne ainda está na fachada, mas a verdade é que o império está desmoronando. Entro sem avisar, minhas passadas ecoando no mármore lustroso da recepção vazia. A secretária já foi embora, e a empresa está operando em modo de sobrevivência.Subo direto para o escritório dele. Veyne está lá, afundado em uma cadeira de couro preto, perdido em uma pilha de papéis e planilhas. Ele levanta os olhos quando me vê e arregala as sobrancelhas, visivelmente surpreso.— Hector! Que surpresa vê-lo aqui.Fecho a porta atrás de







